Martinho lê cada vez mais, mas não adianta. Já não sabe mais o que é certo e errado. Justamente agora, que tanta gente lhe aparece para dizer o que é certo e o que é errado. Nem todos podem estar certos, certamente, mas alguém deve estar. O certo deve estar na boca, vídeo ou palavras de alguém, mas de quem? Como saber? Martinho já não sabe.

E não é só os grandes certos e errados que Martinho já não conhece ou reconhece. Os pequenos também não. E nem mais um monte de coisas. Não sabe se pode comer margarina, se bochechar água gelada ativa o nervo vago, lhe deixando mais esperto, nem se deve fazer jejum intermitente para emagrecer. Também não sabe se antena Harper existe e se faz chover, se desenho da Disney faz virar satanista ou se aquele amigo que parece gay é mesmo gay.

Ele sabe qual braço é o direito e qual é o esquerdo, mas já não sabe mais o que é direita e nem esquerda. Não sabe se mercado é de direita ou de esquerda, se trabalhador é sujeito de direita ou esquerda e nem se empresa grande é coisa boa ou ruim. Ele sabe onde é em cima e embaixo, mas não sabe nessa vida se o sujeito que esbanja riqueza, conflitos e desonestidades nas redes sociais está por cima ou por baixo na vida. Sequer sabe o porquê de se escrever em cima separado e embaixo junto.

É como se todas as coisas do mundo se embaralhassem, assim como as ideias se embaralham na sucessão infinita de vídeos curtos de internet em que a frase motivacional é seguida do bandido sendo morto, do motociclista se esborrachando, do gato tocando sanfona, da menina de biquíni e do pastor pulando enquanto canta falando de Jesus e dízimo.

Quando tudo está misturado e junto, como saber qual o lugar certo e o errado de cada coisa? Como Martinho pode saber o seu lugar certo e o seu lugar errado no mundo, na vida?

Sem lugar, seus pés flutuam na incerteza em um mar de imagens e sons que, na maioria das vezes, não fazem sentido algum, mas que são apresentados como se fizessem todo sentido e fosse burro quem não percebesse isso. Martinho não se acha burro, mas acha que esse mundo confuso o está emburrecendo.

Está tudo desequilibrado, bêbado, na corda bamba. Só que sem a graça do bêbado ou do espetáculo da corda bomba. Tudo surpreende porque nada é esperado. Tudo é desconfiança porque nada mais parece real. Nem o que se ouve ou o que se vê.

E no meio desse furdunço todo, contemplando o caos enquanto tomava seu café, que não sabia dizer se estava bom ou ruim, Martinho percebeu que, perdidas de certo, errado, em cima, embaixo, direita e esquerda, as pessoas se desequilibram e caem quase sempre para a direita.

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Ilustração: Mihai Cauli
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