Crônica sobre solidão

Ilustração: Mihai Cauli

Das experiências de solidão, a mais solitária é a que acontece em meio à multidão. Na impossibilidade de ter um alguém com quem compartilhar, contenta-se com a fantasia. Mas na multidão, a cada novo rosto a esperança é atiçada e a fantasia perturbada, só para depois frustrar-se na falta de atenção ou, ao menos, um olhar condescendente. Antenor até tenta, mas não adianta. Está só. Absolutamente só.

Não é de todo feio. Nem chato. Nem desprezível. Doce e amável, preocupa-se em não ofender ou magoar. Daqueles que, se lembrado fosse, alguém dele diria: gente boa! Mas Antenor não é lembrado. Nem ao menos percebido. Como se não existisse.

Não quer um amor. Não daqueles em que se ama e é amado com desejo. O amor que tem pela humanidade já lhe basta. Quer exercer seu amor. Não precisa ser amado, mas precisa ser percebido. E ninguém o percebe.

Não entende o porquê. Vê gente desprezível, que engana, ofende e abusa com milhares, até milhões de seguidores. Propagam ódios, mentiras e dissimulações que são consumidas como o doce o é por formigas. Empobrecem, adoecem e matam gente que os aplaude com a indiferença de quem esmaga formigas.

Talvez o problema não seja com ele, mas com os outros. Antenor tem ideias e fala delas ao vento. Mas ninguém quer saber de ideias. Passionais que são, as pessoas apenas simpatizam ou antipatizam. Ao simpatizarem, acredita-se em qualquer coisa. Asneira ou verdade, não importa. Na antipatia, vaiam, cancelam e ofendem com igual indiferença aos fatos e consequências. Tomam ideias por coisas chatas, inúteis e perigosas até!

Antenor vê crimes aos montes. Na esperança de alguém impedi-los, fala deles pelo nome que eles têm. Assassinato, genocídio, corrupção. Ninguém escuta. Ninguém faz nada. Ninguém liga. Não importam os mortos. Nem quando é gente querida. Não importam as evidências mais evidentes. Nada, por mais grave, absurdo ou mortal que pareça, faz com que cada um deixe de lado as paixões de sempre.

Há autoridades onde Antenor vive. Muitas. Mas estão preocupadas com coisas mais importantes que a vida dos outros. Coisas pessoais. Coisas vaidosas. Coisas poderosas. Jogam um jogo só deles. Com vantagens só para eles. Mesmo quando perdem, têm vantagens. Para os que não jogam o jogo, sobram as desvantagens. Sempre às sobras. De dinheiro, comida e dignidade.

Talvez ele seja louco. De uma loucura que os sãos, por estarem longe dela, não entendem. Os que não são loucos, os normais, bons e de bom senso, andam fantasiados, debocham, ofendem, ameaçam e magoam. Dão vexames por burrice, vaidade ou ambição. Inventam as mentiras mais estapafúrdias e também as mais sórdidas.

Às vezes ele pensa em se tratar. Talvez se internando em um destes hospitais que mais parecem shopping center e que matam gente que não se encaixa nos resultados que querem. Livres do respeito, da compaixão e da moralidade, certamente conseguirão curar Antenor desta sua incômoda humanidade.

Enquanto a cura não vem, Antenor se juntará a outros solitários nas ruas. Andará e gritará aos céus o que ouvidos sãos não escutam. Na esperança de que a realidade, régua da loucura e da sanidade, faça Antenor se sentir menos só no seu apreço pela dignidade humana.

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