Uma Resenha, ou um Réquiem para uma cidade belíssima?

Neste livro, recém-editado (nov/2025), Padura visita e revisita sua amada cidade de Havana, a partir de Mantilla, seu bairro referencial, onde nasceu e vive até hoje, na casa construída por seu avô.
Entendo que Padura está escrevendo suas memórias e experiências pessoais, contracenando com o cenário urbano, a cultura e as transformações do espaço e do território, a partir da revolução, em 1959.
Mas pode-se afirmar que ele vem fazendo isso em todos os seus livros, tanto nos vários volumes policiais cujo protagonista é o detetive Mário Conde (destacando-se “A Transparência do Tempo”), quanto nas obras referenciais, como “O Homem que Amava os Cachorros”; “Hereges”; “Como Poeira ao Vento”; e ainda o penúltimo livro – “Pessoas Decentes”.
Em todos eles, os protagonistas, percorrem, usam, atuam na Havana em vários momentos, envolvem personagens referenciais (reais ou criados) e, ao mesmo tempo que estão construindo o romance, estão contracenando com o espaço urbano, com as tensões políticas e sociais do país a cada tempo.
Por essa razão, em Ir até Havana, a cada capítulo, Padura agora se coloca como o protagonista, explicitando seu olhar, sua percepção, sua memória, sua postura crítica, e acrescenta ou ilustra com trechos extraídos dos livros citados acima e vários outros. Isso confirma a afirmação anterior de que, nos livros todos, os protagonistas expressam o olhar de Padura sobre a cidade. Me arrisco a dizer que, em quase todos, a própria cidade de Havana é a protagonista.
Neste, não se tratando de personagens criados, mas sim de sua fala e memória assumidas, emerge um aprofundamento da crítica e a dor do olhar sobre a decadência física, das edificações, dos espaços urbanos e da infraestrutura, além da fragilização da urbanidade (relacionamento entre os cidadãos) e cultura como expressão e a possibilidade de sua livre difusão.
O livro se torna, sem que fosse sua intenção, duplamente relevante, originalmente pela memória da transformação da cidade, porém agora como um referencial frente à avalanche de mais uma profunda crise econômica no país, causada pelos novos embargos ao petróleo (e portanto, à geração de energia) impostos por Washington.
Como veremos adiante, descrições do cenário da grande crise vivida pelo país no início dos anos 90, já estão se repetindo desde o início deste ano. Se o livro foi publicado há poucos meses, Padura não tinha qualquer antevisão do que se passaria em seguida, entretanto, os capítulos nos trazem muitas pistas do que pode vir a ocorrer em Havana, agora em níveis muito ampliados.
Ir até Havana – ele explica no início – é a expressão tradicional utilizada pelos moradores de Mantilla e de outros bairros periféricos, quando se deslocavam para compras ou outras atividades na área central da cidade. Com o tempo, os vazios urbanos foram sendo preenchidos, tornou-se uma única metrópole e a expressão caiu em desuso.
Já para os admiradores e apoiadores da Revolução Cubana, “ir até Havana” significava a realização de um sonho, de expressar o apoio e de conhecer in loco a implementação de um novo modelo de relações sociais e econômicas.
Em meados da década de 1980 tive a oportunidade de fazer essa viagem. Para mim, como arquiteto-urbanista, significava, além dos aspectos citados, buscar perceber como se explicitavam essas transformações no espaço urbano, entender como a sociedade socialista se apropriava de um espaço construído em uma história capitalista, como a extinção da propriedade privada se refletia no tema da moradia e no mercado (?!?) imobiliário.
Havana havia acabado de receber o título de Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO[1], e começava um movimento especulativo sobre as áreas tombadas de Havana Vieja. Sendo à época, secretário municipal em Paraty, também Patrimônio (à época, Patrimônio Nacional; atualmente também Patrimônio da Humanidade) observei a valorização dos imóveis no bairro histórico, induzindo a que os tradicionais moradores vendessem a preço de ouro, para morar na periferia ou até na favela. Acompanhei também outras iniciativas de recuperação de áreas centrais (Pelourinho em Salvador, ou Marco Zero, no Recife, por exemplo) que sempre resultaram na chamada “gentrificação”, com a saída dos moradores originais e transformação das atividades naquelas áreas. Quis então tentar entender como se daria esse tipo de pressão em um país socialista, onde todos os imóveis pertenciam nominalmente ao estado. Ali começava um projeto oficial de tentar trocar os imóveis antigos (até mesmo espaços mínimos de cortiços) por imóveis novos, em prédios em outros bairros, modelo BNH, permitindo a revitalização paulatina de cada quarteirão na área central tombada. E houve muita resistência. Conversei com gente que dizia: não quero trocar, aqui viveram meus pais, meus avós, eu adoro esta área. Não havia ali, portanto, o valor de troca, havia o valor de uso, e este era inegociável.
A solução proposta foi desocupar cada quarteirão, enquanto se procedia à sua remodelação, para depois permitir o retorno desses moradores originais. Contudo, pelo que pude acompanhar à distância, foram poucos os quarteirões recuperados. Houve também gentrificação por conta de empreendimentos hoteleiros importantes, cujos recursos significavam entrada de divisas para o país.
Desde a década anterior, ainda com recursos importantes garantidos pelo apoio da União Soviética, o país se permitia vislumbrar e pensar no futuro e no planejamento urbano de Havana. Um importante trabalho, parte de uma agenda mais ampla chamada “Transformación Urbana em Cuba” foi publicada em 1974, com foco específico em “LA HABANA”[2] . A partir de um apanhado histórico da ocupação urbana desde os vários períodos coloniais e anteriormente a 1959, o estudo identifica os problemas e prioridades a serem enfrentadas no novo quadro urbano pós-revolução. Vale destacar, apenas a título de ilustração, com vistas a confirmar a percepção de Padura manifestado em seu livro, uma síntese do cenário habitacional de Havana, naquele momento:
“El empeoramiento de la situación de la vivenda em La Habana Metropolitana es el resultado de la conjugación de vários factores, entre los cuales se pueden mencionar la explosión demográfica rápida durante los seis primeiros años de le Revolución, el cesse casi completo de la reconstrucción em la capital a partir de los años 1965-1966 e, em buena medida, la falta de mantenimiento a las viviendas durante los últimos años. Muchos edifícios que admitian reparaciones se volvieram inhabitables, muchas casas que hubieran podido ser arregladas se convertieran em insalubres, inmuebles buenos hace algunos años, son hoy regulares.” (p. 90).
Se este era o registro dos levantamentos e o discurso oficial, não há como duvidar do olhar sofrido de Padura, percorrendo nas décadas seguintes, os múltiplos itinerários que descreve nos vários capítulos.
Em “Havana em Trevas” (cap.10) é descrita a grande crise da década de 1990 que “…marcou um ponto de inflexão, uma ladeira pela qual todo o país e seus habitantes deslizariam para a ruína…” quando, com o desmonte da União Soviética “…o sistema entrou em colapso e, com ele, perdeu-se o sustentáculo econômico que, por duas ou três décadas, mantivera em equilíbrio precário, mas à tona, a vida em Cuba”. Padura segue com a descrição:
“A falta de recursos para satisfazer a qualquer necessidade material imaginária, com o combustível e os alimentos encabeçando a longa lista, obscureceu e paralisou a capital (e o resto do país), por onde deixaram de transitar veículos e que foi se povoando de bicicletas chinesas nas quais espectros famintos pedalavam por quilômetros para chegar a algum destino…A cidade que emerge dos anos mais críticos do Período Especial[3] é a dos vidros quebrados, das paredes descascadas e das escoras de madeira. Também a das casas gradeadas” (p. 79).
Padura detalha esse quadro com abordagens diferentes, tratando dos costumes, tradições e da gastronomia, com suas transformações e fragilização; das maneiras de escrever a cidade ou escrever sobre a cidade, nos limites de um espaço cujas referências vão sendo perdidas. Cria o termo “alhenitude”, que se pode expressar como estranhamento do que é seu, e por consequência, seu distanciamento, não mais a apropriação.
“O processo de estranhamento, de alheamento do que é seu, da alteração dos códigos, de ruptura de tecidos afetivos, de perda de valores estéticos, pusera-se num movimento vertiginoso, do qual só escaparia, em seu caráter construtivo e quase como ato de magia, uma Havana colonial (Havana Vieja) que começou a se restaurar com duplo propósito: seu necessário resgate histórico e arquitetônico e sua função de parque temático da vila colonial dentro da urbe socialista cada vez mais desmantelada que voltava a se abrir para os turistas…” (p.97)
No capítulo 14 – “A Cidade do Século XXI”, Padura aponta que, na entrada do novo século, a conjuntura econômica extrema da década de 1990 começa a se aliviar; adaptando-se a uma estrutura econômica diferente, em que surgiam pequenos estabelecimentos privados, voltava a existir transporte urbano, ainda que precário, e com a criação do chamado peso convertível cubano, mercados se abasteciam de produtos para um grupo com maior poder aquisitivo. Destaca que “…enquanto a recuperação econômica se estabelecia, parte da capital se beneficiava com as novas possibilidades: a restauração da zona colonial, a Havana Vieja, era um processo em marcha para o bem histórico e patrimonial do país” (p. 105). Mas lembra que esse importante setor, representa nem 1/10 da metrópole de Havana, para as demais áreas, praticamente não chegaram as inversões necessárias à sua reabilitação.
E, por fim, para chegar ao cenário do final de 2025, Padura descreve a Havana pandêmica e pós (cap.19), cuja transcrição é necessária:
“A pandemia, as restrições maiores do bloqueio estadunidense aprovadas pelo governo de Donald Trump (tornou-se quase impossível o envio de remessas à Ilha, por exemplo) e a ineficiência já tradicional e profunda do sistema econômico doméstico alimentaram a perfeita tormenta vivida desde então pela sociedade cubana: falta de produtos de primeira necessidade. Crise no fornecimento de combustível, aumento dos preços de tudo o que é necessário e desnecessário, inflação galopante, deterioração dos médicos e escassez de medicamentos até mesmo para doenças crônicas. Foi a volta das carências da crise, só que agora faltava até imaginação, e talvez por isso nem se tenha dado nome a ela… Em algum momento, diz-se que é uma “conjuntura”, sem que se defina sua duração. Contudo, mais uma vez o engenho cubano sintetizou a realidade atual: a todos os que perderam o Período Especial nos anos 1990, informa-se que ele está sendo retransmitido, inclusive com capítulos inéditos”. Ou uma opção mais realista: “não se queixem de como estão nesta semana. Na semana que vem, estarão pior” (p. 136).
Vale observar que o Governo Trump acima referido é o do primeiro mandato (2017/2021), nem sombra das restrições impostas neste momento, no atual mandato, e poucos meses após a publicação do livro. Portanto, a frase destacada acima é premonitória, sem dúvida.
Já se observam, pelas notícias veiculadas pela imprensa, um quadro que tende a ser muito mais dramático do que os anteriormente descritos, pois já parte de um patamar de esgotamento das forças sociais e humanas para enfrentamento de nova crise e dos recursos para seu enfrentamento.
O boicote de tantos anos, agora ampliado com o estrangulamento do suprimento do petróleo e, portanto, da energia elétrica dele dependente, tende a levar o país ao limite do caos econômico e social. Não se pode acreditar que alguns poucos petroleiros, liberados como ajuda emergencial enviada por Putin, poderão amenizar esse quadro.
Para além do novo ciclo de sofrimento dos 10 milhões de cubanos, pode-se perguntar: o que restará da bela cidade de Havana, já tão deteriorada? Que rumos decorrerão do quadro geopolítico global e que tipo de mudanças poderão ocorrer no regime da Ilha de Cuba? E caso ocorram, que transformações trarão ao espaço e território metropolitano, à Havana Vieja, à cultura e até mesmo aos aspectos mais bem-sucedidos da revolução cubana – a saúde e educação?
Deveremos, nos próximos anos, repetir um Réquiem para essa cidade belíssima, ou esperar que Leonardo Padura, mesmo crítico ferrenho do regime, mantenha-se vivendo em seu bairro natal de Mantilla e possa nos brindar com a atualização deste cenário, de preferência positiva? Entretanto, até mesmo essa expectativa é frágil, já que o Epílogo de Ir até Havana, emerge como um grito de socorro de Padura:
“Como qualquer organismo vivo, as cidades reclamam afetos, e há décadas Havana tem recebido poucos com a profusão exigida. Hoje, talvez receba menos carícias que nunca. E meu senso de pertencimento[4] sofre com esse processo, que inclusive me leva a perguntar se algum dia, de tão alheia e por momentos até tão hostil, de tão desfigurada e com a alma tão sofrida, também deixarei de sentir que Havana é minha cidade”. (p. 256).
Referências:
[1] Havana Vieja, junto com seu sistema de fortificações, foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO no ano de 1982. O reconhecimento destaca o valor histórico e a arquitetura colonial preservada do centro histórico da capital cubana.
[2] LA HABANA, CUBA, Editorial CETSCO; Sección de História de la Arquictetura/Escuela de Arquitectura, Universidad de La Habana; Equipo del Plan Director de La Habana, Instituto de Planificación Física – Editorial Gustavo Gili S.A, Barcelona, 1974.
[3] “Período Especial em Tempos de Paz” foi a denominação oficial que se deu àqueles anos tenebrosos (p.81)
[4] O tema do pertencimento e despertencimento ou desenraizamento é uma constante nos textos, livros e entrevistas de Leonardo Padura. Sobre este aspecto, ver https://terapiapolitica.com.br/resenha-como-poeira-ao-vento-de-leonardo-padura/
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
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