Jorge está recluso em casa. Foi cuidadoso. Usou máscara. Não aglomerou-se. Hoje, tem medo. Não de adoecer, mas de que sua quarentena acabe.

O fim do home office lhe dá calafrios. Sente falta de gente. De conversas, encontros e amizades. Jorge não é antissocial. O problema é o oposto. Ele é social. É respeitoso, solidário e honesto. Sempre foi. E sempre foi tido como esquisito por ser honesto demais. Terrivelmente honesto! De uma honestidade perigosa.

Há um ano, descobriu uma fraude na empresa. Coisa de uns cem mil. Muito para quem não ganha muito. Quase nada para quem lucra bilhões. Denunciou os colegas. Foram demitidos. Processados. Presos. O Ci I Ôu, pessoalmente, o agradeceu. Até então, só o tinha visto por foto. Depois do rápido obrigado e parabéns, voltou a vê-lo apenas por fotos.

Continuou vendo os colegas ao vivo. Infelizmente. Passaram a fazer caras feias. Afastaram-se. Jorge tornou-se odiado. Alcagueta. Dedo-duro. X-9. Traidor. Ficou sem clima. Por sorte, veio a pandemia e o home office.

Jorge não é trouxa. Sabe que a empresa não é honesta. Suborna, frauda, mente e engana. Para os de fora dela, fala de ética e responsabilidade. Para os de dentro, lucro. Custe quem custar.

Mesmo em casa, Jorge descobriu um grande esquema de corrupção na empresa. O mesmo de sempre. Grana tirada do Estado e dividida entre gente poderosa. Denunciou.

Os promotores, no começo, não acreditaram nele. As provas estavam ali, Jorge não precisava dizer nada, só mostrar papéis. Mesmo assim, queriam saber por que ele estava ali. Geralmente, alguém ressentido ou burro deixava vazar uma pista. Investigavam, descobriam um pouco e, por medo, alguém barganhava e entregava o esquema. Mas assim, do nada, sem ressentimento ou por estupidez, só por honestidade mesmo, era a primeira vez que viam.

Disseram que ninguém saberia que Jorge é quem havia denunciado o esquema. Todos ficaram sabendo. Quase todos fingiram que não sabiam. Não foi mandado embora, para não dar na pinta, mas também não lhe davam qualquer tarefa. Parecia de férias.

Por respeito sanitário, já saía pouco. Fechou-se definitivamente em casa quando percebeu que era seguido por uns sujeitos mal encarados. Conhecia de vista um deles. Era o chefe da segurança pessoal do Ci I Ôu. Um ex-policial. Uns diziam que foi expulso da polícia por matar muito. Outros, porque matou quem não devia. Enquanto eliminava só gente ferrada, ninguém ligava. Era aplaudido e ganhava medalha. Mas matou um sujeito importante e se deu mal. Todo mundo sabia o porquê de um sujeito assim trabalhar para um sujeito que nem o Ci I Ôu.

Descobriu pela internet que em pouco tempo o Ci I Ôu fez um acordo com o Ministério Público. Não seria preso. A empresa devolveria uma grana e ele entregaria alguns políticos. Os promotores viraram heróis. O Ci I Ôu foi afastado da empresa depois de receber um bônus milionário. Ninguém deu nem um telefonema para lhe avisar isso.

Jorge continua preso em casa. Sozinho. Vigiado. Odiado pelos colegas. Acuado. Não sabe quando sua quarentena chegará ao fim. E nem que fim terá. Enquanto espera, entre o tédio e a angústia, pensa em si mesmo como um animal em extinção, preso em uma jaula de zoológico e sem um habitat para o qual possa voltar.

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