Futebol abre oportunidade para tratar de outras coisas sérias também, ou é uma excelente desculpa para falar de coisas mais importantes (Publicado por Sul 21)

“Para Ruy Carlos Ostermann, que não pode nos ilustrar nesta Copa.
Sua palavra faz falta”.
Copa do Mundo sempre reacende esta e outras questões, afinal, futebol é coisa séria. Nelson Rodrigues afirmou, uma vez, que a Seleção brasileira era tão importante que Freud deveria ser o técnico: o homem para estar na “boca do túnel” e quem sabe fornecer alguma luz ao escuro de nosso tempo.
Possibilita falar sobre toda uma cidade, toda uma vida individual e comunitária. Um amigo jornalista e escritor, Luiz Reni Marques, em “Um grito abafado de gol”, contou a história do bairro Navegantes e adjacências, suas origens, os imigrantes, as fábricas, os operários e seus campos de futebol na várzea, através de um time de futebol. A complexidade de nossa vida sociocultural estava toda ali, naquele universo do filho do goleiro fracassado, que se torna craque do time. Sem falar na história dos envolvimentos amorosos dele e de sua família.
Futebol abre oportunidade para tratar de outras coisas sérias também, ou é uma excelente desculpa para falar de coisas mais importantes, já dizia o técnico Neném Prancha. Nesta direção, “O negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho, foi um dos primeiros a traçar uma história destes descendentes de escravos que ocuparam um espaço originalmente reservado para os brancos e trabalhadores estrangeiros.
Charles Muller trouxe chuteiras e bola de couro para o lazer dos empregados estrangeiros e administradores das ferrovias e fábricas têxteis inglesas que se instalaram no Brasil. Rapidamente, os operários passaram a jogar, as crianças a brincar com bolas de meia, na esperança de uma de couro. Depois da rua, o campo, a várzea era mais fácil de encontrar para quem não morava no centro da cidade – a maioria da população, como sempre. Entenda-se: no início do século passado (sec. XX), o centro das cidades era a área nobre, ao contrário de hoje.
É bem conhecida a trajetória e a luta de jogadores negros por reconhecimento e valorização, enfrentando o preconceito dentro e fora de campo. A profissionalização obrigou muitos clubes a mudarem seus estatutos, antes destinados a manter a discriminação. Lembremo-nos de que até os anos 30 (do século XX), as teorias eugenistas tinham muito espaço nas discussões “intelectuais”, com suas evidentes repercussões populares. Mas, neste campo, eles foram derrotados (com os estertores de praxe), ou melhor, a experiência foi tão forte que passou a ter marcas de identificação inapagável. Traços que constituíram uma nacionalidade.
Não sem tragédias. Uma delas, Maracanã 1950. O futebol vinha ganhando importância desde a copa de 1938, quando Leônidas da Silva – o Diamante Negro (esta é a origem do nome do chocolate em barra) – foi o goleador e melhor jogador. A propósito, Leônidas começou sua carreira profissional pelo Bonsucesso, do Rio de Janeiro, em 1931, levado pelo mítico Gentil Cardoso. Mas, voltemos ao estádio carioca. Uma campanha sem precedentes (só veremos esta velocidade de 50 anos em cinco na construção de Brasília, anos mais tarde, mas esta é outra história), liderada entre outros por Mário Filho e Ary Barroso, levou à construção do maior estádio do mundo em tempo recorde. Maior estádio, Brasil sede da Copa, ganhando partidas de goleada. Entretanto, na final, perdemos para o Uruguai por 2×1, quando até o empate nos servia. Foi um silêncio sepulcral naquele estádio com 200 mil pessoas. Os uruguaios até hoje tentam nos assombrar com o “Maracanazzo”.
Naquele momento, o “complexo de vira-latas”, diagnosticado por Nelson Rodrigues, tomou vulto, e os aproveitadores de plantão se esbaldaram em sua vulgaridade, como é de costume até hoje. O luto durou oito anos: em 1958 fomos campeões mundiais na Suécia e logo depois no Chile, em 1962. Ali nasceu a geração de jogadores que deslumbrou o mundo em 70, no México, quando a transmissão televisiva foi inaugurada. Nick Hornby, em Febre de Bola, relata o impacto na Inglaterra, daquela seleção de Pelé, Gerson e Tostão entre outros.
Nessas alturas dos acontecimentos, o samba já estava consolidado como o ritmo do futebol. “Na cadência do samba”, com a orquestra de Waldir Calmon, embalava os jornais cinematográficos do Canal 100. O uso da câmera lenta nos lances, close nos jogadores e na torcida incentivavam e produziam a identificação com o esporte. Detalhe interessante: originalmente, “Na cadência do samba’’ não falava sobre futebol, mas sua letra fazia o elogio: “que bonito é/ver um samba no terreiro/assistir um batuqueiro/numa roda improvisar’’. Daí para o futebol foi uma passagem cadenciada, gingada e definitiva.
Com a passagem do tempo e das modificações tecnológicas, outros ritmos vieram, mas todos eles, mesmo o pop, bebem na fonte. Ninguém faz esquentamento para ir ao estádio, ou mesmo ficar na frente da televisão para assistir a um jogo escutando sofrência. Já basta o sofrimento e as emoções que o time ou seleção vão nos provocar; isso exige algo catártico, mais intenso. As canções “dor de cotovelo’’ podem ficar para aliviar a “cabeça inchada” por uma derrota.
O futebol mudou. As táticas, a velocidade, o preparo físico, a forma de administrar os clubes e o sistema de negócios se transformaram. Para o bem e para o mal. De maneira expressiva, demonstram os efeitos da hegemonia do sistema financeiro, aliada ao avanço tecnológico que vivemos. A desigualdade social é somente uma delas. Detalhe curioso que algumas pessoas critiquem os ganhos milionários de alguns jogadores (são minoria), esquecendo que menos de um por cento da população detém toda a riqueza do país. Ainda bem que esta riqueza não se mede somente em termos econômicos e financeiros.
Em 2014, o Brasil organizou a Copa do Mundo. Com todos os conflitos internos, sua organização foi exemplar e superou outras que vieram depois em outros países. Porém, o mais marcante foi que tivemos outra tragédia: tomamos 7 a 1 da Alemanha, em pleno Mineirão. “Oh, Minas Gerais”. Placar inimaginável em qualquer campeonato do mundo. O mais interessante foi que tratamos como tragédia esportiva. A pátria de chuteiras durou o tempo da Copa. Depois, vida que segue. Claro, ficou o trauma – na memória, nos corpos, nos noticiários –, mas ninguém morreu em pleno estádio como em 1950, nem apontou “únicos culpados”, como aconteceu com Barbosa e Bigode. Paulo Perdigão escreveu um lindo conto sobre sua experiência naquele dia fatídico, texto que resultou no roteiro para o curta “Barbosa”, dos jovens cineastas Ana Luiza Azevedo, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil.
Hoje, fica evidente que, apesar de ainda ser o esporte mais popular, seu espaço na vida nacional se transformou. Talvez esteja ficando de um tamanho mais razoável. Podemos falar em união comunitária somente durante a Copa. Afinal, dificilmente se consegue mudar de paixão quando um traço comum se atualiza. Tenho amigos que se sentem oprimidos pelo que eles caracterizam como uma avalanche publicitária tentando explorar os sentimentos e ocupando muito espaço. Paciência – isto acontece uma vez a cada quatro anos e olhe lá. No mais, passamos sendo assediados por outras publicidades.
E, por falar em temores e expectativas, talvez, apesar de todas as mudanças tecnológicas, uma partida de futebol seja uma das poucas coisas que não poderá ser substituída pela tecnologia de IA e suas deep fakes tão aperfeiçoadas que hoje quase não podemos mais distinguir entre o falso e o verdadeiro, ou o falso que se torna verdadeiro em 20 minutos, dependendo da viralização. Por sua imperfeição e surpresas, que este possa ser um dos fatores que nos livrem da extinção a curto prazo. Quem viver verá. Boa sorte. (Publicado por Sul 21)
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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