Oxalá o ano de 2026 continue trazendo boas notícias sobre o comportamento dos preços!

A divulgação de dados sobre a inflação costuma gerar, em muitas pessoas, uma certa desconfiança: “Ah, não! O IBGE disse que a inflação anual no Brasil foi de 4,30%, mas eu sinto que foi muito maior do que isso!”. Até que ponto essa sensação é correta? Os índices de preços são mesmo capazes de refletir a realidade?
Para responder essas questões, é necessário conhecer, antes, o significado de alguns termos: o que é inflação? O que é custo de vida? O que são índices de inflação?[1]
Chama-se inflação o aumento generalizado dos preços de bens e serviços, verificado em um intervalo de tempo definido, como um mês ou um ano.
Geralmente, a taxa de inflação de um país é medida pela variação de um índice de custo de vida. No Brasil, por exemplo, a “inflação oficial” é representada pela variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O IPCA é um índice de custo de vida, que reflete a inflação dos produtos e serviços consumidos por famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos.
Outro indicador de inflação, calculado pelo IBGE, é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) – que é também um índice de custo de vida, frequentemente utilizado nas negociações coletivas de salários. Tem a mesma metodologia do IPCA, mas as famílias pesquisadas são aquelas com renda de 1 a 5 salários mínimos, faixa de rendimentos da grande maioria da população brasileira.
O custo de vida é o custo dos produtos e serviços necessários a uma família, para manter determinado padrão de vida.
Disso decorre a constatação de que o custo de vida varia conforme a renda das famílias, seus hábitos de consumo e o padrão de vida que elas podem ter.
O que uma família pobre consome é diferente do que uma família rica consome, em quantidade e qualidade. Por isso, o custo de vida de uma família pobre é diferente do custo de vida de uma família com melhores rendimentos.
A rigor, cada família “sente” a variação dos preços de modo particular, pois o peso de cada item de consumo no seu orçamento é diferente. Um forte aumento no preço da
carne, por exemplo, não impacta em nada o custo de vida de uma família de vegetarianos ou veganos. Em compensação, para uma família que gosta de um churrasco todo fim de semana…
Do mesmo modo, uma família que tem gastos elevados com saúde sentirá muito mais o aumento dos preços dos medicamentos, ou das mensalidades de um plano de saúde, do que uma família que gasta pouco com esses itens.
O custo de vida será também diferente para uma família com filhos/as em relação a uma família de recém-casados.
Essas nuances explicam por que, muitas vezes, há discrepância entre a “sensação de inflação” por parte de uma determinada família e o comportamento efetivo dos preços, sem que isso signifique que os índices sejam inadequados, ou que tenham sido artificialmente manipulados.
O aumento – ou a redução – do custo de vida é aferido pela média da variação de preços de um conjunto de bens e serviços consumidos por uma família hipotética média, em determinado tempo e lugar. Não há como ser diferente.
Em países de grande extensão, como o Brasil, há também importantes variações regionais do custo de vida. Além do índice geral (“nacional”), o IBGE calcula mensalmente o custo de vida em 16 Regiões Metropolitanas. Os últimos dados disponíveis, até janeiro de 2026, revelam a seguinte situação, no acumulado de 12 meses, nas Regiões Metropolitanas dispostas em ordem alfabética (Tabela 1):

Vê-se que, nos doze meses completados em janeiro de 2026, o custo de vida aumentou em todas as regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, oscilando entre 3,33%, em Campo Grande (MS), e 5,27%, em Vitória (ES). Na média dos locais pesquisados (INPC Geral), o custo de vida aumentou em 4,30% no período.
É importante lembrar que um índice de custo de vida – ainda que possa parecer paradoxal – não mede qual é o custo de vida, mas tão somente possibilita o cálculo de sua variação no tempo. Assim, o fato de que a variação do custo de vida nos doze meses anteriores a janeiro de 2026 tenha sido de 3,37% no Rio de Janeiro, enquanto em Vitória foi de 5,27%, não significa que “o custo de vida em Vitória” seja mais alto do que no Rio de Janeiro, mas que ele subiu mais em Vitória do que no Rio de Janeiro, no período considerado.
Outro aspecto importante é que os preços dos produtos e serviços têm pesos diferentes, conforme o grupo de consumo ao qual se referem.
O INPC/IBGE é calculado para nove grupos de despesas e cada grupo tem um comportamento e um peso diferente no cálculo do índice, apurado na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada de tempos em tempos pela instituição. A última POF/IBGE foi realizada em 2017/2018 e a nova pesquisa, cuja coleta de dados foi concluída em 2025, deverá ser divulgada ainda neste ano.
A Tabela 2, a seguir, mostra o comportamento dos preços dos nove grupos em que se decompõe o INPC/IGBE, desde a implantação do Plano Real, em 1º de julho de 1994, até o mês passado (jan/2026):

A Tabela 2 revela que o grupo de consumo que mais encareceu nesses quase 32 anos passados da implantação do Plano Real foi o de Habitação, com variação nominal de 1.650,36%, ou 97,87% de variação real (acima do INPC geral, de 784,59%, verificado no mesmo período). Também registraram forte aumento real os produtos e serviços dos grupos Transporte (19,55%) e Educação (17,60%). Em contrapartida, o grupo de Saúde e Cuidados Pessoais e, especialmente, os grupos de Vestuário e de Artigos de Residência tiveram variações de preços inferiores à inflação geral.
Interessante observar que o grupo Alimentação e Bebidas, que puxou a inflação nos últimos anos, especialmente no período durante e pós-pandemia de Covid-19, teve um comportamento próximo ao do índice geral, quando considerado um período mais longo de observação.
E nos doze meses completados em janeiro de 2026, o grupo Alimentação e Bebidas, que tem um peso mais relevante no orçamento das famílias de menor rendimento, teve um comportamento bem comedido, com variação de apenas 1,77%. Os “vilões” da inflação no período, segundo o INPC, foram os grupos da Habitação, Educação, Despesas Pessoais e Saúde e Cuidados Pessoais, como mostra a Tabela 3:

Oxalá o ano de 2026 continue trazendo boas notícias sobre o comportamento dos preços!
[1] Os conceitos utilizados neste artigo baseiam-se no Dicionário da Atividade Sindical – 100 termos técnicos úteis ao trabalho de sindicalistas, militantes e assessores/as sindicais. São Paulo: DIEESE, 2023. Disponível em: https://www.dieese.org.br/outraspublicacoes/2023/dicionarioAtividadeSindical.html
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Movimentos financeiros acrescentam incertezas para o resto do ano”, de Adhemar Mineiro.






