A alegria como força para superar frustrações, renovar a esperança e recuperar a poesia na política e na vida.

Desde o dia quatro de outubro à noite estou em busca de uma palavra, e a primeira em que pensei foi a palavra frustração. Aos poucos fui vendo e lendo sobre um movimento dos jovens na França em defesa da educação. Já aqui no País ocorreram manifestações estudantis, com entusiasmo, diante do segundo turno das eleições presidenciais. Fui me refazendo assim como os demais, não só os estudantes. Ontem, num pequeno mercado do bairro, escutei uma breve história que determinou o tema da crônica. Estava comprando pão quando escutei um diálogo entre dois funcionários do mercado em que um defendia o filho 01, assim definido pelo pai. Ele dizia que iria votar no 01, e seu opositor perguntou quais eram as propostas dele, e escutou a resposta, que eram milhões, e logo escutou a réplica: “Diga três propostas”. Aí o colega de trabalho começou a balbuciar e se referiu à segurança, mas nada mais, gerando um silêncio constrangedor; o funcionário que havia votado no atual governo disse que, para ele, ser atendido pelo SUS era fundamental, e a possibilidade de chegar à universidade pública também. Ele não precisava do “Minha Casa, Minha Vida”, mas uns parentes seus sim, e estavam morando numa boa casinha e pagavam mensalmente sua prestação. Fiquei impressionado, e saí do mercadinho animado, e associei essa experiência às manifestações da juventude. Irrompeu, então, um sentimento de alegria.

A palavra alegria, que estava há anos para escrever e se associou à frase do poeta  Friedrich Schiller: “Alegria, ó raio divino da beleza”. Gostei da associação da alegria com a beleza e um raio divino. Aí percebi, mais uma vez, o quanto falta poesia na política, na própria psicanálise e na vida em geral. Cheguei em casa, pus a Nona Sinfonia de Beethoven para escutar e junto recordei os versos de Schiller que inspiraram o quarto movimento: “Oh amigos, mudemos de tom!/ Entoemos algo mais agradável/ E cheio de alegria”. Assim começa a “Ode à alegria” de Friedrich Schiller, que inspirou Beethoven a compor o último movimento da Nona Sinfonia, conhecida como a melodia da alegria. Recordo que o grande compositor estava surdo ao compor e sua vida era sofrida, em especial nas relações amorosas. Schiller escreveu a “Ode à alegria” em 1785, e a Nona Sinfonia foi composta entre 1822 e 1824. A música é necessária, assim como a poesia, as artes, e a percepção de como devemos ser gratos à nossa imaginação, que segue sonhando um amanhã melhor.

Não temos a maioria no Congresso, nem no Senado, e há uma ameaça nesse Supremo que perdeu seu norte. Entretanto, os jovens despertaram, algo jovial emerge na gente idosa e mais velha. Precisamos nos comunicar nas redes e nas ruas, é preciso conversar, após o choque inicial, logo volta a vida poética, os sonhos, o entusiasmo. É preciso ser grato a essa riqueza espiritual que se junta à espirituosidade do humor para lembrar a vitória da deputada federal de Minas Gerais. Ana Elisa, aos 21 anos, fez uns quinhentos mil votos, e assim nasce uma nova geração no País, e também na França, que emociona, empolga, gera uma nova fraternidade. Por nada deste mundo a gente deve abdicar do encanto de a gente ser como é: poético, sonhador, sentindo mais amor que ódio, olhando em direção ao amanhã ajudado pelo ontem e hoje. Devemos aprender a suportar as frustrações e trabalhar para transformar fracassos em sucessos, sem sucumbir ao canto da paixão destrutiva e da crueldade. Avanti Popolo!

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Ilustração: Mihai Cauli
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