A informação nunca foi tão abundante – e a ação, tão rara. Quanto mais sabemos, menos reagimos. Por que o mundo hiperconectado está produzindo uma geração paralisada?

“Eu fui buscar ela pra gente conversar. A gente começou a discutir dentro do carro. Ela disse que não voltava mais comigo. Eu parei o carro. Eu peguei a faca que estava embaixo do tapete e segurei ela pelo pescoço. Peguei e empurrei a faca até entrar. Depois eu vi que ela tinha morrido. Daí eu tentei me matar. Aí eu resolvi ir pra delegacia.”
Wellington de Rezende Silva, de 43 anos, matou a facadas a ex-companheira, Luana Moreira Marques, de 41 anos, na tarde de segunda-feira, 9 de março de 2026, na DF-128, em Planaltina, Distrito Federal. Após o crime, ele dirigiu até a 16ª Delegacia de Polícia de Planaltina, estacionou o veículo com o corpo da mulher no porta-malas e se apresentou às autoridades.
O “verme de casca”
Esse tipo de brutalidade extrema, embora chocante, dialoga com a rotina cotidiana de horrores à qual estamos constantemente expostos: genocídios, guerras, escândalos de corrupção, crises climáticas, violência endêmica. No Brasil, o choque é ainda maior: o país está entre os piores do mundo para ser mulher. A frieza com que Wellington de Rezende Silva cometeu e apresentou o ato às autoridades reflete um deslocamento perturbador da realidade – a normalização do inaceitável. Todos os dias somos confrontados com tragédias de alcance global e local, e essa exposição contínua contribui para a sensação de impotência e paralisia que permeia a vida contemporânea.
Como Franz Kafka descreve no começo de A Metamorfose, acordar e perceber que algo em você mudou, que você não tem mais controle sobre o próprio corpo, é um choque absoluto. Gregor Samsa se vê transformado num verme, incapaz de agir, de produzir, de interagir com o mundo. Essa sensação de impotência física e existencial reverbera em outras obras literárias que tratam da paralisia diante do absurdo, mostrando personagens que percebem o mundo, mas não conseguem interagir com ele, esmagados por forças maiores que sua própria capacidade de reação.
Casa Tomada: a paralisia sem resistência
No conto “Casa Tomada”, do escritor argentino Júlio Cortázar, Irene e seu irmão moram numa casa herdada, mas a casa vai sendo tomada por uma força que ninguém sabe. Eles se retiram, vão de cômodo a cômodo, de quarto a quarto, de espaço a espaço, sem jamais reagir. Enquanto vão sendo tomados, o autor não explica sobre o quê, mas eles cedem de maneira quase gratuita o que era deles. Estão em movimento, mas estão paralisados. Cada recuo é apenas um passo para a frente da força que os domina – como nós fazemos hoje em relação às catástrofes, guerras, notícias de violência. Nossa cabeça vai sendo tomada. Ela vai abrindo espaços, mas só para outro dilema moral que não podemos resolver. Vamos abrindo mão do que entendíamos como ética, moralidade, ação, porque estamos soterrados por esse movimento de recuar. Essa casa é como nossos tempos modernos: somos tomados por informações, crises, medos, estímulos incessantes, e vamos cedendo, abrindo mão da liberdade, da autonomia, do nosso espaço. A casa não é apenas física; ela é o reflexo da paralisia que sentimos no nosso tempo. O clima de tensão, medo e suspense nunca deixa o leitor confortável, justamente porque ele nunca entende o que toma a casa. É exatamente essa sensação de paralisia, enquanto os espaços vão sendo gradualmente preenchidos, que faz do conto uma metáfora perfeita para o que vivemos hoje.
O Escafandro e a Borboleta
Curiosamente, algumas das mentes mais brilhantes da história estiveram literalmente presas em seus próprios corpos, e mesmo assim continuaram a criar e a pensar com liberdade. Stephen Hawking, que viveu décadas com esclerose lateral amiotrófica, ficou quase totalmente paralisado, mas escreveu livros, desenvolveu teorias revolucionárias e manteve uma carreira científica brilhante. De forma semelhante, Jean-Dominique Bauby, após sofrer um AVC que o deixou quase completamente imóvel, ditou com o piscar do olho a poética autobiografia O Escafandro e a Borboleta. Ambos nos mostram que a restrição física não precisa ser sinônimo de limitação mental. O paradoxo é cruel: nós, que temos o corpo livre, muitas vezes nos sentimos imobilizados diante da avalanche de notícias, ameaças e catástrofes do mundo, aprisionados não pelo corpo, mas pela sensação de impotência e pela saturação de informações. Enquanto Hawking e Bauby pensavam, criavam e se expressavam mesmo em corpos limitados, nós frequentemente nos rendemos à paralisia mental, anestesiados e incapazes de agir.
Timeline do fim do mundo
Todos os dias abrimos nossas timelines e somos confrontados com guerras, genocídios, escândalos de corrupção, crises climáticas, violência endêmica – e, ao mesmo tempo, com algoritmos, postagens motivacionais e conteúdos de lazer que nos distraem ou nos bombardeiam de sugestões. Estamos conscientes do mundo, mas o excesso de informação e a exposição contínua nos mantém presos, com a mente despertando para tragédias que parecem incontroláveis e o corpo social paralisado diante delas.
A pesquisadora e professora Shoshana Zuboff, especialista em tecnologia, sociedade e economia digital, observa em seu livro The Age of Surveillance como as plataformas digitais transformam todos os nossos hábitos e escolhas em dados, moldando comportamentos e desejos sem que percebamos. A pessoa que abre seu feed de notícias pode, ao mesmo tempo, querer começar a tricotar, planejar um hobby ou decidir sobre sua vida amorosa, e sentir-se manipulada pelo algoritmo. Essa manipulação sutil mina nossa autonomia, desloca a percepção da realidade e nos deixa impotentes diante de sistemas gigantescos – uma paralisia social moderna, de consciência ativa, mas de ação quase inexistente. Já o sociólogo Zygmunt Bauman, em suas análises sobre a modernidade líquida, lembra que relações e valores se tornaram frágeis e passageiros, moldados por fluxos de informação e conveniência, aumentando a sensação de impotência coletiva. Guy Debord, na crítica à sociedade do espetáculo, alerta que imagens e eventos substituem a experiência real, transformando tragédias em consumo visual e distração contínua. A escritora Susan Sontag enfatiza que a exposição constante ao sofrimento do mundo gera dessensibilização e redução da empatia, reforçando a paralisia.
Fadiga moral
Um dos fenômenos centrais daquilo que podemos chamar de paralisia moral contemporânea foi estudado por pesquisadores da psicologia social como Paul Slovic e Daniel Västfjäll. Em experimentos clássicos sobre empatia e decisão moral, eles observaram um efeito paradoxal: quanto maior o número de vítimas, menor tende a ser a reação emocional das pessoas. Slovic descreve esse mecanismo como “psychic numbing” (entorpecimento psíquico) e como “collapse of compassion” – o colapso da compaixão. Em uma formulação que se tornou célebre, ele resume o fenômeno de forma brutalmente simples: “quanto mais pessoas morrem, menos nos importamos.” O cérebro humano, mostram esses estudos, não foi feito para processar sofrimento em escala massiva; diante de números muito grandes, a mente tende a transformar tragédias em abstrações estatísticas e a desligar parte da resposta emocional.
Os experimentos conduzidos por Slovic e seus colaboradores demonstram isso de forma quase perturbadora. Quando participantes eram apresentados à história e à fotografia de uma única criança em situação de fome ou sofrimento, as reações emocionais eram intensas e as doações para ajudar eram maiores. Quando o experimento apresentava duas crianças, a empatia já diminuía levemente. Mas quando os participantes eram confrontados com dados sobre milhares ou milhões de vítimas, a resposta emocional caía ainda mais e as doações diminuíam significativamente. Em outras palavras, o aumento da escala da tragédia não amplia a compaixão – frequentemente a reduz.
A conclusão desses estudos é inquietante para qualquer reflexão sobre a vida moral contemporânea. O problema não é apenas a violência ou o sofrimento em si, mas a escala e a repetição com que somos expostos a eles. Quando o sofrimento humano aparece continuamente em números gigantescos – guerras, crises humanitárias, catástrofes – o sistema emocional que sustenta a empatia deixa de responder de forma proporcional. A mente cria uma espécie de defesa cognitiva: ela reduz a intensidade da reação para tornar o mundo psicologicamente suportável.
Gaza: sofrimento em tempo real
Quando os soldados americanos chegaram ao campo de concentração de Dachau, em abril de 1945, depararam-se com uma cena de horror absoluto: prisioneiros gravemente desnutridos e debilitados, muitos à beira da morte, e vestígios de anos de sofrimento extremo. O impacto foi tão profundo que alguns soldados reagiram com violência contra os oficiais da Gestapo que ainda permaneciam no campo, interpretando-os como responsáveis pelos crimes que presenciaram – um episódio que reflete o choque humano diante do horror absoluto. Surge então uma pergunta inquietante: e se houvesse câmeras transmitindo Dachau em tempo real?
Hoje, em lugares como Gaza e no Sudão, assistimos a tragédias semelhantes ao vivo, sem poder intervir. Essa hipervisibilidade constante do sofrimento transforma o conhecimento em paralisia: estamos conscientes do sofrimento, mas impotentes para agir diante dele.
A ressaca do banquete
E, no Brasil, essa paralisia adquire contornos ainda mais concretos e irônicos. A festa de Daniel Vorcaro, com gladiadores tupiniquins, DJs, shows internacionais e ostentação absoluta, ocorria ao mesmo tempo em que aposentados eram roubados, escândalos financeiros corroíam o país e milhões viviam em pobreza ou fome. Cenários dantescos e cafonas mostravam uma elite ignorando o país real: 122 milhões torrados em festas que poderiam financiar hospitais, casas populares e escolas. A ressaca do banquete dos ricos se traduz na impotência de quem vê o mundo ruir diante de si sem conseguir agir.
O último recuo
Como na casa tomada de Cortázar, vamos cedendo espaço. Primeiro um cômodo, depois outro, depois mais um.
Vamos recuando, recuando, recuando.
E a pergunta inevitável é: que espécie de anão ético estaremos nos tornando ao final desse processo?
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
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