
A decisão da Acadêmicos de Niterói de levar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como enredo terminou em rebaixamento. E rapidamente o que era julgamento técnico virou batalha política.
Do ponto de vista estratégico, há dois movimentos simultâneos — e ambos precisam ser reconhecidos.
Primeiro: sim, o episódio foi prejudicial para Lula e para o PT. Em ambiente polarizado, transformar o presidente em personagem de exaltação durante a maior festa popular do país, às vésperas de um ciclo eleitoral, inevitavelmente gera desgaste. Mesmo que a intenção fosse biográfica ou histórica, a percepção pública tende a enxergar propaganda. E, em política, percepção é realidade.
Mas há um segundo ponto — igualmente relevante.
A narrativa de que Lula e seu governo “odeiam famílias estruturadas” ou “atacam valores conservadores” não encontra sustentação factual nas políticas públicas implementadas até aqui. Trata-se de uma construção retórica eficaz, porém simplificadora. Programas sociais, políticas de renda e iniciativas voltadas à inclusão não configuram, por si, oposição a modelos familiares tradicionais.
O que aconteceu, na prática, foi uma sobreposição de agendas.
Com Jair Bolsonaro preso, a oposição perdeu seu principal ativo mobilizador direto — mas ganhou um novo pretexto simbólico. O carnaval ofereceu palco, timing e emoção. Em política, isso é combustível.
O episódio permitiu que adversários reativassem uma narrativa identitária: governo versus “famílias de bem”. E, durante a festa mais popular do país, essa leitura ganhou alcance nacional.
A lição estratégica é clara:
Cultura é território político, especialmente em ciclos eleitorais.
Narrativas identitárias se movem mais rápido que argumentos técnicos.
A oposição, mesmo sem seu principal líder em cena, mostrou capacidade de pautar o debate.
No fim, o carnaval reafirma algo maior: no Brasil contemporâneo, nenhum símbolo é neutro. E quem ocupa o espaço simbólico precisa estar preparado para a reação.
O desfile acabou.
A disputa de narrativa, não
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