Fama de maluco, sempre teve. Agora virou distinção. Ninguém costura no corredor como ele. Ziguezagueia sua 125 cilindradas com ousadia. Tomba moto pra um lado e corpo pro outro, para logo depois inverter os movimentos sem arriscar o bagageiro cheio de pizzas e refrigerantes.

Começa cedo. Pouca gente se dispõe a entregar de manhã porque o movimento é pequeno. Só uma ou outra padaria tem pedidos. Ganha-se pouco. Mas pra quem batalha que nem ele, qualquer grana é bem-vinda.

Até pouco tempo, o trampo era de bicicleta. Pedalava o dia todo pra ganhar uma mixaria mais mixa que a que ganha hoje. Como morava muito longe dos restaurantes, saía de madrugada, entregava enquanto houvesse entregas por fazer ou as pernas aguentassem. E aguentavam muito. Já tarde da noite, não valia à pena voltar pra casa. Dormia na rua mesmo. Com o pescoço acorrentado à bicicleta.

Conseguiu juntar dinheiro para comprar uma moto. Uns bicos como pedreiro, o empréstimo do cunhado e a venda da bicicleta ajudaram. Agora consegue voltar pra casa todos os dias. Na verdade, a casa é do cunhado. Dele mesmo, só a moto, o celular e a disposição.

Noutro dia lhe entregaram o pacote dizendo qual era o nome do prato. Coisa rara que ele encarou como alerta. Nunca tinha ouvido aquele nome. Pensou em perguntar o que era. Não deu tempo. Nunca dá tempo. O prato tinha nome de bosta, mas não cheirava mal. Mesmo assim ficou com medo de empestear o baú.

Contou pra um amigo sobre a encomenda. Repetiu o nome várias vezes, do jeito que lembrava. Até que o amigo cravou: escargô? Isso! Explicou que eram caracóis. Entendeu o risco. Se saíssem andando, ele é quem pagaria pela fuga. Não importa o que aconteça, a culpa e o prejuízo eram sempre dele.

Aprendeu isso ainda na bicicleta. Pra escapar de ser atropelado por um ônibus, bateu a roda num bueiro. Capotou aos rodopios. Ele pra um canto, bicicleta pro outro. Machucou feio.

Ligou pra avisar. Perguntaram se o lanche estava bem. Hambúrguer com fritas. Não estava. Não ganhou pela corrida. Descontaram o lanche. O mesmo valor de um dia de trabalho. Limpou o sangue da cara e mesmo com dor e roda empenada continuou. Pelo menos, comeu o hambúrguer frio e as batatas murchas que tinham se esparramado pelo asfalto.

Um pessoal lhe falou em greve. Que era pra todo mundo parar. Quem não parasse, era vacilão. No começo, quando o aplicativo era novidade, ganhava mais. Agora, com mais gente, o que pagam só diminui. Mesmo o trabalho sendo o mesmo.

Viu que a coisa era séria quando a notícia pipocou na tela do celular. Jornalista engravatado dizia que era um absurdo os entregadores pararem em plena pandemia, quando as pessoas mais precisavam deles.

Lembrou do escargô. E da gente que come escargô. O jornalista tinha cara de quem come escargô. Novo pedido. Saiu ziguezagueando, se sentindo maleável como um escargô, só que menos importante que hambúrguer frio e batatas murchas.