A doença enclausurou corpos, mas não os sonhos que os habitam. Larissa sonha muito. Aos suspiros. Sua mente voa alto e longe. No tempo e no espaço. Ainda mais quando está borocoxô. Perdida. Vazia. Solitária. Com tantas reviravoltas provocadas pela pandemia, anseia pela sua enquanto experimenta o tédio da mesmice.

Enche o tempo com o vazio da internet, saltando de imagem em imagem entre a expectativa do novo e a frustração de não haver nada de novo no meio de tanta novidade. Olha por olhar. Para dar trabalho aos olhos. Montoeira de imagens só pra tentar driblar o vazio.

Dá certo só por alguns instantes, quando encontra algo engraçado ou excitante. Mas dura pouco. Menos tempo que os músculos levam para armar o sorriso minguado que se sorri quando não se tem ninguém pra ver o sorriso.

Quando a distração acaba, volta o vazio. E os sonhos. Como a sucessão de imagens das telas, mas com sentimentos. Daqueles profundos e verdadeiros, que comandam o pensar por horas e horas. Larissa sonha com o passado.

Revive momentos bons. Deixando ainda melhores com muita fantasia. Com pessoas que conheceu, mas com toques, imagens e sensações que não aconteceram. Uma delas reapareceu instantaneamente quando surgiu, num bip, uma mensagem de Jorge.

Conheceu Jorge há muito tempo. Amaram-se por uma única noite. De forma tão intensa que nunca o esqueceu. Tornou-se lembrança boa. Recomeçou com uma conversa boba. Cheia de emoções fortes por dentro. Não sabia o porquê, mas reencontrar Jorge a deixou abalada.

Teve medo de se perder nas fantasias. De entregar-se por carência, solidão ou tédio. Precisava domar pensamentos e sentimentos. Achar uma certeza afetiva que lhe desse segurança.

Lembrou-se do cheiro de Jorge. Cheiro não é o mesmo que odor. Odor é o que se exala. Cheiro é o que se sente. Odor é o que é, nem bom nem mau. Ganha qualidade quando vira cheiro. Gostar do cheiro é gostar de quem se cheira.

Por muito tempo não sabia se ainda amava Carlos, até que percebeu que ele não cheirava bem. O odor era o mesmo. Mesmo corpo e perfumes. Mas sem o desejo, a mágica que transforma odor em cheiro bom não acontece. Foi quando percebeu que o desejo por Carlos virou repulsa. Os olhos nos enganam. O coração também. Mas o nariz não. Infalível na revelação dos sentimentos.

Larissa sentia falta de gente. Do calor de um corpo encostando no seu, de um olhar, um abraço… Mas o que mais lhe faltava era o cheiro. De desejo. De amor. Que dá segurança. Que faz saber o que sente e se sentir viva.

Lembrou com medo enorme que a perda do olfato era um dos efeitos da Covid-19. Seria como uma amputação. Como perder a capacidade de sentir carinho ou até mesmo a de ver a beleza em quem se ama.

Por precaução, continuou em casa. Sozinha. Acompanhada da lembrança boa do cheiro de Jorge e do desejo de, um dia, voltar a sentir algo de verdade.