
Papai, por que as pessoas que são velhas, morrem? A pergunta do filho o pegou de surpresa. Assim, do nada. No meio do café. Demorou mais do que o normal para responder. Como falar de morte com uma criança? Suspirou para ganhar tempo enquanto pensava. O filho, com a ansiedade dos cinco anos, cobrava uma resposta.
– A gente nasce fraco, como bebê. Depois cresce, cresce e vai ficando cada vez mais forte, até virar um adulto. Depois, começa a ficar velhinho e vai ficando fraco, fraco, fraco… Até que fica tão fraquinho que morre. Gente morre porque fica fraquinha.
O filho ficou pensativo. Depois mudou de assunto e não falou mais nisso. Passou. Para Moisés, a pergunta ficou. Na cabeça e no coração. Remoeu o medo de morrer. Não lhe assustava o fim da própria vida, já vivida o suficiente para não esperar mais que a vida de sempre até o fim da vida.
Teve alegrias e sofrimentos. Nada lhe veio com facilidade. Teve de lutar contra a violência quando pequeno. Adulto, luta por sobrevivência e respeito. Mais por sobrevivência que por respeito. É preto e pobre. E nem é daqui. Se bem que preto e pobre, nunca é daqui. Nem de lugar nenhum. É sempre alguém errado por estar. Por existir. Por falar. Por olhar.
Por isso, o respeito. Pela falta que ele faz. Pela dor de ser olhado por caras de nojo. Por ser tratado como subumano. Precisou se submeter a muita coisa para garantir a sobrevivência, porque preto só tem trabalho se for dócil. Ou vira bandido. Bicho solto. E ganha respeito pelo medo.
Para gente que nem ele, respeito precisa ser conquistado. Não lhe é dado. Sem respeito, enfraquece a alma. Também o corpo, que adoece. Que enfraquece até ficar fraquinho. E vive morrendo de raiva para não morrer de fome. Até que morre de tudo.
Não fosse pelo filho, Moisés não aguentaria tanto. Vive por ele. Para ele. Precisa viver para que ele viva. Daí seu medo. De faltar ao filho. Também de faltar respeito ao filho. Medo de que não consiga dar-lhe uma vida melhor que a dele.
Foi por sobrevivência e respeito que Moisés, naquela tarde, foi cobrar do patrão pelos dias em que trabalhou e não recebeu. Engoliu a indignidade dos gritos e as piadas com preto. Que eram só brincadeira, dizia o sujeito que o chamava de macaco. Trabalhou duro o trabalho braçal dos pretos e foi até tarde da noite. Ausentou-se do filho e voltou para casa sem o dinheiro da sobrevivência e enfraquecido de desrespeito. Agora, queria ao menos o dinheiro acordado.
Foi recebido com a cara feia que se faz para os pretos que pedem respeito. Deixam de ser dóceis. Viram perigosos. Abusados. Petulantes. Cometeu o crime de agir como se fosse igual ao patrão e tomou um soco. E outro. E outro. E chute. Pancada de três. Pancada com taco de madeira. Daqueles que americano usa para bater em bola e, às vezes, em gente. Aqui, só serve para bater em gente mesmo.
A tentativa de socorro foi feita por quem só passava por lá. E o viu, caído e ensanguentado, como gente caída e ensanguentada. Repetida e ritmadamente, apertou-lhe o coração apertado de tristeza para senti-lo batendo novamente. Fraquinho, o coração parou.
Mais tarde, em casa, a tia hesitava em contar ao menino. Como explicar a uma criança a morte do pai tão novo? Como seu coração desconsolado poderia revelar a um coração tão pequeno a miséria e a crueldade deste mundo? Na televisão, uma moça branca falava das belas praias e de como a gente sorridente e gentil daqui recebe bem os estrangeiros.
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Ilustração: Mihai Cauli
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