O bloqueio a Cuba e o estrangulamento de Gaza são dois capítulos da mesma cartilha: quando o império não consegue vencer no debate público, tenta vencer pelo estômago, pela farmácia e pela torneira. Um é vendido como “sanção” civilizada; o outro, como “medida de segurança” inevitável. Em ambos, a mensagem real não é sobre direitos humanos — é sobre submissão.

Cuba: a punição que atravessa gerações

O cerco contra Cuba é o tipo de violência que não explode em manchetes diárias porque é “administrativa”: financeira, comercial, burocrática, persistente. Ainda assim, é tão política quanto qualquer bombardeio, porque organiza a vida material de um país inteiro em torno da escassez programada e da dificuldade permanente de comprar, vender, pagar e receber.

A ONU registra ano após ano a rejeição esmagadora da comunidade internacional a essa política, enquanto Washington insiste em chamá-la de ferramenta para “democracia” e “direitos humanos”. Só que democracia não se constrói encarecendo remédio, travando transação bancária e sabotando o desenvolvimento: isso é castigo coletivo disfarçado de moralismo.

Gaza: o laboratório do confinamento

Em Gaza, a crueldade não é só econômica — é geográfica. A ONU descreve uma população “trancada”, com a economia deliberadamente minada e uma sociedade empurrada para a dependência estrutural de ajuda internacional. É o controle do território como arma: entra o que deixam entrar, sai quem deixam sair, vive-se sob a regra do gargalo.

Os dados citados em material da ONU expõem o desenho do estrangulamento: desemprego perto de 42% em 2016, insegurança alimentar atingindo quase metade dos lares e mais de 70% das pessoas recebendo algum tipo de assistência. Até a saída para tratamento médico vira uma corrida de obstáculos: cerca de um terço dos pedidos teria sido negado ou atrasado em 2016, com consultas perdidas.

O álibi muda, a prática é a mesma

No caso de Cuba, o álibi é “democracia”. No caso de Gaza, o álibi é “segurança”. Mas o mecanismo é idêntico: transformar necessidades básicas em instrumentos de chantagem, e depois responsabilizar a vítima pelo resultado — “olhem como estão pobres”, “olhem como dependem de ajuda”, “olhem como não conseguem governar”.

Essa inversão é uma técnica antiga: primeiro você sufoca, depois usa o sufocamento como prova de que o outro “não presta”. E, quando alguém denuncia o jogo, o império troca de assunto: chama de “complexo”, pede “contexto”, exige “condenação” seletiva — qualquer coisa para evitar o ponto central, que é a punição generalizada de civis.

Punição coletiva: o nome que o direito dá ao cinismo

Em Cuba, a disputa aparece sobretudo no campo diplomático: a Assembleia Geral da ONU reafirma repetidamente a condenação ao embargo e registra a crítica de que ele contraria princípios da Carta e do direito internacional. Em Gaza, o enquadramento humanitário é ainda mais direto: o material da ONU afirma que Israel, como potência ocupante, deve levantar o bloqueio e sustenta que ele viola a proibição de penalidades coletivas na Quarta Convenção de Genebra.

Ou seja: não é “efeito colateral”; é método. Não é “pressão em líderes”; é um cerco que atinge quem nasce, cresce, adoece e tenta sobreviver dentro de um funil controlado por terceiros.

A mesma lição política

Cuba mostra como a asfixia pode durar décadas e virar paisagem, normalizada pela mídia e por governos que fingem não ver. Gaza mostra como a asfixia pode ser totalizante: quando você controla fronteiras, mar, circulação e entrada de bens, controla o futuro — e o futuro vira refém.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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