
O sistema capitalista tem uma enorme capacidade de fazer com que as pessoas criem vários fetiches, dadas as precárias condições de vida da maioria da população para criar a ilusão de um futuro melhor.
Isso ocorre tanto em cada país, nacionalmente, quanto internacionalmente. O sistema de governança mundial estabelecido em Bretton Woods pela hegemonia política, econômica, tecnológica e militar americana também incluía uma enorme força subjetiva de que o “american way of life” disseminado desde antes da guerra pela sua indústria cultural, Hollywood no centro, deveria ser o modelo de sociedade que garantia maior liberdade individual, com o mínimo de intervenção estatal e, dessas duas instituições, a igualdade seria obtida através da meritocracia do esforço para vencer na competição do mercado de trabalho.
Essa utopia transformada em softpower era um fetiche alimentado por toda sorte de instrumentos financeiros, culturais, educacionais (bolsas de estudo), cooperação nas áreas técnicas, militar e muito mais. Caso isso não resolvesse e surgissem problemas de insubordinação, poderia haver sanções e punições. Se chegasse no limite, poderia haver a intervenção política ou o incentivo ao golpe militar para mudar os governos rebeldes.
Essa permanente ameaça de guerra híbrida – que não é nova, apenas a forma que se adaptou aos novos tempos da tecnologia digital –, no caso específico que interessa a esse artigo, ficou conhecida como as veias abertas[1] da América Latina, que se transformaram nas veias escancaradas com a intervenção e sequestro do presidente Maduro da Venezuela.
O sistema de ordem mundial liberal estruturado pelos EUA tinha como requisitos básicos o exorbitante privilégio do dólar, a supremacia tecnológica e militar americana e a dominação econômica.
No caso das forças políticas que lutavam contra o sistema, em especial aquelas lideradas pelos Partidos Comunistas, essa ilusão ficou óbvia quando as amplas alianças anti-imperialistas não funcionaram. As burguesias domésticas estavam longe de ser anti-imperialistas.
Se a distopia é um estágio subjetivo que descreve um futuro sombrio, a ilusão acolhida pela aliança com a burguesia nativa em torná-la o sujeito de um projeto de soberania nacional para enfrentar a distopia presente e futura só poderia criar uma utopia. Um lugar ideal como guia para a evolução social, motivando ações políticas de mudança. Uma política aspiracional, subjetiva, sem base concreta nas forças políticas nacionais.
Internacionalmente, o sistema liberal, construído e liderado pelos EUA em Bretton Woods ao final da 2ª Guerra Mundial, foi saudado como uma grande instituição universal que levaria o mundo a se livrar da distopia nazista e fascista que dominou grande parte da Europa e da Ásia.
Trump, com a suposta decadência dos EUA, continua a pautar o mundo e a se mover pelos mares sempre navegados da excepcionalidade americana. Os liberais ocidentais dizem que a hipocrisia era melhor, pois mesmo quando agia contra as instituições multilaterais, fazia isso com referência a elas e ao direito internacional (?). A política do me engana que eu gosto.
Agora, a hipocrisia acabou. Como disse Petro, presidente da Colômbia, em reunião com Trump e na frente dele, usando de ironia, gosto de gringos francos. Até quando? Pelo menos agora ninguém poderá dizer que se enganou.
Essa utopia do sistema liberal internacional foi posta de cabeça para baixo com a supremacia do poder militar e do dólar impondo a guerra híbrida sobre o direito internacional. A “lei do mais forte” se estende às instituições multilaterais, destacando o Conselho da Paz de Trump, que ameaça substituir a ONU. “Vivemos num mundo, o mundo real, que é governado pela força, pelo poder. São essas as leis de ferro do mundo, desde o início dos tempos.” As sentenças foram proferidas por Stephen Miller, alto assessor de Trump e notório advogado da anexação da Groenlândia.
O mundo vive uma escalada de tensões geopolíticas marcada pela perda proporcional de hegemonia dos Estados Unidos e pelo avanço de práticas autoritárias, com impactos diretos na América Latina e no Brasil. O segundo mandato de Donald Trump expõe de forma mais explícita uma lógica histórica de imposição de poder nas Américas, agora acompanhada por uma retórica “agressiva” até em relação a aliados tradicionais de Washington.
O sequestro de Maduro, ofensiva das big techs e a proporcional perda da hegemonia dos EUA aumentam a incerteza geopolítica e o risco de regressão democrática no Brasil e no mundo. A luta entre civilização e barbárie está de volta.
A crise geopolítica não é uma deformação política do capitalismo liberal, mas parte do seu funcionamento. A luta política exige enfrentar estruturas econômicas e ideológicas que moldam o autoritarismo interno e externo para a prevalência do regime liberal e o avanço do processo democrático. No nosso caso, o avanço democrático para superar o regime liberal conservador hegemônico desde a derrubada da ditadura pressupõe discutir o papel da burguesia, dos militares e dos grandes conglomerados de telecomunicações digitais e comunicação e do peso das redes sociais e de seus algoritmos na disputa pública em que elaboram e divulgam uma ideologia que mantém uma trajetória histórica de reação conservadora e autoritária a projetos nacionalistas e progressistas.
À medida que os EUA se apropriam de recursos de outros países e descartam o direito internacional, o Brasil precisa articular e lutar para forjar uma nova ordem mundial ou vai se tornar vassalo daquele que se proclama dono do hemisfério ocidental e do seu quintal, a América Latina.
Entramos em uma nova era. Claro, é difícil prever como será o mundo emergente. Mas certas tendências são inconfundíveis. O sequestro de Nicolás Maduro e o desejo de Donald Trump de tomar os recursos petrolíferos da Venezuela, assim como a ameaça dirigida à Groenlândia, não são atos isolados. Eles já fazem parte de uma série de ações e declarações que parecem marcar uma transformação duradoura e profunda do nosso sistema mundial.
Sem dúvida, estamos entrando em uma nova fase da geopolítica marcada por uma rivalidade crescente entre os poderes globais sobre a apropriação de recursos (financeiros, naturais, de trabalho, etc).
O que já se pode vislumbrar neste mundo emergente é que a regulação do comércio e o direito internacional já não são relevantes nele. Se isso era escondido, feito por debaixo da mesa, agora esse simulacro do novo regime capitalista é, em vez disso, caracterizado por apropriação de recursos e captura de valor, medido em relação ao interesse nacional e à lei dos mais fortes. Sacrifica “zonas fracas”, política e economicamente relegadas ao status de vassalos ou colônias nas periferias dos países centrais (imperiais). Neste mundo emergente, o Brasil não pode aparecer como um cordeiro entre os lobos.
A mudança dos Estados Unidos para o campo das políticas imperiais e sem o disfarce do direito internacional e da ordem liberal não admite que o Brasil permaneça imóvel na utopia distópica da volta do multilateralismo de Bretton Woods. Este sempre foi faça o que eu digo, mas não o que eu faço. Embora tenha parecido reagir durante as recentes crises financeiras, isso aconteceu sem mudar seus fundamentos, forjados durante a era do “capitalismo liberal”, que sabemos ter organizado legalmente uma forma de impotência pública.
No geral, o Brasil foi historicamente construído sobre uma lógica “liberal-conservadora”: um mercado liberal, concorrência livre e não distorcida, livre circulação de capitais, um Banco Central autônomo, acordos de livre-comércio, o abandono da indústria e soberania em nome do guarda-chuva americano e a austeridade fiscal. A mudança global que estamos testemunhando torna todo esse aparato liberal-conservador obsoleto.
A questão é simples: o Brasil é capaz de se adaptar a essa nova era? A questão aqui não é salvar as instituições “liberal-conservadoras”, já que esta não é uma das crises adaptativas que pontuaram a nossa história.
O desafio é mais profundo. É mundial, continental e de escala civilizacional, e não diz respeito ao Brasil, à América Latina, mas aos países como um todo. Coloca em risco a liberdade política, a soberania – isto é, sua capacidade de decidir coletivamente seu próprio destino – e, portanto, sua própria existência como nação autônoma, para avançar em seu processo democrático.
A articulação para uma nova ordem mundial deve, portanto, ir além do “liberal-conservadorismo” e conceber a associação dos países com uma espécie de coordenador político que fortaleça o processo democrático, garantindo a todos os países as condições concretas para o exercício de modos de vida com democracia, contra s intervenções imperiais e contra as forças fascistas que atuam como linhas auxiliares dentro de cada país.
Essa associação, para atuar como garantidora de última instância do processo democrático deve estabelecer um verdadeiro poder público capaz de fornecer proteção e soberania adicionais apoiando as democracias nacionais, em vez de impedi-las de se proteger.
Essa nova associação ainda está, em grande parte, a ser inventada. Não como um projeto institucional supranacional, mas como a resposta dos Estados democráticos ao desafio colocado pelo autoritarismo dos “America First’, “Make America Great Again-MAGA” e o destino manifesto da excepcionalidade da sociedade americana. O Sul Global retoma um papel crucial para superar as relações de dominação herdadas do passado.
Essa nova associação para uma nova ordem mundial deve voltar ao espírito do pós-guerra que, com a derrota do nazismo e do fascismo, viu um amplo espectro de movimentos políticos, sindicais, empresariais e cívicos participarem da revitalização da ideia mundial democrática que acabou não se realizando. Tudo indica que os povos dos países mais ameaçados, aqueles do Sul Global só podem contar consigo mesmos, já que seus líderes políticos e econômicos de um modo geral, desde a chegada de Trump, apresentaram uma capacidade limitada de enfrentar o desafio.
Mas, para alcançar um objetivo tão utópico, e para que não se torne distópico, é necessário construir uma nova aliança política transnacional, partindo desse interesse compartilhado na sobrevivência de nossos países soberanamente e, assim, reunindo todas as forças favoráveis a tal projeto – forças que hoje estão fragmentadas tanto no nível mundial quanto nacional. Somente tal projeto e sua preparação será capaz de guiar e inspirar as inúmeras mobilizações necessárias para finalmente construir uma ordem mundial sem hegemonia política, tecnológica e militar, econômica e sem o exorbitante privilégio do dólar. A distopia atual pode se transformar em uma utopia. Sem esperança não se vive.
[1] As Veias Abertas da América Latina, Galeano E. Kindle Edition, 2010. A edição original é de 1970. As veias abertas desde essa época foram se escancarando cada vez mais.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli Revisão: Celia Bartone
Leia também “O desenho geopolítico e a integração regional latino-americana”, de Adhemar Mineiro.






