Chove. Sem parar. Muito. Começou gotejando. Depois esfriou. Escureceu o dia. Trovejou. No começo, frustração da volta para casa. Vai ter trânsito. Vou me molhar. Tô com fome. Vou perder a novela. Virou medo. Está enchendo. Olha lá! Carros parecem barquinhos de papel. Soltos. Cambaleantes. Rios marrons levam e trazem coisas pesadas e gente. Meu Deus!

Chove. Tem um troço boiando ali! Onde? Passou. A água levou. Era gente? Não sei. Acho que era. Era sim. A água levou. Eu vi. Eu vi! Que horas são? Maria. Maria? Maria! Alô! Seu celular funciona? Como é que eu saio daqui? Mas era gente mesmo?

Chove. O barranco desceu. A casa sumiu. A parede caiu. Não tinha um muro ali? Cadê João? Ele tava ali! Você o viu saindo? E a bebê? Ouviu? É ela? Ainda está lá dentro? Gente! Gente! Aqui! É um gato. Acho que é um gato. Não. É a neném. Não ouço mais nada.

Chove. Diminuiu. A casa não se vê. Perdi tudo. Perdi a geladeira. Vim com a roupa do corpo. Amanhã, não sei o que vai ser da minha vida. Minha vida acabou. O importante é estar vivo. Cadê o vovô? Sabe dele? Perdi os documentos. Estou com frio. Estou com sede. Estou com fome. Não estou aguentando. Não vou aguentar. Precisa ter fé. Não tenho mais nada. Aumentou de novo. Não vai ter fim.

Chove. Choro. Chora o céu. Choro por dentro. Molhou a alma. Tem lama pra todo lado. Tem água pra todo lado. Acabou a água. Tem leite? Estragou tudo. Água está suja. A roupa está suja. A camisa era branca. A calça era nova. A geladeira era a prestação. Tem comida? Divide com ele. Toma. É o que eu tenho.

Chove. Menos. Rio voltando a ser rua. Menos água. Mais lama. Bombeiro cansado. Sirene. Helicóptero. Barulho de pressa. Muito trabalho ainda. Gente cuidando de gente. Gente morta. Gente machucada. Gente triste. Gente perdida. Gente louca. Gente boba. Gente bêbada no bar sorri, tristemente. Joga mais água. Limpa o suor. Traz o rodo. Pano não adianta. Leva para fora. Tira isso daí de cima. Joga fora. Está tudo sujo.

Chove. Quase não chove. Para que guarda-chuva? Gente de longe, lamenta. Recolhe comida, cobertor, roupas, colchões. Gente que quer ajudar. Entraram na casa do Pedro. Levaram o que a chuva não levou. Tem um corpo molhado ali. Mas morreu de tiro. Alimento não perecível. Enlatados. Leite em pó. O site é falso. Roubaram as doações. Doe dinheiro. Para ajudar. Para salvar. Manda o PIX. Cadê o dinheiro?

Chove. E agora? Tem recurso? Tem verba? Falou com o governador? O que ele disse? Ajudar quando? Assim não adianta! Tem gente desabrigada agora! Isso é o de menos. Qual a prioridade? Como assim? Por que não pode? Licitar? Então me prende, que eu quero ver! Eleição está longe ainda. Até lá já secou. Esquecem. Não é problema meu.

Chove. O discurso foi bonito. Petrópolis fica onde mesmo? Tem quantos eleitores lá? Saiu no jornal? Colunista babaca! Quero pra ontem. Se vira! Tem que ter foto. Cento e quantos? Isso tudo? Não sabia. Alguém importante? Vai dar merda. É muito mimimi. Vão encher o saco. Cadê meu guarda-chuva? Droga! Molhei meus sapatos novos…

Chove. Desmata-se faz tempo. Ocupa-se faz tempo. Descuida-se faz tempo. Não se prioriza faz tempo. O tempo passa. O tempo não muda. E se o tempo não fecha, ninguém vê a chuva. E chove.

Chove muito. E na cova rasa, mãe e bebê se abraçarão eternamente.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.

Ilustração: Mihai Cauli

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