O barulho estridente da música com rápidas batidas graves ritmadas ao fundo descompassava do balanço lento do luxuoso iate. O mesmo contraste havia entre a juventude das pouco vestidas mulheres e a idade dos homens convidados, em média para lá dos 40 anos e com a arrogância de quem sabe que, no fundo, não vale a própria empáfia.

O anfitrião, rico de dinheiro alheio conseguido com favores, distribuía favores e sorrisos confiantes típicos de quem desconfia de todos que estão ali. Olhava a cada um esperando o momento de pedir um favor ou de fazer um favor em espécie, pois em sua profissão, o “é dando que se recebe” é a mais usual e profunda oração de devoção ao dinheiro. Naquele iate perdido num mar tranquilo, aquela festa era quase um culto de devotos do dinheiro e do poder.

Retirou-se para uma sala reservada para atender aos convidados com alguma discrição. Apenas duas moças estrangeiras seminuas o acompanhavam, ornando sua figura de portador da satisfação de desejos irrefreáveis.

“Dani, queridão!”, disse o jovem deputado. “Salve, irmão!”, respondeu o banqueiro dando-lhe um afetuoso abraço com tapinhas nas costas, como se o afeto entre os dois fosse genuíno. “Lindão, não quero incomodar, mas poderia ajudar naquele negócio dos ativos minerários? É por caridade a um amigo, sabe? Gente da maior confiança. Pastor Astrogildo também tem interesse nisso, poderia ajudar?”. “Claro, irmão! Estamos juntos”. “Obrigado, Lindão!”.

“O ministro quer lhe falar, o Ssenhor o recebe?”, perguntou o segurança que atuava como secretário. “Claro! Ministro é prioridade”. O ministro entrou com o ar tranquilo de quem finge segurança ao julgar. “Como vai, irmão!”, disse o banqueiro procurando descontrair quem aprendeu, por ofício, a não demonstrar descontração, ainda abraçando, disse ao pé do ouvido, “Meu irmão, desta vez, quem precisa de ajuda sou eu, com algumas questões no Banco Central. Teria como ajudar?”. Sem desfazerem o abraço, afastaram-se apenas o suficiente para se olharem nos olhos, como dois amantes em juras de amor eterno. “Claro, você é meu irmão. E muito obrigado pela força com meu instituto, você é um querido”.

“Ligação para o senhor, aquela que o senhor pediu”. “Pode passar. Coloque no viva-voz, por favor”, pediu para que pudesse falar enquanto acariciava lascivamente as moças e segurava o copo de uísque. “Meu irmão! Estava precisando muito falar com você. Estou preocupado com aquele problema da Polícia Federal”. “Meu amado! Você mandou tudo para minha esposa? Mandou os documentos que eu lhe falei? Eu vou dar uma olhada para lhe tranquilizar. E, qualquer coisa, você não está sozinho”. “Obrigado, meu querido!”.

A conversa prosseguiu entre preocupações externadas e tranquilizações afetuosas. O banqueiro terminou a conversa menos tenso, mas não descontraído o suficiente para aproveitar melhor a presença das moças. Serviu-se de mais uísque em busca da paz que se esforçava por comprar. “Senhor, o senador”, disse o segurança. “Deixe entrar”.

“Meu irmão!”, disse o senador, abraçando. “Meu amado, a produção do filme precisa de mais alguns milhões para continuar. Sabe como é, essas coisas são caras e as eleições estão próximas. Este filme vai ajudar muito o nosso projeto, irmão”. “Claro, irmão, estamos juntos!”.

As mulheres que a tudo assistiam, compreenderam as falsidades. Apesar de não falarem a língua daqueles homens, entendiam algumas palavras, as mesmas que lhes falavam para simular um afeto inexistente. Querida, linda, lindona…, aprenderam todo um vocabulário para dizer com palavras o que, quando existe de verdade, não precisa ser dito.

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Ilustração: Mihai Cauli
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