Mal chegou em casa, tomou banho e saiu novamente. Ao menos, no sábado, o trabalho vai só até o meio-dia. Seria difícil aguentar um dia inteiro não tendo dormido na noite anterior. Sandra trabalha sem se lamentar.

Sextas-feiras, no começo da noite, ela encontra um grupo de amigos. Preparam uma montoeira de comida e a acomoda em marmitas metálicas. São horas descascando, cortando, misturando, mexendo. Só a primeira etapa. Tudo pronto, embarcam numa Kombi velha e barulhenta. Ornada com um amassado na frente, um pouco de pasta epóxi na traseira e uma enorme folga na direção que a faz ziguezaguear pelas retas.

Procuram gente. Aquela que ninguém quer ver. Menos ainda se aproximar ou tocar. Gente infame. Maltrapilha. Fedorenta. Gente de rua. Gente que um monte de gente trata como se não fosse gente. Quando as encontra, Sandra e seu grupo distribui as comidas. Durante toda a noite.

A maioria come calada. Com a voracidade de quem tem a fome de não saber se haverá comida. Outros, contam sua história. Há os que estão na rua porque perderam tudo. E tudo não são coisas que se compra. Um amor, o filho, a família inteira, a dignidade…

Outros perderam a si mesmos. Na primeira tragada. Ou por qualquer outro paraíso químico. Porta de entrada para o inferno de sofrimento, indignidade e desespero.

Sandra os alimenta e ouve. Fala pouco. Porque não há o que dizer. Também por saber que ouvir já é muito. Às vezes, parece até mais importante que a comida que ela lhes dá. Fome de falar. E de ser ouvido de verdade. Para se sentir um pouco gente.

Os colegas de trabalho não entendem Sandra. Pelas costas, a chamam de Doida da Kombi. Ela lhes conta as histórias do rolê noturno. Das vidas que descobre e de suas histórias tão interessantes para Sandra quanto desinteressante para seus colegas.

Ouvem entre a estranheza e o nojo. Como se aquela gente fosse contagiosa. Você não tem medo de pegar uma pereba? De te assaltarem ou sei lá?… Sandra sorri. Sabe o que pensam e sentem. Percebe que também evitam tocá-la. Mas não liga.

Sandra não vê as pessoas na rua do mesmo jeito que seus colegas. Do mesmo jeito que quase todo mundo. Ela vê gente. Gente que é gente porque sofre. Porque pensa. Porque fede, faz cocô e tem fome.

Mas tem dificuldade pra entender seus colegas de trabalho. Tão cheirosos. Sem fome. Sem história. Exceto de coisas que comprou, viagens que fez ou picuinhas bestas.

Gente cujo sofrimento vem de se sentirem vazias e acharem que se curam comprando alguma coisa ou tomando remédio. São mais sofridos que os famintos que alimenta. Sofridos de outro tipo. Famintos de propósito. De sentido. De si mesmos.

Como aquela gente, também parecem ter perdido tudo, mesmo tendo tudo. Perdidos de si mesmos por estarem cheios de si mesmos.