Quando a ordem perde a capacidade de oferecer um futuro, a extrema direita ganha espaço. Uma análise das crises de ontem e os riscos autoritários de hoje.

A extrema direita costuma ser explicada como desvio político, explosão de preconceito ou efeito perverso das redes sociais. Tudo isso importa, mas pode esconder algo maior se considerado o horizonte do tempo, especialmente quando nos momentos históricos em que a ordem existente perde a capacidade de organizar expectativas e oferecer um futuro superior convincente.
Foi o que ocorreu, por exemplo, há cerca de cem anos e que apresenta, nos dias de hoje, semelhanças inquietantes, embora não idênticas, com o primeiro terço do século XXI. A comparação histórica exige cautela. O mundo atual não é a Europa dos anos 1930, assim como a extrema direita contemporânea não é sinônimo automático de fascismo.
Os dois períodos, entretanto, combinam transformações econômicas, deslocamentos da hegemonia internacional, rivalidades entre potências, guerras, pandemias, insegurança social e desgaste das instituições liberais. No início do século XX, o antigo agrarismo cedia espaço à sociedade urbana e industrial. Milhões de pessoas migravam para as cidades, hierarquias tradicionais se desfaziam e novas classes sociais disputavam direitos e poder.
Ao mesmo tempo, a hegemonia britânica perdia força diante da ascensão dos Estados Unidos e da Alemanha. O equilíbrio europeu se deteriorava, e as disputas imperiais desembocaram na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A pandemia de gripe de 1918 atingiu um mundo traumatizado pela guerra, infectando aproximadamente um terço da população mundial e causando dezenas de milhões de mortes. Não criou o fascismo, mas ampliou a experiência coletiva de vulnerabilidade. Nos anos seguintes, a instabilidade política, a inflação em determinados países, o desemprego em massa e a Grande Depressão de 1929 agravaram as contradições sociais.
Em “A grande transformação” (1944), Karl Polanyi interpretou essa sucessão de crises como expressão do esgotamento de uma ordem baseada no mercado autorregulado e no liberalismo econômico. O colapso desses pilares revelou as dificuldades da democracia liberal para conciliar mercado, proteção social e participação popular.
Wilhelm Reich, em “Psicologia de massas do fascismo” (1933), acrescentou outra dimensão ao indagar por que parcelas das próprias massas aderem a movimentos que restringem sua liberdade? A sua análise destacou a repressão, a família autoritária e a identificação com a autoridade. O fascismo não mobilizava apenas interesses econômicos, mas também angústias, ressentimentos, identidades e afetos.
Adorno, em “A personalidade autoritária” (1950), Herbert Marcuse, em “O homem unidimensional” (1964), Walter Benjamin, em suas “Teses sobre o conceito de história” (1940), e Ernst Bloch, em “O princípio esperança” (1959), ajudam a aprofundar essa reflexão. Por caminhos distintos, esses pensadores mostram por que o fascismo não pode ser tratado simplesmente como acidente de percurso ou anomalia histórica. Ele permanece entre as possibilidades de uma ordem social que, mesmo transformando sua política, cultura e tecnologia, pode conservar estruturas de dominação, desigualdade e concentração de poder.
Em “Os judeus e a Europa” (1939), Max Horkheimer formulou uma advertência contundente sobre quem não quer falar do capitalismo deveria calar-se sobre o fascismo. Isso não significa que o fascismo seja inevitável no capitalismo, mas que compreender sua emergência exige investigar as contradições sociais que podem favorecê-la. Condenar o autoritarismo sem examinar as condições que o alimentam é combater sintomas sem enfrentar suas raízes.
Essa perspectiva ajuda a compreender o presente. Desde o final do século XX, a ordem neoliberal promete prosperidade e ascensão social por meio da competição, da liberalização dos mercados e da iniciativa individual. Após décadas de globalização financeira, expansão tecnológica e concentração empresarial, essas promessas convivem com a crescente insegurança ocupacional, desigualdade e enfraquecimento da proteção coletiva.
Wolfgang Streeck, em “How Will Capitalism End?” (2016), analisou o enfraquecimento do compromisso entre capitalismo e democracia. Wendy Brown, em “In the Ruins of Neoliberalism” (2019), mostrou como a racionalidade neoliberal pode corroer valores e instituições democráticas, abrindo espaço para políticas antidemocráticas. A liberdade passa a ser reduzida à competição individual, enquanto a solidariedade e a responsabilidade pública perdem legitimidade.
Ao mesmo tempo, a sociedade industrial cede espaço à sociedade de serviços hiperconectada. O emprego estável e as organizações coletivas convivem com plataformas digitais, trabalho fragmentado, endividamento, inteligência artificial e disponibilidade permanente. Manuel Castells, em “A sociedade em rede” (1999), analisou a reorganização social em torno das redes de informação. Hartmut Rosa, em “Social Acceleration” (2013), mostrou como a aceleração tecnológica e social torna o presente mais instável e o futuro menos previsível.
A insegurança contemporânea já não se limita ao desemprego. Inclui não saber se a profissão continuará existindo, se a renda será suficiente ou se a tecnologia substituirá determinadas tarefas. É possível trabalhar e continuar vulnerável. Para muitos, o empreendedorismo não decorre de uma escolha livre, mas da falta de alternativas. A promessa de autonomia esconde, frequentemente, a transferência dos riscos econômicos para os próprios trabalhadores.
A crítica de Marcuse à sociedade industrial avançada ganha, assim, nova atualidade. O desenvolvimento técnico não assegura emancipação: pode ampliar a liberdade, mas também aperfeiçoar mecanismos de controle. Na sociedade digital, plataformas privadas organizam o trabalho, algoritmos condicionam a circulação de informações e grandes corporações acumulam poder para influenciar comportamentos e escolhas.
A Covid-19 aprofundou essa ruptura. A pandemia não produziu por si mesma uma orientação autoritária, mas expôs desigualdades, interrompeu trajetórias e revelou fragilidades institucionais. Os seus efeitos atingiram especialmente populações de baixa renda e trabalhadores precários, demonstrando que a vulnerabilidade não é apenas individual: depende da organização econômica e da capacidade pública de proteção.
Também a ordem internacional se transforma. Giovanni Arrighi, em “O longo século XX” (1996), interpretou o capitalismo como uma sucessão de ciclos de acumulação e hegemonia. A ascensão chinesa, a disputa tecnológica, o protecionismo e as guerras apontam hoje para uma ordem internacional mais competitiva e menos concentrada em uma única potência.
Quando economia, geopolítica e vida cotidiana mudam simultaneamente, a democracia pode parecer lenta demais para responder às necessidades sociais. A extrema direita encontra espaço ao oferecer autoridade contra a incerteza, identidade contra a fragmentação e liderança forte contra instituições apresentadas como impotentes.
Benjamin, ao criticar a ideia de progresso automático, advertiu que o desenvolvimento histórico não conduz necessariamente a sociedades melhores. A modernização pode coexistir com a barbárie quando seus benefícios se concentram e a maioria permanece sem controle sobre as forças que organizam sua vida. Bloch, por sua vez, ajuda a compreender que a disputa política também é uma disputa pela esperança. Quando o futuro se estreita, o ressentimento pode ocupar o lugar da transformação coletiva. A extrema direita canaliza essa frustração com promessas de restauração de uma ordem idealizada e identificação de inimigos, sem necessariamente enfrentar as causas da insegurança.
Mas há uma diferença importante nos dias de hoje em relação aos anos 1930. O autoritarismo contemporâneo não precisa abolir imediatamente as eleições. Em “Como as democracias morrem” (2018), Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como governos eleitos podem corroer gradualmente as instituições, enfraquecendo a imprensa, os tribunais, a oposição e as normas democráticas.
A semelhança histórica não está na repetição de uniformes ou símbolos, mas na combinação entre insegurança material, perda de perspectivas, transformação tecnológica, crise de representação e procura por autoridade. O passado não retorna de maneira idêntica, mas determinadas condições sociais podem produzir novas formas de autoritarismo.
No século XX, a sociedade agrária se desfez diante da industrialização. No século XXI, a sociedade industrial perde centralidade diante dos serviços hiperconectados e da transição digital. Na primeira transformação, o fascismo disputou a direção de uma sociedade que ainda não sabia quais instituições sucederiam a velha ordem. Na atual, a extrema direita disputa o sentido de uma sociedade que ainda não sabe como trabalhará, como se protegerá e como exercerá soberania na era digital.
O paralelo decisivo talvez esteja na compreensão de que a extrema direita ganha espaço não apenas quando a economia entra em crise, mas quando a sociedade perde a confiança na capacidade das instituições de construir um futuro compartilhado. Essa perda também pode refletir as contradições de uma ordem que amplia as possibilidades técnicas da humanidade sem distribuir de forma correspondente os benefícios da riqueza, do conhecimento e do tempo livre.
A resposta democrática não pode se limitar à defesa das instituições existentes, embora isso seja indispensável. Precisa reduzir a insegurança material, fortalecer a proteção social, democratizar o acesso à informação e submeter o poder tecnológico a objetivos públicos. Precisa, sobretudo, devolver à política a capacidade de produzir futuros que não estejam subordinados exclusivamente ao mercado ou aos interesses das grandes corporações.
A pergunta decisiva não é se estamos voltando a 1933, mas o que acontece quando uma sociedade percebe que o velho mundo deixou de funcionar sem conseguir imaginar o novo. Se a democracia não preencher esse vazio com direitos, participação e esperança concreta, outras forças tentarão fazê-lo com medo, ressentimento e autoridade.
Falar do fascismo exige, assim, falar também da ordem social que pode favorecer seu retorno. Defender a democracia significa mais do que impedir a regressão ao passado, pois se trata de construir condições para que o futuro volte a ser uma possibilidade coletiva.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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