Crédito: Fabiano Rocha/Divulgação

Estava no chão. Perdido entre a realidade e o pesadelo. Sem saber se acordou porque caiu ou se caiu porque acordou. Ainda entre o sono e a vigília, tentava dar conta de onde estava. Ao se levantar, escorregou a mão num líquido viscoso. Acordou de vez quando viu que era sangue.

Os tiros e explosões estavam mais próximos. Era melhor continuar no chão. Sentiu a perna. O sangue vinha dali. Um tiro esburacou a parede sem reboco e o fez, instintivamente, colocar as mãos sobre a cabeça, como se pudesse fazer delas um capacete.

Mexeu a perna para saber se o ferimento era grave. Não era. Tiro de raspão, pensou aliviado. Ouviu os passos de alguém que corria. “Para, vagabundo!”. Mais tiros e silêncio. “Ali, ali. Entrou ali. Vai!” Pelo barulho de pontapés em porta de ferro, concluiu que estavam entrando na casa de Amélia, sua vizinha. Viúva e cozinheira das boas.

Gritos e mais tiros. Muitos tiros. Deviam vir de dentro da casa dela. Novo silêncio. “Vamos, vamos!”. Tiros mais distantes. Tentou se levantar. Hesitou quando a dor aumentou. Insistiu. Estava preocupado com Amélia. Sentou-se na cama. O rasgo na perna doeu mais quando o viu.

Dava para andar. Com dor, mas dava. Enrolou uma camisa velha na ferida para parar a sangria e colocou uma calça comprida. Na sua favela, preto sangrando em tiroteio, para a polícia, é bandido.

Abriu a porta com cuidado. Os tiros estavam mais distantes, mas poderia ter alguém na viela. Policial ou traficante, não importa, armados e cheios da excitação do tiroteio, atiram do mesmo jeito no que os assusta. Saiu devagar.

Amélia estava sentada no canto da sala agarrada aos dois filhos pequenos, que choravam muito. Tinha o olhar arregalado e fixo na parede, como se um demônio pudesse sair de lá a qualquer momento. Perguntou se estava tudo bem. Ela apenas balbuciava alguma coisa. Chegou mais perto. Ela repetia uma mesma frase do Pai Nosso.

Olhou em volta e viu o sangue saindo do quarto. Tinha um garoto morto entre a porta e a cama. Não sabia quem era. Com muita dificuldade e delicadeza, levou Amélia e seus filhos para sua casa. O tiroteio parou.

Viu as notícias na internet. 25 mortos. Um policial. Os outros, bandidos. Porque quando se morre de tiro em favela, é bandido. Viu o de sempre. Gente de longe aplaudindo a chacina. Uns lamentando o número. “Morreu foi pouco”. Outros, contemporizando. Delegado dizendo que era operação inteligente para proteger crianças. Os filhos de Dona Amélia continuavam chorando.

Recebeu os policiais que foram pegar o corpo. Arrastaram para fora com indiferença e o colocaram em cima do lençol que tiraram da cama de Amélia. Um deles o encarou, peito estufado e queixo levantado. A mão sobre a coronha da pistola. Perguntou com voz firme: “E você? Quem é você?”.

– Ninguém. Eu não sou ninguém. Não sou nada. – Disse com medo de que percebesse o sangue em sua perna.

O policial ficou parado alguns segundos olhando para aquela figura preta e cabisbaixa que lhe parecia patética. Fez-lhe cara de nojo. Ao sair, bateu-lhe com o ombro e murmurou: “Filho da puta…”

Ele sabia o que aquele ódio significava. Um policial morreu. Teria volta.

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