É esse trabalho lá embaixo, miúdo, artesanal, quase invisível de conquista voto a voto que pode converter a assimetria das condições em vantagem nas urnas.

Faltam poucos dias para o segundo turno e as últimas pesquisas apontam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ainda assim, desde a apuração do primeiro turno, em que Lula ficou atrás, uma estatística vem sendo repetida como sentença: desde 1989, nenhum candidato que saiu do primeiro turno em segundo lugar chegou à Presidência. É contra esse fatalismo que estas linhas se voltam. A virada é possível e, se vier, virá de baixo.

E não é pouco o que está em jogo. Sempre que a extrema direita dispõe de força eleitoral real, a eleição deixa de ser uma escolha entre a continuidade ou a alternância de um grupo no poder — é a própria democracia que entra em xeque. Não se trata de exagero retórico: o candidato e dirigentes do PL já anunciaram, sem rodeios, que a anistia aos condenados pela trama golpista que desaguou na intentona de 8 de janeiro de 2023 será prioridade. É difícil não ler nisso o marco zero de uma escalada autoritária desavergonhada, agora revestida da legitimidade das urnas. Convém, porém, não confundir as tarefas. Reeleger Lula é impedir que planos ditatoriais avancem sob o manto do sufrágio. Derrotar o bolsonarismo exigirá um combate mais longo, pela hegemonia e contra suas organizações. A primeira tarefa é condição da segunda; é na primeira que cabe concentrar agora nossas atenções.

Comecemos, então, por desfazer o mito estatístico. O dado é historicamente verdadeiro. Desde 1989, quem liderou o primeiro turno acabou eleito, mas vem sendo mobilizado quase como fatalismo, como se a regularidade do passado fosse lei do futuro. Ora, meia dúzia de eleições não constitui lei histórica alguma, e há contraexemplos de sobra para desmontar esse determinismo. Nas eleições para governador, desde 1990, houve 35 viradas em 120 disputas de segundo turno, quase 30%. Na América Latina, entre 1978 e 2024, foram 20 viradas em 93 eleições presidenciais com segundo turno. No campo da esquerda, a vitória de Gabriel Boric no Chile, em 2021, depois de terminar o primeiro turno atrás de José Antonio Kast, é exemplo eloquente dessa possibilidade. A estatística descreve as circunstâncias, mas não faz a história por nós.

Lula é o presidente da República, e o país exibe indicadores econômicos positivos. Em tempos “normais”, isso bastaria para fazer dele um favorito confortável. Mas vivemos uma crise, e nela os parâmetros se alteram bruscamente: as mediações que outrora traduziam desempenho econômico em capital eleitoral já não operam com a mesma eficácia. De certo modo, Lula padece do ônus de ser governo sem usufruir do bônus. Ele está refém de um Congresso hostil, tem uma governabilidade estreita e optou pela conciliação, mesmo quando esse caminho já se mostrava bloqueado. Por isso, pouco conseguiu fazer para reverter a força social da extrema direita e chegar a esta eleição em terreno mais favorável. O resultado é que o embate entre Lula e Flávio Bolsonaro se trava em condições profundamente assimétricas.

A primeira, e mais óbvia, assimetria é o poder financeiro. Além de dispor da maior fatia do fundo eleitoral, o PL viu frações expressivas do capital aderirem abertamente à candidatura de Flávio. O volume de doações legais é revelador. Desde 4 de outubro, empresários das finanças, dos combustíveis e da mineração doaram R$ 2,3 milhões ao PL (setores que dependem de contratos públicos ou estão sob a vigilância de agências reguladoras). No mesmo período, o PT declarou apenas R$ 85 mil. O partido de Flávio recebeu, portanto, 27 vezes mais. Não se trata de filantropia: quem depende do Estado sabe muito bem quem quer à frente dele.

A segunda assimetria é jurídica. O Tribunal Superior Eleitoral é presidido pelo ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Sob o verniz da neutralidade técnica, o tribunal tem acumulado decisões que recaem com notável regularidade sobre a campanha de Lula. Não é preciso postular conspiração alguma: basta reconhecer que o direito, longe de pairar acima dos antagonismos sociais, é também um de seus terrenos.

A terceira assimetria, talvez a mais grave, se dá nas plataformas digitais. O caso da Meta é o mais emblemático. A campanha de Lula enumerou uma sequência de episódios: a retirada do perfil do presidente das buscas do Instagram, ainda em dezembro de 2025; a desativação da conta de anúncios durante o primeiro turno, sem justificativa formal; a interrupção, em 8 de outubro, do registro de visualizações de vídeos do presidente; o caso da Meta AI, assistente do WhatsApp, que gerava imagens para “Vote Flávio” enquanto bloqueava “Vote Lula”, e seguiu fazendo isso, mesmo depois de a empresa alegar ter corrigido o “erro de configuração”. A lista segue, mas fiquemos com esses exemplos. Para cada episódio, a mesma explicação: um “problema técnico”. Quando os “erros” apontam sempre na mesma direção, deixam de ser erros e passam a ser política.

A quarta assimetria, por fim, vem de fora. A interferência dos Estados Unidos de Trump no processo eleitoral brasileiro nada tem de velada. Do tarifaço vinculado expressamente ao julgamento de Jair Bolsonaro à recepção de Flávio no Salão Oval em plena pré-campanha, a Casa Branca tem agido como cabo eleitoral do bolsonarismo. Chegou-se a tal ponto que parlamentares democratas e independentes, como o senador Bernie Sanders, cobraram formalmente do Departamento de Estado o compromisso de respeitar o resultado das urnas. Trump saudou o desempenho de Flávio no primeiro turno como uma “grande vitória”, e a Polícia Federal abriu inquérito para apurar a interferência norte-americana. O imperialismo, que outrora se valia de embaixadas e quartéis, hoje combina tarifas, sanções e plataformas digitais.

O que tem conseguido restituir alguma condição de equilíbrio a essa disputa é a grande mobilização da sociedade civil. Já apontávamos que esta poderia ser a energia capaz de alterar o resultado e, felizmente, isso tem se confirmado. A grande força da campanha de Lula, hoje, vem de baixo: da auto-organização popular ou espontânea. Se no primeiro turno testemunhamos uma campanha petista repleta de problemas, que o próprio Lula classificou publicamente como a menos organizada de que participou desde 1989, não surpreende que, no segundo, a força para a virada brote à margem da cúpula da campanha. Isso tem se demonstrado nas multidões mobilizadas em atos pró-Lula nas capitais e em centenas de cidades pelo país, nos comitês de bairro ou de categorias, nas redes, nas ações de artistas, na mobilização da juventude, nas iniciativas criativas de vira-voto que se multiplicam sem esperar orientação de cima. É dessa força orgânica, que nenhum marqueteiro fabrica e nenhum algoritmo consegue inteiramente estrangular, que depende agora o desfecho.

Restam poucos dias – e eles serão decisivos. A distância que separou Flávio de Lula no primeiro turno, cerca de 2,2 milhões de votos, equivale a menos de um décimo dos mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas. A virada não virá dos gabinetes nem das pesquisas, virá das ruas, das portas de fábrica, das conversas pacientes com o vizinho indeciso, com a tia que hesita, com o colega que pensa em não votar. É esse trabalho miúdo, artesanal, quase invisível de conquista voto a voto que pode converter a assimetria das condições em vantagem nas urnas. Contra o dinheiro do capital, a toga parcial, o algoritmo opaco e a ingerência imperial, temos aquilo que a extrema direita jamais terá: a força de um povo que se organiza para defender a si mesmo. Venceremos!

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Revisão: Celia Bartone

TP: Clique aqui para ingressar no FURA BOLHA, um espaço democrático onde estão depositados vídeos de excelente qualidade, para serem encaminhados aos brasileiros que ainda têm alguma dúvida se devem votar contra a extrema direita.