
Um dia, todo mundo estará imune porque vacinado. E não haverá mais medo de abraçar quem se ama. Nem de beijar na boca de quem se conhece pouco para conhecer mais. E não se terá mais aquele desjeito de não saber como cumprimentar quando se quer ser educado ou precise demonstrar felicidade pelo encontro.
Um dia, as pessoas vão se olhar umas para as outras com os olhos e não com as telas. E serão capazes de dizer, olhando nos olhos, coisas que vamos saber verdadeiras, por vermos sentimentos. E sentiremos a presença verdadeira de gente verdadeira porque sente. E aquelas, cujos sentimentos, pensamentos e ações não se harmonizam, não nos incomodarão, porque sentir pessoas de verdade nos darão a certeza de que nós mesmos não somos de mentira.
Um dia, as pessoas saberão o que sentem e querem porque terão um amigo que lhes ouça sem julgamento. E neste dia, ninguém mais se sentirá sozinho ou escravo dos próprios sentimentos. E neste dia, uma paz estranha, porque nunca antes sentida, desenhará sorrisos bobos nas caras de todo mundo.
Um dia, nas discussões de ideias, as pessoas serão capazes de discutir apenas as ideias. E não a julgarão se boa ou má pelo quanto se gosta ou desgosta de quem a teve. E, neste dia, julgarão sem vaidades ou invejas porque entenderão que uma ideia não é boa ou má pelo quanto ela vai beneficiar quem pensa nela, mas pelo quanto vai beneficiar os outros. E a ideia continuará boa mesmo que tenha que se sacrificar por ela, porque neste dia se terá entendido que o bem se faz com sacrifício pelo outro e não com o sacrifício do outro.
Um dia, as pessoas entenderão que política é entendimento e não vitória sobre quem pensa ou seja diferente. E neste dia, ninguém mais ameaçará quem pensa diferente porque saberá que o futuro é para ser vivido junto e não só por quem pensa que nem a gente pensa. E neste dia, nos encontros amorosos, familiares e amigos falarão sobre seus medos e esperanças e, mesmo tendo medos e esperanças diferentes, continuarão unidos pelo seu amor.
Um dia, as pessoas perceberão que o sagrado não se compra e nem se vende. E neste dia não o buscarão para ter alguma coisa, mas para ser alguém melhor. E neste dia, terão entendido que o sagrado não está na igreja, templo ou terreiro, mas no amor e na comunhão, e que todo lugar onde haja amor é sagrado.
Um dia, as pessoas perceberão que o que as torna iguais não são suas ideias ou a maneira como vivem, mas o fato de serem todos capazes de pensar e de sentir. E, neste dia, teremos uns pelos outros a compaixão de quem percebe que o outro sente e sofre da mesma maneira como cada um de nós é capaz de sentir ou sofrer.
Um dia, cada um de nós se olhará no espelho. E terá vergonha ou orgulho do que verá nele. E depois – e só depois – as pessoas farão este dia chegar.
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