Livro de Carlos Paiva é uma das análises mais consistentes e incômodas sobre o Brasil recente

O livro A Economia Política do Atraso: A Fragmentação do Estado, o Plano Real e a Industrialização Brasileira, lançado em 2025 por Carlos Paiva, é uma das análises mais consistentes e incômodas sobre o Brasil recente. Trata-se de uma obra de economia política no sentido forte do termo: aquela que não separa números de poder, política econômica de interesses e resultados macroeconômicos de estruturas institucionais.
Paiva, economista e doutor pela Unicamp, mobiliza história econômica, teoria econômica e ciência política para dissecar o que chama – sem rodeios – de atraso brasileiro. O livro percorre tanto os grandes agregados macroeconômicos quanto aspectos mais estruturais e institucionais, algo ainda raro no debate econômico nacional. E faz isso em linguagem clara, bem escrita, sem o pedantismo que costuma afastar o leitor não especializado.
A obra está organizada em duas grandes partes e 11 capítulos, mas o cerne do argumento já está anunciado no subtítulo: a fragmentação do Estado, o Plano Real e a desindustrialização brasileira. Paiva parte de uma constatação simples, mas decisiva. Entre 1930 e 1980, o Brasil cresceu rapidamente, impulsionado pela indústria. A partir dos anos 1980, o crescimento desaba – e a indústria passa de motor a freio do desenvolvimento.
A pergunta central é óbvia: o que mudou?
Para o autor, uma parte crucial da resposta está na perda de capacidade do Estado – especialmente do Poder Executivo – de coordenar políticas de desenvolvimento. A crise da dívida externa e a redemocratização ampliaram direitos e fortaleceram instituições, mas também fragmentaram o poder decisório. Legislativo e Judiciário ganharam protagonismo, enquanto o Executivo perdeu margem de manobra para conduzir políticas fiscais, monetárias e industriais de longo prazo.
Os governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso aparecem como momentos decisivos nesse processo. O amplo programa de privatizações e a redefinição do papel do Estado reduziram ainda mais os instrumentos disponíveis para uma estratégia de desenvolvimento. O Plano Real, reconhecidamente bem-sucedido no combate à inflação crônica, é tratado por Paiva com mais ambivalência. O controle inflacionário veio acompanhado de uma âncora cambial baseada em juros elevados e entrada de capitais financeiros, o que manteve o real valorizado.
Na prática, explica o autor, o câmbio apreciado barateia importações e ajuda a conter a inflação dos bens comercializáveis. O problema é que ele pouco afeta a inflação dos serviços e dos preços administrados – justamente onde se concentra boa parte da dinâmica inflacionária brasileira. Mesmo após a adoção do regime de metas de inflação, em 1999, o mecanismo central permaneceu o mesmo: juros altos para atrair capital, apreciar o câmbio e conter preços.
O custo dessa estratégia foi elevado. A indústria, que depende da construção deliberada de vantagens competitivas, perdeu espaço. Já setores com vantagens comparativas naturais, como o agronegócio, sofreram menos. O resultado foi um processo persistente de desindustrialização, baixo crescimento e uma economia cada vez mais dependente de commodities e finanças.
Paiva argumenta que o sucesso inicial do Plano Real esteve fortemente condicionado ao ambiente internacional favorável, marcado por alta liquidez. A herança deixada, no entanto, foi perversa: crescimento medíocre, estrutura produtiva fragilizada e inflação que, apesar de controlada, segue elevada e frequentemente acima das metas oficiais.
A saída, segundo o autor, passa necessariamente por uma política de depreciação cambial que recoloque a indústria no centro da estratégia de desenvolvimento. Isso exigiria juros mais baixos – e, inevitavelmente, alguma pressão inflacionária sobre os bens comercializáveis. Para Paiva, esse efeito poderia ser compensado por políticas mais eficazes sobre preços administrados e serviços, um tema que, segundo ele, recebe atenção insuficiente no debate econômico brasileiro.
O livro não é isento de controvérsias. Paiva tende a minimizar o papel de comportamentos empresariais oportunistas ou excessivamente avessos ao risco em ambientes institucionais que favorecem ganhos financeiros de curto prazo. Além disso, a obra poderia dialogar mais diretamente com a dinâmica da taxa de lucro e com a relação entre investimento e crescimento econômico. Ainda assim, essas limitações não comprometem a força do diagnóstico.
A Economia Política do Atraso é um livro incômodo porque desloca o debate. Em vez de culpar indivíduos, governos específicos ou supostas falhas morais, Paiva aponta para estruturas, preços macroeconômicos e instituições. Em economia política, raramente há um único culpado. Como diria Agatha Christie, todos os suspeitos participaram do crime – ainda que alguns tenham tido papel mais decisivo do que outros. (Publicado por Sul 21)

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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