A miséria que se contenta com restos de carne

No restaurante chique, engravatados conversam. Cada um fala de si mesmo com placidez. O almoço é servido. Pinçando o garfo de prata com a ponta dos dedos, um deles levanta a carne nobre com alguma displicência. “Não está mal passado. Eu pedi mal passado”, diz com ar de enfado. O diligente garçom leva o prato com gestos delicados e olhar indiferente. “Essa gente não faz nada direito”, lamenta o engravatado ao lado. “Leve o meu também e faça outro. Quando o dele vier, o meu já estará frio! Quanta incompetência! Por isso é que nós somos quem somos e eles são quem são”, conclui com lamentação pedante.

Na casa de Geraldo é dia de festa. Aniversário de dez anos da filha. Acordou mais cedo a semana inteira e foi a pé para o trabalho. Economizou o suficiente para comprar um quilo de músculo para o ensopado. Ele mesmo fez, tentando imitar o que sua mãe fazia. Não conseguiu. Ficou bom, mas o gosto de infância é inimitável. Pelo menos, a filha gostou. A vendo comer com vontade, Geraldo pensou, entre o passado e o futuro, no amor e na carne que sua mãe fazia quase todo dia e na sua filha, que não sabe se, quando for adulta, lembrará dele quando comer carne ensopada.

No mercado em bairro de gente remediada, dois pretos foram pegos tentando surrupiar um quilo e meio de picanha. Passaram as horas seguintes sendo espancados por diligentes seguranças. Um indignado gerente comandava os suplícios mandando bater mais aqui e ali. “Quando leva picanha é safadeza, não é fome. Quem tá com fome, leva qualquer carne. Esses aí nem devem saber o gosto que picanha tem. São safados mesmo!”. Concluiu que a surra protocolar seria pouco. Os traficantes da região, que o mercado presenteia com carne para evitar problemas, cuidaram da punição. Os corpos foram encontrados no dia seguinte, com suas carnes furadas.

Enquanto uns choram, outros vendem lenços. Foi no que pensou o dono do mercado vendo gente faminta em volta. Embalou, pesou e pôs preço nos restos de carne que não vendia habitualmente. Subalimento, dizia a etiqueta. Pegou mal. Virou notícia. Gente que não compra lá protestou nas redes sociais, sendo curtidos por muita gente que também não compra lá e diz que não comprará lá. Autoridades ameaçaram multar, burocratizar, aporrinhar. Porque apesar de também não comprarem lá, não gostam de ser incomodadas por coisas que acontecem lá. Defendeu-se. Desculpou-se. Não resolveu. Teve que desistir. Proibido de vender, resolveu queimar. Algumas pessoas reviraram inutilmente as cinzas malcheirosas em busca da sobra de alguma carne.

Sentaram-se à mesa de sempre e pediram o habitual. Javali ao molho de maracujá para o Deputado, tournedos au poivre vert para o Ministro e steak tartare para o Empresário. Acompanhado do vinho habitual das sextas-feiras. “Que horror mais este escândalo, meu amigo, e com tanta gente passando fome!” Provocou o empresário, antes do licor de pera. “É a imprensa, você sabe como é, exageram. Pegam no nosso pé”, disse o Ministro com ar de chateação. O Deputado inclinou o corpo para a frente com olhar maroto como quem revelaria um segredo, provocando nos demais o mesmo movimento. “Mas cá entre nós, a carne é fraca!…” E os três explodiram numa gostosa gargalhada.

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