
Enquanto as bets seguem serelepes, atuando livres e soltas no Brasil, no país de D. Trump, a Meta de Mark Zuckerberg acaba de ser condenada a pagar 18 bilhões de dólares por manipular a atenção das crianças com o objetivo de viciar – uma dívida a ser quitada ao longo de dez anos. Mesmo assim o número parece, e é, impressionante: 1,8 bilhão de dólares (ou algo como dez bilhões de reais) a cada ano.
Salve o sistema jurídico deles, mesmo que tarde, tão capaz de enfrentar e punir criminosos de grande porte, como empresas multibilionárias, e até seus donos.
Repare que na letra da condenação está explicitado o objetivo, a intenção consciente de tornar adictas milhões de crianças (até 13 anos de idade, em violação ao COPPA – Children’s Online Privacy Protection Act.). Sob a intervenção direta do dono, a Meta “projetou deliberadamente Facebook e Instagram com mecanismos destinados a maximizar e prolongar o uso por crianças e adolescentes, apesar de conhecer os riscos de dependência e danos à saúde mental”.
Como afirmaram os procuradores-gerais dos 47 estados que moveram a ação, “Facebook e Instagram são empresas de publicidade digital, cujos algoritmos foram especificamente desenhados para estimular o engajamento das pessoas, por postagens que muito provavelmente despertarão emoções que as manterão viciadas”.
São esses os algoritmos que os processantes gostariam de ver controlados e alterados. Um deles foi bastante direto ao afirmar que tais algoritmos são pura “manipulação de dopamina”. A revolta crescente contra a empresa de Zuckerberg está se estendendo mundo afora e agora mesmo também a União Europeia quer que a empresa modifique seu “design viciante”.
Como não deixam dúvidas, as manifestações dos processantes comparam os algoritmos, sem tirar nem pôr, a entregar drogas aditivas a domicílio. Praticamente da mesma forma como fazem as corporações das drogas ilegais (e outras), e que quando atuam juntas e em cooperação são conhecidas como cartéis – diga-se Cartel de Cali, Cartel de Medelin do popularíssimo Pablo Escobar, Cartel de Sinaloa, ou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital no Brasil, e todo mundo sabe do que se trata. A essas outras, cujos modus operandi estamos nos habituando lentamente.
O processo contra o Facebook-Instagram e a empresa proprietária é a mais recente dessas vultosas ações judiciais que desde os anos 1990 tiveram enorme repercussão midiática nos EUA e no mundo.
As fabricantes de cigarros
Em 1998, as quatro grandes empresas tabagistas dos Estados Unidos foram condenadas a pagar 206 bilhões de dólares – de novo, ao longo de 25 anos. Mesmo assim, parece ser, e é, grana de tirar o fôlego. São pouco mais de 8 bilhões de dólares (ou algo como 41 bilhões de reais) a cada ano. E um trilhão e 47 milhões de reais no total – sempre ao câmbio de hoje.
Um dos grandes filmes do diretor Michael Mann trata com notável maestria as idas e vindas desse processo. Em O Informante (The Insider), Al Pacino faz o papel do produtor do Programa 60 Minutes da CBS e Russel Crowe, um ex-executivo da Brown & Williamson (uma das quatro gigantes) que, despedido, decide revelar os segredos da indústria guardados a sete chaves: as empresas não apenas tinham conhecimento dos efeitos viciantes da nicotina e das outras drogas adicionadas ao seu produto, como tratavam de ir lentamente fazendo crescer o poder viciante dessas drogas.
É possível e até provável que muitos dos de bom coração e os inocentes, que são muitos no mundo (além dos milhões de fanáticos adictos do liberalismo), ao se depararem com o tamanho da cifra, tenham até sentido pena e se perguntado: como essas empresas serão capazes de tamanho dispêndio?
O que fizeram então as quatro grandes em consequência da penalização? Além de serem obrigadas a tornar públicos milhões de documentos secretos (“pesquisas, memorandos, correspondências internas e materiais relacionados às estratégias sobre nicotina, doenças e marketing”), e abandonar algumas formas de publicidade mais agressivas (patrocínios esportivos, etc, etc, etc), a primeira das medidas diz muito sobre como funcionam de fato esses acordos entre a Lei e as empresas delinquentes: no mesmíssimo dia em que o acordo (Master Settlement Agreement- MSA) foi assinado, houve um aumento de aproximadamente 0,45 dólares por maço no atacado.
Entre essa subida inicial e 2001, estima-se ter havido um aumento médio de 1,19 dólares por maço. Traduzindo, isso significa que uma parte bastante significativa do custo do acordo foi imediatamente transferida para o consumidor – o adicto da nicotina.
Proibidas as formas mais tradicionais de publicidade, as enormes verbas de publicidade passaram a se concentrar no varejo, com descontos de preço, promoções e incentivos aos comerciantes. O resultado foi que os gastos totais com a promoção do cigarro até cresceu. Os 6,73 bilhões de dólares gastos em 1998 passaram para 8,24 bilhões no ano seguinte.
As vendedoras de opioides
Pouco depois, logo após a virada do milênio, iniciaram-se outros desses processos, agora contra uma indústria farmacêutica chamada Purdue Pharma. O produto lançado no mercado pela empresa da família Sackler, o OxyContin, estava àquela altura produzindo o que o CDC (Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos) classificou como epidemia dos opioides. Em dezembro de 1995, a FDA (Food And Drug Administration) aprovou o uso do OxyContin, que imediatamente começou a ser comercializado em grande escala. Não passou muito tempo e as mortes por overdose de opioides prescritos pelos médicos começaram a se evidenciar.
Associada a esta explosão do uso do fármaco da Purdue, está uma agressiva política de propaganda e venda orquestrada especificamente para o novo lançamento. Vale destacar esse fato, primeiro porque se trata de fazer publicidade não de um produto qualquer, como picolé ou casacos de frio, mas de um remédio – alguma coisa que só deveria ser usada por absoluta necessidade, não por escolha. E também porque essa era uma das expertises da família Sackler, que já nos anos 1950 se utilizava da divulgação profissional de medicamentos. Talvez tenham sido os primeiros a fazer isso.
Quando os estados resolveram ir pra cima da Purdue, a empresa já havia lucrado uns tantos bilhões de dólares. Segundo o GAO (Government Accountability Office), entre janeiro de 1996 e o final de 2001, as vendas do OxyContin alcançaram a cifra de aproximadamente 3,35 bilhões. E entre 1999 e 2023, 806 mil pessoas haviam morrido de overdose envolvendo opioides – não todos foram vítimas do OxyContin, mas a epidemia era, sim, uma das decorrências da venda e da publicidade daquele miraculoso remédio contra a dor, inventado e produzido pela família Sackler. Na sequência dos opioides prescritos, vendidos como se vendem cotonetes em farmácias e lojas de departamentos como Walmart, Walgreens, CVS, Rite Aid, além de redes de supermercados e warehouse clubs, vieram, entre outros, a heroína e o fentanil. Esses quase um milhão de mortos são as vítimas desses medicamentos.
###
A continuação dessa história estará no próximo artigo. Ainda há muito a contar. Enquanto isso, para quem se interessar, além do belo filme do Michael Mann sobre as fabricantes de cigarros, há pelo menos três livros sobre a epidemia dos opioides:
Pain Killer: An Empire of Deceit and the Origin of America’s Opioid Epidemic (Barry Meyer, 2003), Dreamland: The True Tale of America’s Opiate Epidemic (Sam Quinones, 2015) e Império da Dor: a ascensão e queda da dinastia Sackler (Empire of Pain: The Secret History of the Sackler Dynasty, 2021) Patrick Radden Keefe – que é também o autor de No Digas Nada (Say Nothing, Penguin House, 2020, sobre a Irlanda do Norte, a guerra do IRA contra o exército da rainha da Inglaterra e o acordo de paz de 1998).
Dos três, apenas o último foi lançado no Brasil. Quanto ao livro de Quinones, há uma edição em espanhol (Capitán Swing Libros 2016). Quanto à Meta, há um novo filme, The Social Reckoning, escrito e dirigido por Aaron Sorkin, com previsão de lançamento no Brasil para outubro.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Bets: oligopólios digitais que capturaram o núcleo decisório do Estado”, de Marcos Grillo.






