O vazio da redes sociais

Ilustração: Mihai Cauli

O pior entristecimento não é aquele que nos arrasa de uma vez, como lança que perfura as entranhas numa rápida estocada, mas aquele que vem do sofrimento arrastado, das pequenas mas constantes dores, como agulhadas insistentes.

Quando a tristeza é das grandes, aceitamos. Quando são pequenas, ignoramos. Sem identificar uma causa evidente, os outros entendem nosso abatimento como fraqueza, frescura ou vício. Por isso ninguém acolhia Marco em seu sofrimento. Sequer percebia. Marco estava sozinho.

Tinha dinheiro, era bonito e respeitável. Até algum sucesso! Nada como a infernal vida dos famosos, assediados ao ponto de lhes roubarem a solidão. Mas o suficiente para atrair olhares invejosos. Na medida certa para inflar egos de satisfação.

Também não lhe faltava saúde, exceto a mental. Porque mesmo com tudo bem, não estava bem. Entristecido de tristeza insistente. Resistente às pequenas e grandes alegrias. Quase contagiante. Só podia estar doido, pensavam alguns.

Não foi sempre assim. Era sonhador, charmoso, empolgado e empolgante. Cuca fresca. Otimista daqueles que acreditam que com boa vontade e esforço vencem montanhas como se fossem pequenos morros.

Não saberia dizer quando entristeceu-se. Deu-se aos poucos, num gotejar de tristezas ignoradas até o transbordamento. Tentou remediar-se. Com prazeres, remédios e até amores. Mas os prazeres, vazios, entristeciam ainda mais depois do gozo. Os remédios, mal aliviavam, e ainda por cima perturbavam sentimentos e ideias que, até então, pareciam funcionar bem. E os amores, insossos, perderam o gosto de amor.

Desesperado, desiludido e desamparado, decidiu-se a acabar com tudo. Organizou-se para isso.

Começou pelas despedidas. De grupo em grupo de WhatsApp. Inclusive daqueles em que foi colocado contra sua vontade e, uma vez lá, tinha vergonha de sair. Que pensariam dele? Agora, já não importava. Nada mais importava. Saiu de alguns sem dizer adeus. De outros, fez questão de despedir-se. Com raiva, tristeza e certo alívio.

Depois, encerrou as redes. Esgoto de rancores, venenos e mentiras. Não sem antes postar o último textão. A última foto maquiada e editada com sorriso falso e frase roubada de alguma inteligência mais inteligente que a sua. A última tuitada com frase de efeito em resposta a um hater qualquer.

Encheu-se de tudo que antes o distraía e agora só lhe enchia. Encheu-se do vazio das redes. Do mesmo vazio que sentia dentro de si mesmo. Um vazio infinito. Que doía da boca do estômago até quase à boca da cara. E apertava o peito como se alguma coisa grande pesasse sobre.

Varou a noite mergulhado em todo ódio, tristeza, burrice e rancores que encontrou. Refestelou-se em pornografias e baixezas morais aviltantes, daquelas em que gente odiosa inferniza a vida de alguém inocente para alienar-se de sua própria baixeza.

Aos últimos instantes do silêncio da madrugada, pegou o revólver na cabeceira. Sem hesitar, disparou. Ao estampido seco, outros dois se seguiram. Com três tiros no celular calou de vez todas as redes. @Marco estava morto.

Marco ressuscitou. Respirou fundo sentindo os perfumes da manhã. Abriu a porta e deu de cara com um sol radiante, que enfrentou com um sorriso que há tempos não lhe estampava a cara. Saiu para a rua despreocupado com mensagens e notificações não lidas. De braços abertos, como quem vai ao encontro de um grande amor.

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