Poucos terão sido capazes de fazer uma síntese da história brasileira, do período que vai da Primeira República à prisão de Lula e a subsequente eleição de Bolsonaro, quanto Thomas Piketty. Em Capital e Ideologia, um singelo apelo à memória é suficiente para que uma fotografia perfeitamente nítida se exponha ao leitor. Para começo de conversa, o economista mete a mão em escaninhos convenientemente esquecidos para nos lembrar que o Brasil “é o último país do espaço euro-atlântico que aboliu a escravidão, em 1888, e que seguiu sendo um dos mais desiguais do planeta”. Apresentada como está no livro do francês, a revelação, sabida e repetida desde os bancos do ensino básico, aparece como um relâmpago num céu claro – e, graças aos bons deuses do Olimpo, assusta.

Na sequência, mais uma vez jogando luz sobre nosso passado (ou, se preferirmos, sobre a nossa cultivada inconsciência coletiva), lembra que foi necessário esperar “o final da ditadura (1964-1983) e a Constituição de 1988 para que o direito ao voto fosse estendido a todos”. A essa altura, nos interrogamos, perplexos: mas como assim? Então, não sabíamos que até ali, nos pertíssimos finais dos anos 1980, os analfabetos – pouco mais de três décadas antes eram mais de 50% da população – não podiam ir às urnas para manifestar suas preferências? Mas nem tudo é desastre. Como sempre, o Brasil é um país onde quase todo eventual mérito é agigantado, monumentalizado e, ao final dos anos 1980, o número de analfabetos tinha se reduzido para apenas um quinto da população – de modo que, batendo no peito, pudemos dizer que, pelo menos, já podiam votar –  (número de brasileiros acima de 15 anos de idade que não sabem ler nem escrever está agora em torno dos 5% – são nove milhões de pessoas).

Aí, libertos dos grilhões da ditadura e a bordo de uma nova Constituição, pela primeira vimos garantido o sufrágio universal e livre na escolha do presidente da República. A eleição de 1989 teve, portanto, um caráter inédito (porque, sim, também os brasileiros, tanto quanto os estado-unidenses, têm lá seus momentos inaugurais), mas não apenas por isso. O inimaginável aconteceu. Deixando para trás lideranças políticas mais que consolidadas como Leonel Brizola, Paulo Maluf, Mario Covas e Ulisses Guimarães e outros, foram para aquele inesquecível segundo turno Fernando Collor de Mello, jovem e travestido de político reformador dos hábitos e vícios do passado, mas representando os interesses do sempiterno campo conservador, e Luiz Inácio Lula da Silva – um operário.

Quem se assustava agora era a mal-acostumada elite brasileira, disposta a colocar em campo o que quer que fosse necessário para impedir que a mudança no padrão prevalecesse – no topo da manobra, a Rede Globo do milionário Roberto Marinho, na época a hegemônica rede de televisão do país, atuando, não como uma concessão pública, mas como um ator clandestino capaz de desequilibrar o jogo.

Após o debate da Globo, às vésperas do dia da votação, Collor foi eleito com o voto de 53% dos brasileiros, contra 47% para Lula. Foi preciso esperar, primeiro o impeachment do caçador de marajás – metido em mil e uma maracutaias – e oito anos mais, para que finalmente, na entrada do novo milênio, em 2002, Lula se tornasse presidente. Sua “eleição triunfal naquele ano, com 61% dos votos no segundo turno, e sua reeleição em 2006, com o mesmo resultado (de 2002), marca de certo modo a entrada simbólica do Brasil na era do sufrágio universal”.

E, naquela que talvez seja a mais ácida das suas rememorações, Piketty nos faz lembrar que Lula “havia sido o alvo de deboche das elites brasileiras tradicionais por sua falta de formação”, e que, por isso mesmo, aquele que se tornará mais tarde um dos mais destacados personagens do cenário político internacional, “não podia representar dignamente o país no exterior” – não poderia haver prova mais cabal da extraordinária “largueza” de horizontes dessa elite.

Após duas novas vitórias do partido de Lula (nas eleições de 2010 e 2014), seguidas pelo impeachment de Dilma Rousseff, dois anos antes do fim do seu segundo mandato, “a vitória de… Jair Bolsonaro em 2018… marcou uma nova reviravolta na história política do país”.

Piketty faz questão de relembrar o “clima extremadamente particular” das eleições de 2018, nas quais Lula foi impedido de participar – estava preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, condenado num processo viciado, conduzido pelo agora senador e ex-juiz Sergio Moro. Terminado o juízo que levou Lula para a cadeia, Moro foi nomeado ministro da Justiça por aquele que teria sido o adversário de Lula, Jair Bolsonaro. (Agora mesmo novos fatos estão vindo à tona, demonstrando o destempero, as arbitrariedades e a desmedida ambição do ex-juiz.) Como sabemos, a condenação foi depois anulada pelo Supremo Tribunal Federal, precisamente por conta desses vícios processuais, e na eleição seguinte, Lula novamente candidato bateu Bolsonaro, tornando-se presidente pela terceira vez.

O contexto dessa síntese é a análise da diferença entre o chamado voto classista, por um lado, e o identitário, por outra – que para Piketty tem marcado processos eleitorais em diferentes partes do planeta. (A divisão identitária, escreve, “gira em torno da questão das fronteiras: os limites da comunidade política com que o sujeito se identifica e as origens e as identidades ético-religiosas dos seus membros”, enquanto a divisão classista “gira em torno das questões de desigualdade socioeconômicas e de redistribuição, particularmente em torno do patrimônio.”)

O memorial do economista também pode ser resumido da seguinte maneira: após um século de controle quase absoluto do processo eleitoral brasileiro, e depois de perder essa hegemonia em quatro eleições seguidas vencidas por Lula e pelo PT, as elites pátrias tardaram pouco mais de uma década para fazer o processo eleitoral voltar aos trilhos por ela projetados. Fez isso, antes de mais nada, prendendo o adversário que nitidamente representava uma nova e significativa consciência política no Brasil. Mas parece ter se tornado claro, ao mesmo tempo, que se aproveitou dessa reconquista de território – logo seguida por uma nova vitória de Lula, dessa vez por uma diferença muito apertada no número de votos – para navegar numa nova onda favorável aos seus designíos, tanto aqui quanto em outros países do Ocidente, a do assim chamado, pelo economista, voto identitário.

P.S.: Para as eleições de outubro que vem, essas elites estão afiando os dentes, sedentas para recuperar o controle, navegando mais uma vez nesse turbilhão de votos colhidos em todas as classes da sociedade brasileira, unificados em torno de bandeiras ético-religiosas (para usar a expressão de Piketty).

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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