Todos os dias, os sinos de uma distante cidade badalam ao entardecer. Anunciam a chegada da noite e com ela os medos do escuro. Quem vive lá acredita que os sinos lhes protegem e garantem a noite sem pesadelos e mortes.

– Ninguém morre à noite por aqui? – Perguntou um estrangeiro que lá esteve.

Um dos velhos sábios explicou que, às vezes, à noite, poderia acontecer de alguém partir em viagem deixando para trás o seu corpo, lembranças e algumas tristezas. – Morto, então? – Insistiu o estrangeiro.

– Não. É somente uma viagem sem volta. Deixa um corpo sem alma. Inerte, sem viço e com um leve cheiro de hortelã. O corpo não morre porque nunca teve vida. A alma é quem vivia através dele e continuará vivendo sem ele. Já a morte é diferente. Acontece quando a alma está perdida na escuridão. Confusa e amedrontada. Como num pesadelo em que sofre e faz sofrer.

O estrangeiro lembrou de sua terra. Saiu de lá para voltar quando o mal não estivesse mais por lá. Um ou dois meses, pensou há quatro meses. Percebeu que deixou uma terra de corpos doentes recheados com almas mortas.

É difícil saber quando as almas morreram, pois este tipo de coisa acontece aos poucos. Morre-se um pouquinho a cada dia triste e os dias são entristecidos mais pelas pequenas crueldades do que pelas vilanias espetaculares que não deixam nossa memória.

Talvez tenha começado com gente que mentia e corrompia. Ou então com as tragédias transformadas em espetáculos. Quem sabe, tem origem ainda mais antiga. Talvez um mal adormecido à espera de um acordar aleatório para devorar almas.

Fato é que as almas cheiravam a podridão e putrefaziam entristecendo, enraivecendo e eliminando corpos, que se amontoavam em valas abertas às pressas.

Houve tempos em que a morte despertava compaixão por se reconhecer na dor sofrida pelo outro uma dor que se poderia ter. A morte de uma pessoa pode ser comovente, mas a de centenas torna-se um espetáculo e a de milhares, um gráfico.

Banalizada, nem mesmo a morte de conhecidos traz tristeza. Rendem alguma solenidade e pêsames tão cheios de formalidades quanto vazios de afeto.

Mas há os acometidos de tristeza chorosa pela morte de quem se ama. Uns poucos, porque pouco se ama por lá. Estes sofrem quase sozinhos. Desamparados pela brutalidade de viver entre almas mortas.

Para fugir da tristeza, tornou-se estrangeiro em outras terras. Como não tinha para onde voltar, não voltou. Também não ficou na cidade. Seguiu, não se sabe para onde, procurando não se sabe o que.

Mas o velho sábio, de quem ficou amigo, soube desde o começo que aquele estrangeiro procuraria a proteção dos sinos, que não teria pesadelos e que saberia que sua viagem sem volta lhe chegaria doce como o perfume de hortelã.