O médico repetiu o que já lhe havia dito pela manhã. O que ele já sabia desde o primeiro dia de UTI. Ouviu sem nada dizer, mais pela dificuldade de falar que por educação. Os terríveis e decisivos três dias. Passado o terceiro, vem a cura ou uma piora que geralmente acaba em morte. Manuel estava no terceiro dia.

Tentou encher os pulmões com dificuldade. Pensou que aquele poderia ser seu último suspiro. Irritou-se com a ideia de que morreria ali, daquele jeito, atormentado pelo bip infernal que avisava aos que lá trabalhavam que seu coração ainda batia. No começo, pensou que se acostumaria com aquele barulho. Não se acostumou.

Tampouco costumou-se com o vai e vem de gente que lhe cutuca daqui, medica dali. Tomava a aparente frieza do trato como um tipo de carinho. Cuidado entre a preocupação profissional com a vida que se está a cuidar e a possibilidade de sofrer pela perda de quem se cuida.

Dizem que no instante da morte a vida nos passa como em um filme. Manuel tinha mais do que um instante. Dava para avaliar com calma. Momento por momento. Para saber se a vida valeu à pena. Volta e meia, Manuel fazia isso, mas o momento nunca parecia adequado.

Antes do último suspiro, há vida vivida, mas também vida por viver. Como julgar se além das alegrias e tristezas vividas ainda há outras por viver? Não se pode julgá-la pelos instantes, cada um com suas sensações e intensidades. A vida não é uma soma de momentos vividos, mas um todo. Vida é singular. Repleta de momentos altos e baixos. Como uma montanha-russa de alegrias e tristezas, que se avalia se valeu à pena pelo passeio e não por uma ou outra ladeira.

Agora é diferente. Pode ser que Manuel não passe desta noite. Talvez, nem mesmo deste suspiro.

Pensou nos momentos tristes e nas besteiras que fez. Alguns serviram como aprendizado. Outros só o deixaram mais triste e envergonhado mesmo. Teve também momentos felizes. Menos abundantes. Porém, intensos. Daqueles em que a vida realmente pareceu ter gosto de vida. Difícil comparar momentos tristes e felizes. Estão mais para moedas diferentes do que faces opostas de uma mesma moeda.

Lembrou-se de como gente indiferente à vida alheia politizou a pandemia em grotescas frases e performances. Isso, que o irritava tanto, agora não passa de uma lembrança do quanto a humanidade pode ser egoísta e patética.

Ofegante entre engenhocas e bips, percebeu que a solidão era o que mais lhe incomodava. Falta de pessoas amadas e do próprio amor.

Talvez estivesse aí a medida da vida: o amor. Que se dá e recebe. De que se lembra e conforta mesmo quando se está diante da morte. Pensar no amor o acalmou. Tentou respirar fundo mais uma vez e adormeceu. Feliz pelos amores que deu e recebeu. Triste pelos que amam só a si mesmos. E sem saber se lhe haverá um amanhã para amar.