Os investimentos chineses não determinam nosso destino – mas revelam algo essencial.

Grandes transformações da economia mundial raramente se anunciam com estrondo. Elas avançam de forma silenciosa, quase imperceptível, até que, em determinado momento, aquilo que parecia permanente revela-se transitório.
Estamos vivendo um desses momentos.
Durante mais de sete décadas, a ordem econômica internacional orbitou em torno de um eixo relativamente estável: supremacia financeira dos Estados Unidos, centralidade do dólar e predominância de um modelo de globalização comandado pelo Atlântico Norte. Esse arranjo não apenas organizou fluxos comerciais e monetários – ele moldou a própria imaginação econômica do planeta.
Países emergentes foram ensinados a acreditar que seu desenvolvimento dependia, inevitavelmente, da poupança externa. Bastaria abrir mercados, garantir mobilidade ao capital e oferecer retornos suficientemente atraentes. O investimento viria. O crescimento seguiria.
Mas a história raramente respeita manuais.
Sob a superfície dessa arquitetura, o capitalismo transformou-se profundamente. A financeirização deslocou o centro dinâmico da acumulação: produzir tornou-se menos lucrativo do que intermediar riqueza. Trilhões de dólares passaram a circular diariamente em mercados secundários, muitas vezes dissociados da economia real.
Nesse ambiente, a poupança externa deixou de ser sinônimo de progresso. Em inúmeras ocasiões, tornou-se sinônimo de vulnerabilidade.
O Brasil conhece essa experiência.
O que os dados mostram
Os dados mais recentes mostram que os investimentos chineses cresceram de forma expressiva no Brasil, sobretudo entre 2023 e 2024. O país tornou-se o terceiro maior destino global do investimento chinês e o principal entre as economias emergentes.
Esse avanço ocorreu com dezenas de projetos e forte aproximação diplomática entre os dois países. Ainda que sob uma lógica mais seletiva e sofisticada, o Brasil recebeu 39 projetos chineses em 2024 – um recorde histórico. O investimento praticamente dobrou em relação ao ano anterior.
Nesse ano, os investimentos chineses no Brasil registraram uma inflexão significativa, alcançando pouco mais de US$ 4 bilhões – um crescimento superior a 100% em relação ao ano anterior e o maior número de projetos já contabilizado em um único período.
Mais importante do que o volume foi a natureza desses aportes: concentrados em eletricidade, petróleo, indústria e segmentos associados à transição energética, eles revelam uma preferência crescente por ativos de longo prazo, menos expostos às oscilações financeiras. Em um contexto global marcado por tensões comerciais e pela reorganização das cadeias produtivas, o Brasil passou a figurar como o principal destino do capital chinês entre as economias emergentes, sinalizando que o país voltou ao radar estratégico do investimento produtivo internacional.
Os dados disponíveis para 2025 sugerem continuidade desse movimento. Apenas no primeiro semestre, os investimentos somaram cerca de US$ 2 bilhões, acompanhados por um aumento expressivo das fusões e aquisições – muitas delas voltadas a energia, tecnologia e indústria automotiva. O padrão indica menos dispersão e maior densidade estratégica, com projetos de maior escala e horizonte mais longo. Longe de representar um episódio isolado, essa trajetória sugere uma realocação gradual do capital produtivo asiático em direção a grandes economias capazes de oferecer mercado, recursos e estabilidade relativa – características que recolocam o Brasil no centro das disputas geoeconômicas contemporâneas.
Portanto, do ponto de vista empírico, falar em crescimento não é interpretação – é fato estatístico.
Juros elevados atraíram capitais velozes. Capitais velozes apreciaram a moeda. A moeda valorizada corroeu a indústria. Quando os fluxos se inverteram, vieram a volatilidade, o crescimento errático e uma dependência recorrente de humores externos.
O problema nunca foi o capital estrangeiro. Foi o predomínio de um capital que não cria território econômico – apenas atravessa territórios em busca de valorização.
Criamos, ao longo do tempo, uma economia extraordinariamente confortável para o rentismo e surpreendentemente difícil para o investimento produtivo.
É precisamente contra esse pano de fundo que os investimentos chineses precisam ser compreendidos. Não como um episódio diplomático. Mas como um sinal da lenta reorganização do poder econômico global.
O que está realmente mudando no mundo
A intensificação da presença chinesa no Brasil não representa apenas um aumento de investimentos. Representa a chegada de um capital que opera sob outra lógica histórica. Enquanto o capital financeiro busca liquidez, o investimento produtivo exige permanência.
Infraestruturas não são desmontadas ao sabor do mercado. Parques industriais não atravessam fronteiras em uma tarde. Redes energéticas não são ativos especulativos. Elas criam densidade econômica. E densidade econômica produz autonomia.
Essa diferença recoloca o Brasil diante de uma pergunta que o debate nacional evitou por tempo demais: queremos continuar inseridos na economia mundial como plataforma de valorização financeira ou como espaço de expansão produtiva?
A resposta a essa pergunta – e não a origem geográfica do capital – é o que definirá nosso lugar no século XXI.
Uma verdade antiga que o pensamento dominante tentou esquecer
Durante décadas, economistas do desenvolvimento insistiram em uma tese hoje quase herética no mainstream: não é a poupança que antecede o investimento – é o investimento que cria a poupança capaz de sustentá-lo.
Quando recursos se materializam na economia real, desencadeiam efeitos cumulativos: emprego, renda, inovação, arrecadação, produtividade. Criam capacidade interna.
Sob a dominância financeira, ocorre o inverso. A riqueza se reproduz sem expandir a base produtiva. Crescem os ativos – não necessariamente os países.
É por isso que a natureza do capital importa mais do que sua origem.
E é justamente essa distinção que volta ao centro da história econômica.
Nem ingenuidade, nem reflexos da Guerra Fria
Reconhecer o significado dessa inflexão não implica romantizar a China. Nenhuma potência investe no exterior movida por altruísmo. Há riscos claros: concentração em recursos naturais, assimetrias tecnológicas, pressões competitivas e possíveis dependências futuras.
Mas o erro analítico mais comum hoje é confundir risco com destino.
Dependência não nasce da presença do capital estrangeiro. Nasce da ausência de estratégia nacional.
Coreia do Sul, Taiwan e a própria China jamais foram passivas diante do investimento externo. Negociaram, impuseram contrapartidas, exigiram transferência tecnológica e transformaram capital estrangeiro em alavanca de transformação estrutural.
Desenvolvimento nunca foi espontâneo. Sempre foi construção política.
O declínio que poucos ousam nomear
Talvez o aspecto mais sensível dessa discussão seja também o menos explicitado: o avanço do capital produtivo asiático ocorre simultaneamente ao esgotamento relativo da hegemonia financeira ocidental.
Declínio não significa colapso – e os Estados Unidos continuam sendo a principal potência econômica e militar do planeta. Mas significa perda gradual da capacidade de organizar consensos, ditar regras e oferecer um horizonte estável ao sistema internacional.
O mundo não está assistindo ao fim de uma potência. Está assistindo ao fim de uma forma específica de organizar o capitalismo global. Uma forma excessivamente dependente da expansão financeira.
Nesse contexto, a disputa por infraestrutura, tecnologia e cadeias produtivas deixou de ser apenas econômica. Tornou-se geopolítica.
E o Brasil entrou nesse tabuleiro.
O país estratégico que ainda hesita em ser protagonista
Poucos países concentram, simultaneamente:
- abundância de recursos naturais
- matriz energética relativamente limpa
- grande mercado consumidor
- capacidade agrícola
- base industrial relevante
Essa combinação nos transforma em território cobiçado em uma economia mundial que busca segurança energética, minerais críticos e novos polos produtivos.
Mas há uma diferença fundamental entre ser estratégico e ser protagonista. Sem projeto nacional, países estratégicos tornam-se apenas arenas onde outros exercem sua estratégia.
O maior risco para o Brasil não é trocar uma dependência por outra. É permanecer dependente de um modelo que privilegia a valorização financeira acima da construção paciente da capacidade produtiva.
A escolha que definirá nosso futuro econômico
O debate público insiste em formular a questão errada: devemos temer a China? A pergunta decisiva é outra: Queremos continuar organizando nossa economia para remunerar o capital global ou para expandir nossa própria potência produtiva?
A financeirização oferece ganhos imediatos a poucos – mas cobra seu preço na forma de baixo crescimento, fragilidade industrial e desigualdade persistente.
O investimento produtivo exige planejamento, coordenação e visão de longo prazo. Exige Estado. Exige política econômica ativa. Exige coragem. Sobretudo, exige abandonar a confortável ilusão de que o mercado, sozinho, construirá o futuro.
Uma janela histórica – e o risco da hesitação
Momentos como este aparecem raramente.
O mundo atravessa simultaneamente uma transição energética, uma disputa tecnológica e uma redistribuição silenciosa do poder econômico. Capitais produtivos procuram territórios previsíveis onde possam se fixar. O Brasil é um desses territórios. Mas janelas históricas não permanecem abertas.
Na história econômica, países raramente fracassam apenas por escolherem errado. Com frequência maior, fracassam por escolherem tarde demais.
No fim das contas, a questão não é quem investe no Brasil. A questão é se teremos a lucidez – e a coragem – de compreender que estamos diante de uma inflexão histórica.
Os investimentos chineses não determinam nosso destino – mas revelam algo essencial: o século XXI está em reorganização. E ainda não decidimos que papel queremos desempenhar nele.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Venezuela e os dilemas da China“, de Xulio Rios.






