O aperto da gravata sempre foi um incômodo, mas Bruno não afrouxa. Não se permite ceder um milímetro de desalinho em nada de si. Movimentos e palavras são calculados numa rigorosa disciplina de contenção dos impulsos. Não se irrita. Não levanta a voz.

Naquele dia, o incômodo era maior que o de costume. Engordara mais um pouco e a camisa parecia encolhida, principalmente no pescoço, onde o colarinho estrangulava as gorduras, retendo uma discreta papada. Como o aperto era tão maior quanto mais levantasse a cabeça, passou o dia cabisbaixo, aparentando melancolia. Mesmo assim, não afrouxava o pescoço.

Reprimiu-se o dia todo. Às 17 horas estava agoniado pelo fim do dia. Fechou-se em sua sala e cedeu. A gravata frouxa sobre o colarinho desabotoado em pleno escritório lhe deu uma sensação excitante. Pensou em Hobin Hood e Zorro. Heróis transgressores e leves, quase bailarinos, saltitantes em lutas contra as injustiças. Do sonho acordado, acabou cochilando.

Foi acordado por um colega sorridente. Só os dois ainda estavam no escritório. Levantou-se rápido e sem elegância. Suado. Descomposto. Olhou o amigo envergonhado. Como não havia como remediar a vergonha, assumiu. Afrouxou mais ainda a gravata e foi para um bar.

Pediu uma bebida. Drink forte que nunca havia tomado, mas que achava o nome bacana. Desceu queimando. Pediu outro. Desceu melhor. Mais um. E mais. Mais. Tirou a gravata e a enfiou no copo vazio.

Começou a falar sozinho. Alto, sem se dar conta. Um bêbado respondeu. Virou diálogo. Depois discurso. Tirou a camisa. Subiu na mesa. Caiu. Insistiu. De braços gesticulantes falava de como eram todos escravos. Do sistema. Dos políticos. Dos dominantes. Dos comunistas. Dos judeus. Dos pretos mimizentos. Das feminazis, que não depilam as axilas…

Foi aplaudido e vaiado. Um sujeito não gostou. Olhou feio e mandou calar a boca. Não era preto e nem mulher, então só podia ser judeu ou comunista, pensou. Espatifou-lhe uma garrafa na cabeça enquanto gritava, de braço estendido e mão espalmada, “morteeee!!!!”.

Pulou com inesperada habilidade para cima do sujeito ensanguentado, diante do bar que assistia entre o espanto, a letargia e a graça. Pegou um caco de vidro para lhe “tatuar” na testa a estrela de Davi. Não deu. Foi chutado por outro. E outro. Agarrado e jogado para fora. Enquanto discutiam se chamavam ou não a polícia, fugiu.

Abrigou-se em outro bar. Mais sujo. Mais feio. Fez cara de nojo para as pessoas, que lhe retribuíram. “Me bateram porque eu digo o que penso. Não querem saber o que penso. Não querem minha liberdade. Vocês são todos uns merdas!” Apanhou de novo. Fugiu de novo. Sem a camisa. Sem um sapato. Sem carteira.

Viu de longe, em uma pizzaria, a estagiária. Jovem demais para ele. Bonita demais para ele. Chegou perto, por trás. Agarrou-lhe pelos cabelos. Puxou com violência e beijou-lhe a boca retorcida de dor e nojo…

Foi acordado por um colega sorridente. Escritório ainda cheio. Faltavam 30 minutos para o fim do expediente. Levantou-se assustado. Suado. Descomposto. Gravata frouxa. Camisa e sapatos onde deveriam estar. Boca pastosa de sono. Olhou o amigo envergonhado. Ajeitou-se. Abotoou o colarinho, apertou a gravata. “Judeu comunista…” disse baixinho quando viu a estagiária, sorridente, conversando com o cara do TI.

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Ilustração: Mihai Cauli

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