Novilíngua e a distopia bolsonarista: Inspirado em Orwell e na experiência do nazismo, o artigo analisa o uso político da linguagem por Trump e Flávio Bolsonaro e o significado de liberdade para extrema direita.

Na novilíngua, os termos se invertem: cheio significa vazio, certo significa errado, branco significa preto, tudo significa nada, mentira significa verdade, pobre significa rico. E por aí vai. Novilíngua, como você sabe, é a língua criada pelo grande irmão para controlar o mundo distópico de 1984, a novela de George Orwell que descreve uma sociedade hipotética, opressora, autoritária e brutal.
A ideia foi recentemente incorporada pelos ideólogos da extrema direita com um descaramento que ultrapassa os limites do próprio grande irmão. Na verdade, esse tipo de manipulação do real pelo uso da linguagem antecede o romance de Orwell.
Num livro chamado L.T.I. – Lingua Tertii Imperii: A Linguagem do Terceiro Reich, o filólogo Victor Klemperer descreve a maneira como o regime hitlerista se utilizou da linguagem como instrumento de controle da população. O ensaio de Klemperer foi publicado em 1947, dois anos antes de 1984.
O parentesco entre a L.T.I., a novilíngua e o que anda praticando Donald Trump nos Estados Unidos (e no mundo) e os bolsonaristas no Brasil não é casual. Com uma frequência que deveria nos deixar com o cabelo em pé, insistem em afirmar que aqui não existe democracia, que as instituições do Estado democrático de direito não são legítimas, que as urnas (sempre que não os favorecem) são fraudulentas – e por aí vai.
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Num discurso em Goiânia no início da semana, ao lado do ex-governador e ex-candidato a presidente Ronaldo Caiado (quinto colocado na disputa do primeiro turno) o agora maioral da extrema direita tupiniquim começou pela celebração de uma lamentável realidade:
“O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que ele já é hoje. Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, com maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara”.
Na sequência, o ensaio novilinguístico:
“Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”.
Respeitar a Constituição é, para os Bolsonaro’s, antes de mais nada, anular a condenação do patriarca a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal – a tentativa de golpe de Estado era, naturalmente, para inverter o resultado das urnas, onde foram derrotados.
Mas esse seria somente o primeiro item da pretendida reforma, caso vençam o segundo turno: o objetivo número um do assim chamado programa de governo (sic). Aproveitando os recentes deslizes de membros do STF no escândalo Daniel Vorcaro e na sombra deixada pelo ato libertador, virão as ferozes investidas contra os direitos dos menos favorecidos.
Será o fim do reajuste do salário mínimo considerando o INPC + ganho real pelo crescimento do PIB, com consequências automáticas sobre os benefícios vinculados ao mínimo – aposentadorias do INSS de até um salário, pensões por morte, auxilio por incapacidade temporária (antigo auxilio doença), seguro desemprego, abono salarial PIS/Pasep, salário família – e, simultaneamente, o fim do reajuste para os inativos.
Antes mesmo do segundo turno, o candidato do bolsonarismo já lidera uma apressada cruzada para impedir a votação no Senado da escala 6 x 1 – e se aprovada, como se espera na sessão prevista para a semana que se inicia amanhã, eles farão gatos e sapatos dos senadores para que revertam a decisão.
No lugar dessa redução da jornada de trabalho sem redução do salário, o que propõe Flávio Bolsonaro e os economistas ultraliberais que o assessoram?
Ora, liberdade para os trabalhadores negociarem diretamente com os patrões, caso a caso, a quantidade de horas trabalhadas e a respectiva remuneração. Aos dois dias de descanso por semana propostos pelo fim da 6 x 1, uma jornada negociada individualmente. No lugar da proibição da redução salarial proposta pelo governo, uma remuneração proporcional às horas negociadas pelos trabalhadores com o patrão, cara a cara.
Onde está, então, o pulo do gato para, mesmo com essa maliciosa sugestão, não perderem milhões de votos?
Mais uma vez, no uso dessa nova tecnologia aperfeiçoada pela ultradireita dos Estados Unidos e imediatamente adotada pela filial brasileira: a novilíngua dos mundos distópicos – e do hitlerismo na Alemanha dos anos 1930.
Aquilo que seria um importante retrocesso para a vida da imensa maioria dos brasileiros é louvado e vendido pelo candidato a presidente como uma encantadora conquista do mundo do trabalho.
P.S.: Flávio, o Pix e uma prestação de contas aos EUA
No começo de julho, Flávio Bolsonaro encaminhou ao USTR (United States Trade Representative) uma manifestação de 86 páginas sobre as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, incluindo propostas relacionadas ao Pix. Embora garanta que o Pix continuará sem taxa, alguns analistas afirmam que “isso não significa que o Pix continuará funcionando como hoje”, já que seu plano de governo “prevê uma ampla revisão das normas regulatórias”.
No documento enviado ao governo dos Estados Unidos, “ele propôs mudanças na arquitetura internacional do Pix e defendeu aliviar a carga regulatória tributária sobre os meios privados de pagamento”.
O governo Trump (e o sistema de cartões de crédito estadunidense) vira e mexe protesta contra a competição desleal do nosso humilde Pix contra os outros meios de pagamento privados. Dadas as relações de intimidade entre os membros da família Bolsonaro e o governo Trump, em particular com o secretário de Estado Marco Rubio, é bem possível que quem seja feito de gato e sapato pelos senhores do Império será o eventual governo Flávio Bolsonaro.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Não contem comigo”, de Paulo de Tarso Riccordi.






