Trump precisa de Lula fora do poder e Bolsonaro é o fantoche de plantão

Asseguro que, se Bolsonaro fosse colocado de um lado de uma sala espelhada, com mais quatro exemplares de homens brancos, com 70 anos, e o presidente Trump precisasse reconhecê-lo, dificilmente o faria.

Asseguro que grande parte dos militares que estiveram com Bolsonaro durante seu governo tinham grande desprezo por sua figura tosca, longe da forma como as Forças Armadas querem ser representadas.

Asseguro que, sem levar em conta o grupo de deputados federais caricatos, a maioria que apoia Bolsonaro deve fazer boas piadas sobre sua figura quando está entre pares em suas rodas sociais.

Asseguro que grandes empresários e banqueiros que apoiaram e apoiam Bolsonaro têm ojeriza de estar em sua degradada presença. Seu comportamento tosco, sua ignorância, sua escancarada falta de preparo para a vida política, nunca entendeu minimamente, a liturgia do cargo quando presidente, podem ser resumidos em uma única frase: Bolsonaro é uma figura grotesca.

Se todas as afirmações acima podem ser consideradas verdadeiras, por que o presidente dos Estados Unidos, mesmo sendo um ignóbil, se rebaixa para defendê-lo a ponto de colocar o Brasil com as mais altas taxas de exportação para o seu país, entre todos os demais países do planeta?

Se todas as afirmações são verdadeiras, por que quase 50% dos brasileiros e brasileiras votaram em Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais? Por que até hoje ele tem em torno de 30% dos votos dos eleitores?

Apesar de, à primeira vista, as afirmações parecerem contraditórias, elas não são. O Brasil é o único país no mundo que construiu – após as ditaduras militares na América Latina e alhures, no século XX – um grande partido de esquerda que sempre obedeceu às regras do regime democrático. Antes de Lula chegar ao poder, o PT perdeu três vezes as eleições presidenciais. Aguentou a deposição da presidenta do Brasil, porque foi um golpe dado de acordo com todas as regras previstas na Constituição (menos o crime de responsabilidade, mas isto é outra história). Lula foi preso e lá ficou por 580 dias, condenado por crimes nunca provados. Não pensou em fugir. Sempre, durante o período no cárcere, reafirmou sua inocência e confiou na Justiça. Quando quiseram lhe dar a liberdade em troca de uma tornozeleira eletrônica, disse não.

Enquanto a esquerda se desmanchava no ar pelo mundo, no Brasil surgia um partido de esquerda democrático e um grande líder, um estadista reconhecido internacionalmente, algo raro nas últimas décadas.

Pode-se achar que o PT não é suficientemente de esquerda, pode-se criticar as alianças espúrias que faz para se manter no poder, pode-se inclusive não se gostar do PT, mas o partido e seu líder são grandes entraves para o projeto de extrema direita em gestação no chamado mundo ocidental e que agora chega ao seu momento mais perigoso. Trump age como imperador dos Estados Unidos e tenta sê-lo do mundo, protagonizando a destruição da própria democracia estadunidense e, sem qualquer limite, avança em relação ao resto do mundo.

Daí retomamos as figuras de Bolsonaro e Trump como atores da mesma trama. Não há qualquer proximidade entre eles, e o primeiro protagonizou uma das mais vergonhosas cenas vistas entre dois presidentes da República na história do presidencialismo no planeta. Quando Trump mal o cumprimentou, ele respondeu: I love you.

Isto posto, é preciso considerar dois aspectos ao analisar estes senhores. O primeiro decorre de reconhecer que eles não são causas da desorganização destrambelhada que está vivendo a política no mundo, mas consequências de uma crise das democracias liberais que se inicia com a grande debacle do capitalismo estadunidense em  2008. O segundo aspecto resulta de ambos terem apoiadores da parte mais “moderna” da classe dominante no capitalismo cambaleante, que se reproduz fora das forças produtivas através do que Yanos Varoufakis chamou muito apropriadamente de capital-nuvem (2025). Adiciona-se a isso o fato não menos importante de que ambos são figuras carismáticas e mantêm um número muito significativo de apoiadores em seus respectivos países.

O momento do capitalismo com o domínio dos imensamente ricos, donos de um capital improdutivo, a ausência de uma utopia socialista, a crise nas formas tradicionais de trabalho, a perda dos direitos conquistados, que provocam um ressentimento generalizado e crescente, é o caldo de cultura perfeito para o avanço da extrema direita ao redor do mundo. Guardada a distância temporal e seus efeitos, há nela mais semelhanças com o fascismo e até com o nazismo do que analistas televisivos e blogueiros de ocasião ousam admitir.

Nesse quadro, o Brasil – estruturado em um regime democrático sob a presidência de um líder com relevância internacional, fundador há mais de 40 anos do maior partido de esquerda do mundo em regimes democráticos – precisa ser desarticulado. Há premente necessidade dos Estados Unidos de impedir Lula de governar adequadamente o país e, o que é mais importante, de se reeleger  em 2026.

Trump precisa de Lula fora do poder e Bolsonaro é o fantoche de plantão. Só que as classes médias, tão absolutamente bolsonaristas, já não enchem mais as ruas em manifestações de apoio. O golpe de Estado que seu grupo arquitetou por um longo período, ainda quando estava no governo, e teve o auge na baderna de 8 de janeiro, muito provavelmente levará Bolsonaro e seus mais próximos colaboradores para a prisão. Cada vez  fica mais provável uma reeleição de Lula. Saber até onde Trump irá para impedi-la é uma incógnita. Mas ele sabe, como nós também, que Bolsonaro é o único capaz de ter alguma chance ao enfrentar Lula numa eleição. O perigo está na possibilidade de os Estados Unidos chegarem ao desatino de concluir que é necessário eliminar a democracia brasileira para destruir o PT e Lula. (Publicado por Sul 21)

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli
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