
Desde o início desse ano, vemos um movimento consistente nos mercados financeiros: a subida permanente da bolsa de valores e do real frente ao dólar em simultâneo. Esse movimento aconteceu em que pese o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ter mantido os juros altos, mas com perspectiva de baixa (viés de baixa) a partir da próxima reunião, em março.
A valorização do real frente ao dólar e a alta da bolsa de valores brasileira nas primeiras semanas de 2026 parecem ser explicadas por um mesmo fator: a recomposição do apetite por risco em relação aos ativos domésticos, em um ambiente de fluxos externos favoráveis e redução relativa das incertezas macroeconômicas. Conforme reportagens e análises da imprensa econômica ao longo de janeiro e na primeira quinzena de fevereiro, a taxa de câmbio recuou de forma consistente desde o início do ano, enquanto o mercado acionário acumulou ganhos relevantes, com entrada líquida de capital estrangeiro e melhora das expectativas dos investidores.
Do ponto de vista cambial, a apreciação do real não se explica por um único fator, mas pela convergência de elementos domésticos e internacionais. A dinâmica global contribuiu com um ambiente de maior busca por retorno em economias emergentes e da fuga aparente às incertezas da política econômica do governo Trump, favorecendo moedas com diferencial de juros ainda elevado e mercados financeiros relativamente líquidos. Nesse contexto, o real passou a se beneficiar de fluxos financeiros de portfólio, em especial para renda variável e títulos domésticos, o que pressionou a cotação do dólar para baixo ao longo do período. A cobertura econômica apontou que o movimento não se restringiu a ajustes técnicos de curto prazo, mas refletiu uma reavaliação do risco-país percebido por investidores externos. Ou seja, na prática, a percepção do risco Brasil vem caindo. E, no caso dos EUA, existe uma incerteza estrutural sobre o que vai prevalecer como política monetária naquele país, um dólar forte para facilitar a vista dos investidores externos e garantir a procura do dólar estadunidense como reserva de valor, ou um dólar mais baixo, que favoreça a produção doméstica, defendendo-a dos exportadores internacionais, e facilite a exportação de produtos dos EUA para o mundo.
A valorização cambial foi acompanhada por uma trajetória ascendente do principal índice da B3, cuja performance desde 1º de janeiro até meados de fevereiro evidenciou um ciclo de reprecificação positiva dos ativos brasileiros. O avanço da bolsa ocorreu em paralelo à entrada de recursos estrangeiros e à recuperação de setores com maior peso no índice, especialmente bancos e empresas ligadas a commodities, tradicionalmente sensíveis ao fluxo externo e ao comportamento do câmbio. A apreciação do real, ao reduzir pressões inflacionárias importadas e sinalizar menor prêmio de risco, reforçou o ambiente favorável ao mercado acionário, criando um mecanismo de retroalimentação não trivial entre câmbio e bolsa.
A leitura econômica desse movimento sugere que o desempenho observado no período pode expressar uma mudança nas expectativas. A percepção de estabilidade macroeconômica relativa (com um possível fim do discurso negativo dos agentes financeiros internos, de uma nota só, sobre o aprofundamento e a impossibilidade da administração do déficit público) e de continuidade das condições que sustentam o diferencial de retorno dos ativos domésticos contribuiu para reposicionar o país no radar de investidores internacionais. Ao mesmo tempo, a valorização da moeda e a alta da bolsa não configuram fenômenos isolados, mas partes de um mesmo ciclo financeiro caracterizado por influxo de capitais, compressão de prêmios de risco e melhora do sentimento de mercado, como apontado.
A experiência recente confirma um padrão recorrente em economias emergentes: quando o fluxo externo se intensifica, o câmbio se aprecia e o mercado acionário se valoriza de forma simultânea, refletindo uma reavaliação positiva das perspectivas de retorno e estabilidade. No caso brasileiro, a evolução entre o início do ano e 13 de fevereiro indica que o país passou a ser percebido, no período, como um destino relativamente mais atrativo para o capital financeiro internacional.
O desafio analítico, como sempre, reside em distinguir entre movimentos sustentáveis e oscilações associadas a ciclos financeiros globais — distinção que condiciona a permanência ou reversão das tendências observadas. Isso deverá ser verificado no próximo período, inclusive com a deliberação do Copom em março.
Outro ponto importante é que a queda do dólar estadunidense reforça um movimento de pressão negativa sobre os preços internos, uma vez que acaba rebatendo sobre os preços dos produtos importados e dos produtos aqui produzidos que se vinculam ao mercado internacional, como commodities agrícolas e energéticas (petróleo). Se esse movimento é mantido ao longo do ano, pode representar uma consolidação de um quadro de inflação sob controle, e pode ter inclusive efeitos políticos, em função do processo eleitoral no país no último trimestre do ano. Mas aqui há de se tomar bastante cuidado, pois o que vem fácil, muitas vezes vai fácil, e as incertezas do quadro internacional, especialmente com Trump no governo dos EUA, exigem atenção sobre qualquer avaliação de longo prazo. Enfim, mais do que um movimento que deve se manter, esse movimento coloca ênfase em mais uma incerteza grande que vai caracterizar esse ano.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli Revisão: Celia Bartone
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