O futuro exigirá dos historiadores que expliquem porque a imagem de Bolsonaro tem tamanha resiliência que, apesar de todos os fatos que se arrebentam contra o seu costado, não naufraga.

É claro que a atabalhoada tentativa de fuga de Bolsonaro tem algo de cômico, grotesco, quase infantilmente engraçado. Parece e é coisa de moleque – arte, como diziam as mães. Tá fazendo arte, menino?! Arte significando o malfeito no sentido infantil do termo, de fazer o que não se deve fazer. Fazer o mal sem maldade, inocentemente. Levado ao mundo dos adultos é comportar-se como um estúpido, um cretino, ou até alguém legalmente irresponsável.

Deveria ser risível se não se tratasse de ato praticado por um malfeitor – em prejuízo de todo o país.

De todo modo, imaginando a cena, é impossível conter o riso.

É essa, então, a dimensão do personagem que, emergindo das sombras onde se escondem os pequenos espertalhões, se torna presidente da república e logo se faz mito para milhões de fiéis seguidores? Ou, inversamente, se torna mito para logo se eleger presidente. E como que apenas para reafirmar o caráter farsesco da encenação, arrasta com ele toda a sua ninhada de pequenos malfeitores.

À fracassada tentativa de escapar das punições pelos atos criminosos cometidos o que segue é o que desde sempre vem caracterizando o comportamento dessa trupe de intrépidos bufões. Novas ameaças, mais gestos de genuína prepotência, de insistência na invenção de uma realidade paralela na qual todos os signos se invertem, o mal se torna o bem, o bandido se faz herói, o culpado se apresenta como vítima. O fio da trama está evidentemente embaraçado, mas o que importa? A teimosia da estupidez quer adquirir ares de verdade absoluta e inquestionável.

O fato é que, por uma espécie de lapso da razão coletiva (cada vez mais frequente, cada vez mais duradouro) ou seja lá pelo que for, essa pequena trupe de bufões e trapaceiros se tornou inquestionavelmente poderosa. A sombra protetora do inesperado sucesso paterno permitiu que a cada um deles fosse entregue uma fatia do butim: um se elege vereador, outro deputado, outro senador, e o mais abusado deles se designa como embaixador na sede do Império.

E eles, então, se arrogam o direito de praticar o mal com maldade – a crueldade contra milhões de inocentes.

Foram inúmeras as cenas de deboche com o sofrimento dos brasileiros e brasileiras que estavam perdendo amigos e familiares durante a pandemia protagonizadas pelo presidente, que tinha a responsabilidade de proteger suas vidas – e ele se limitou as acusá-los de mimimi.

O direito à burrice, à vulgaridade, à canalhice, à boçalidade é universal – mesmo se não fosse um direito, ainda assim continuaria existindo. Ao final do seu reinado, tornaram-se cada vez mais visíveis as consequências de uns tais atributos quando investidos em representantes do povo, em agentes políticos, em lideranças incontestes, em Presidentes. É enorme o número de vítimas. Vítimas da pandemia, vítimas do aumento da miséria. A própria imagem do país é vilipendiada mundo afora. Vítimas, enfim, dessa comicidade trágica que age até contra nossa autoconfiança e nos força a perguntar: qual a natureza desse país? Que diabos de povo somos nós?

Com tudo isso, seria um erro supor que, com o início do cumprimento da pena de 27 anos imposta pelo Supremo àquele que tentou burlar a democracia e a vontade popular, ele e sua turma sejam página virada. Sua base ideológica, mais que social, é amplíssima e é difícil imaginar que mingue significativamente, pelo menos no médio prazo. Há por detrás do bolsonarismo um vasto arco de classes e segmentos de classes aglutinados pela obstinação dos mais fanáticos religiosos, pela estupidez alimentada pela ignorância, pelo rancor e pelo ódio – e também por interesses econômicos bem disfarçados. Todo esse amálgama de interesses, desejos, recalques e frustrações está de alguma forma representado no Congresso Nacional. Na realidade, considerado o resultado das eleições de 2022, aquela que deu a Lula seu terceiro mandato, está sobrerrepresentado – se a fotografia da sociedade brasileira é, no geral, muito desagradável, ela, no entanto, não é tão ruim quanto a do Congresso que deveria, supostamente, representá-la.

O futuro exigirá ainda dos historiadores incontáveis análises e pontos de vista para explicar como um político como Jair Messias Bolsonaro se tornou, primeiro um presidente da república e, depois essa imagem de tamanha resiliência que, apesar de todos os fatos que se arrebentam contra o seu costado, não naufraga. Formam-se filas dos que disputam o seu apadrinhamento para as eleições do ano que vem e não há quem considere a hipótese de que o candidato da direita à Presidência não tenha pelo menos a anuência da autoproclamada família de ultradireitistas – como disse recentemente o representante do clã junto ao trumpismo, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, um agregado direto da trupe, não é um verdadeiro ultradireitista, mas apenas um político da direita.

Destaque-se ainda que, de nenhuma maneira, está descartada a possibilidade de que o escolhido pelos quatro herdeiros e pelo próprio chefe na cadeia os leve de novo ao palácio do Planalto.  Pode parecer fora das margens de qualquer razoabilidade, e parece, mas segue sendo uma forte possibilidade – mais assustadora que aquela que acabou se tornando realidade em 2018, e, mesmo assim, uma possibilidade.

É pelo menos considerável a possibilidade de que – seja qual for o ungido a representar o mito, e que Lula seja reconduzido ao cargo que ocupa – se acentue ainda mais o declínio moral e político desse que é hoje e cada vez mais considerado o pior Congresso da história brasileira. (Por isso, não há como nos queixarmos do seu atual presidente, o amoldável pequeno Hugo Motta – que, agora, enraivecido com Lula, acena com um centrão de duzentos e setenta e tantos deputados. Sua envergadura pode não ser das maiores, mas a daqueles que ele pretende juntar nessa nova maioria é ainda menor.) O declínio, como quase todo declínio, não começou agora, nem na eleição de 2022, que elegeu Lula, ou na anterior, que elegeu Bolsonaro.

A gênese dessa ruindade vem pelo menos desde a fraude montada para destituir uma presidenta legitimamente eleita e que não havia cometido outro delito que não fôra o de não dar muita bola (ou não ter paciência nem sabedoria de Jó para se desincumbir da hercúlea tarefa) para aquele amontoado de seres minúsculos – o então deputado Jair Bolsonaro, muito antes de sequer sonhar em ser presidente, era um dos seus destaques. A aprovação do impeachment de Dilma Rousseff já indicava, sem deixar espaço para dúvidas, o grau da inclinação da ladeira que apontava para o rés-do-chão e o tamanho do abismo que vinha em seguida.

Desde então, e não por acaso, desapareceram os grandes partidos que nasceram a partir da redemocratização – exceto o PT – e o Congresso se viu gradativamente controlado por essa massa amorfa e grudenta denominada centrão. Lula bateu Bolsonaro em 2022, sem nem de longe interromper a sangria. Daí que não seja difícil visualizar o que se configura para o futuro, mesmo – ou mais ainda – com Lula se reelegendo para o seu quarto mandato.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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