Dona Dita nunca precisou de gráficos para saber que a chuva viria ou que o preço do feijão ia subir antes mesmo do anúncio no rádio. Sua inteligência era feita de observação, conversas e silêncios, moldada no tempo em que as coisas se resolviam com as mãos inteiras e não apenas com as pontas dos dedos. Quando o neto lhe trouxe um “aparelhinho falante” que prometia responder a tudo, ela o encarou com a mesma desconfiança com que encarou o novo rosto da filha depois da harmonização facial. Era algo comum, mas era estranho.

Aos poucos perdeu o medo e o desajeito para lidar com a engenhoca. Começou perguntando coisas simples como as horas ou a previsão do tempo. Às vezes, conferia olhando pela janela e emendava com um “duvido…”, que dizia quase sussurrando, mas no fundo esperando inutilmente alguma reação daquela inteligência.

Foi por acaso, num susto, que ao falar alto consigo mesma sobre o ingrediente do bolo que tinha esquecido, a engenhoca lhe respondeu com a receita inteira. Pediu para repetir. Passo a passo. Havia diferenças entre a receita da máquina e a sua. Resolveu testar. Para Dona Dita, aquela seria a primeira prova real de inteligência da máquina. O bolo ficou ruim. Seco demais. Farelento. A máquina não era tão inteligente assim.

O neto ouviu às gargalhadas o relato de Dona Dita. E concordou que o bolo da receita original da avó era bem melhor. “Essa Alexa é meio burrinha…”, disse cochichando para o neto que já se engasgava ao gargalhar com a boca cheia de bolo seco, com medo de magoar a moça. “É só uma máquina, vó. Mas é bem sabida”. “Hum, sei não…”.

Aquela máquina angustiava Dona Dita. Pensava num mundo futuro em que as pessoas conversarão mais com máquinas do que com gente de verdade. Será uma vida seca que nem o bolo sugerido pela Alexa. Vida é feita de encontro com gente, com drama, riso, raiva, tristeza, alegrias e tudo o mais que gente causa na gente. Máquina só causa alegria quando se ganha, depois é só tédio e mais do mesmo. Ou vontade de ter outra melhor, mais inteligente, mais avançada, com mais tecnologia que a gente não entende.

Meditando entre um gole de café com broa e outro, Dona Dita emendou. “Mas será que a máquina é só máquina mesmo?”. Não que ela achasse que haveria alguém morando naquela caixinha, mas afinal de contas, aquela era uma criação de gente. Tem inteligência de gente para fazer a inteligência da máquina. Então falar com máquina é um jeito de falar com gente, só que sem gente. Feita por gente que a gente não conhece. Para pensar de um jeito que a gente não sabe qual é. Parece coisa de gente que não gosta de gente, mas que precisa de coisas que gente faz, como lembrar de uma receita de bolo.

Dona Dita gosta de gente. E de passarinho. E de bolo molhado e macio e café forte. Aquela máquina não é para ela, que gosta de vida macia e molhada como as gargalhadas do seu neto.

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Ilustração: Mihai Cauli
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