
Doutor, o que eu faço? Perguntou Marília, cansada e melancólica, para o médico que a olhava com ar indefinido. Talvez por sono. Ou não soubesse o que dizer. Teria ouvido? Sem resposta, voltou-se para o paciente. Pálido, de lábios azulados e corpo frio.
Marília sabia a resposta. Mesmo assim, queria ouvir algo diferente. Só pela esperança de ouvir algo esperançoso da boca do médico. Mas não havia o que dizer. Não havia o que fazer.
Pensou que morrer no susto, como quem toma um tiro que sequer sabe de onde veio, seria melhor do que aquela morte. Lenta. Consciente. Em que se experimenta o fim da vida a cada inspiração insuficiente. Talvez, se tivesse uma arma, lhe desse um tiro. Besteira! Disse com lábios desobedientes. Alto o suficiente para ser ouvido. Baixo o suficiente para parecer um gemido. Insuficiente para lhe afastar pensamentos tristes.
Segurou-lhe a mão fria. Era o que restava fazer. Desconhecidos, só tinham um ao outro naquele momento. Solitários com suas tristezas. Ele, sem os que ama. Ela, sem poder dividir aquele e outros momentos ruins com quem ama. Todos surdos ao que diz.
Como que enfeitiçados, dizem que a realidade dela não existe. Que aqueles mortos, cujo último toque humano que sentem é o da sua mão, são uma fantasia. Invenções de médicos conspiradores.
São pessoas que a amam. Mas que acreditam que a melhor forma de demonstrar-lhe amor é desacreditando seus sentimentos quando não acreditam nas causas de seu sofrimento. Amor de carinho seletivo, a depender da narrativa que dá forma às aflições de quem se ama.
Os sons irritantes dos aparelhos em volta anunciaram o esperado. Condicionada a deixar de lado os sentimentos diante das necessidades, seu rosto recuperou num instante o ar profissional. Era preciso registrar a morte. Providenciar a retirada do corpo. Preparar para a vinda de outra mão fria.
Enquanto desconectava os aparelhos, sentiu um toque frio e leve no braço. Olhou para trás maquinalmente. Sentiu o coração tentando lhe escapar pela boca quando viu o paciente ali, em pé, sorridente a lhe tocar o braço.
Ficou sem reação. Petrificada. Obrigado! Disse o morto, sem desfazer o sorriso. Olhou rápido para a cama e lá estava o corpo. Inerte como deveria estar. Virou-se novamente. Não havia ninguém. Foi-se.
Acordou assustada e suada. Perdida entre o pesadelo que parecia realidade e a realidade que lhe parecia tão estranha quanto um pesadelo. Ainda eram quatro da manhã.
Não conseguiu mais dormir. Pensou e repensou nos pacientes, nas mortes, nos amores. Na realidade e na fantasia. No cansaço e no sono perdido. Tomou café mais cedo. Ouviu calada a palestra do pai que explicava, entre uma torrada e outra, o quanto a população era enganada.
Tomou um ônibus lotado de pessoas com queixos mascarados e falantes bocas desmascaradas.
Começou o turno já cansada e melancólica. Logo no primeiro leito, o susto. Um paciente como o do pesadelo. Agonizante como no pesadelo. Como quem espera um fantasma, assustou-se com alguém ao seu lado. Doutor, o que eu faço? Perguntou para o médico que a olhava com ar indefinido.
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