A esquerda precisa deixar de ser defensiva e partir para o ataque.

A postura política defensiva da centro-esquerda e da esquerda[1] no século XXI fez com que parecessem um guardião de uma institucionalidade injusta. Buscar o reformismo radical oferece uma alternativa para voltar às suas origens democráticas e desafiadoras da institucionalidade hegemônica no capitalismo de Estado dominante.
Desde seus inícios, durante as revoluções de 1848, a social democracia e a esquerda socialista têm sido um projeto político definido por sua natureza transformadora. A partir do progresso alcançado ao longo do século XX, a esquerda sempre foi caracterizada por uma atitude contínua de desafio ao estado de coisas predominante. Essa atitude crítica em relação à estrutura da sociedade e suas instituições não apenas levou a uma transformação da sociedade – por meio de conquistas, como a criação do estado de bem-estar social – mas também permitiu que a esquerda mudasse a forma como suas políticas centrais eram implementadas, garantindo que sempre refletissem as necessidades contemporâneas e continuassem beneficiando as pessoas comuns.
Por alguns anos, porém, esse lado transformador – que sempre definiu a forma da esquerda fazer política – vem se desgastando. Com a ascensão do populismo de direita e sua ameaça inerente à democracia, a esquerda foi forçado a se posicionar na defensiva. Embora conscientes do descontentamento generalizado com o estado atual das coisas e da necessidade urgente de mudança em vários aspectos da sociedade, diante da possibilidade de algo muito pior ganhar poder, a esquerda se viu numa posição de defesa do status quo com todas as suas falhas, em vez de oferecer a mudança ousada que a população exigia.
Como resultado, recentemente, adotou uma atitude conservadora em relação à política. Não conservadora em suas políticas, mas conservadora em sua postura, caracterizada não mais por sua ênfase tradicional na transformação gradual da sociedade, mas por um desejo defensivo de preservar o que já conquistara, apesar da necessidade de atualizar essas conquistas conforme as necessidades atuais. Devido a essa forma conservadora de fazer política, a esquerda que antes era vista como o lado do progresso e da reforma social rumo a uma sociedade mais justa, liderando um processo de aprofundamento da democracia, passou a ser vista como apoiadora de um sistema que a maioria das pessoas considera injusto. Essa mudança de percepção da população teve consequências eleitorais visíveis e dolorosas para a esquerda e para sociedade.
A esquerda e a centro-esquerda nunca foram uma força conservadora. Sua forma de fazer política, de agir sobre assuntos públicos, baseia-se no princípio do reformismo, na convicção de que, por meio de um processo de reforma gradual e constante das instituições existentes, pode-se torná-las mais justas e, por sua vez, tornar a sociedade mais livre e mais igualitária. Portanto, devem rejeitar essa atitude conservadora que os tem atormentado nos últimos anos e reabraçar a abordagem que tornou seu movimento uma força política positiva, progressista e transformadora. Em resumo, precisa retomar o reformismo radical.
Quando falamos de reformismo radical, estamos falando de um princípio de ação. Ou seja, estamos falando de uma atitude em relação à política, sobre a forma como a política de esquerda deve ser conduzida.
Não se trata apenas de rejeitar a defesa cega das instituições existentes, mas também de manter uma visão crítica em relação a elas. Trata-se de reconhecer e defender seus elementos centrais liberais que abrem espaço para o avanço do processo democrático, ao mesmo tempo em que estamos dispostos a repensar como essas mesmas políticas e instituições devem ser implementadas e colocadas em prática. Levar o reformismo radical para além do liberalismo. Significa ter coragem e disposição para mudar e remodelar as instituições e organizações que apoiamos, e a humildade de ouvir aqueles que estão insatisfeitos e sentem que foram prejudicados.
Considere o Estado de bem-estar social como exemplo. Embora seja verdade que as reformas alcançadas pela esquerda nessa área melhoraram a vida das pessoas em um ritmo sem precedentes, é igualmente verdade que há um sentimento generalizado de que os serviços públicos que compõem o Estado de bem-estar social não estão cumprindo seus propósitos universalistas. À medida que a realidade muda e surgem novos problemas e necessidades, a resposta da esquerda não pode ser defender cegamente os serviços públicos como eles existem atualmente. Em vez disso, deveria ser reconhecer que, embora seus princípios fundamentais permaneçam corretos, sua organização e financiamento atuais não são adequados para atender às necessidades da população e, portanto, precisam ser reformados e adaptados. Nesse caso, essa mudança significa abandonar a estrutura burocrática e centralizada dos serviços públicos e reorganizá-los para que operem em nível comunitário, mais próximos de seus usuários e mais responsivos às suas necessidades.
O termo “radical” sugere uma postura política de transformação da hegemonia liberal atual para uma democrática. Essa hegemonia de construção de instituições democráticas é centro da visão de uma nova sociedade mais igualitária e livre. Livre da exploração e apropriação selvagem, econômica e financeira hoje, e das ameaças autoritárias e violentas do neofascismo. A esquerda deve se convencer de que há um senso de urgência para esse reformismo ampliado, que as mudanças necessárias devem ser feitas o mais rápido possível e que devem ser implementadas de forma a garantir que seus efeitos sejam sentidos o mais rápido possível. Embora, a princípio, isso possa levantar obstáculos e resistências dos grupos conservadores, esse radicalismo busca reforçar a sua natureza transformadora, sua capacidade de melhorar a vida das pessoas e com isso ganhar força política para vencer essas resistências.
Esse radicalismo, no entanto, não pode ser demonstrado apenas por meio de medidas políticas. Mais importante ainda, ele deve ser demonstrado na comunicação, contando uma história da sociedade que o projeto busca construir, demonstrando tanto vontade de mudar, quanto uma visão clara do que essa mudança envolve. Além de possuir ambições e políticas transformadoras, a esquerda deve desenvolver um discurso enérgico que enfatize que seu projeto não é apenas gerenciar a sociedade, mas reformá-la por meio das instituições existentes e da criação de novas. Como um projeto político cujo mandato é dado pelo povo, sua forma de comunicação deve sempre refletir o desejo generalizado por mudanças rápidas e enérgicas. O discurso da esquerda não pode ser de apaziguamento, deve ser uma linguagem de movimento, moldada por uma visão clara dos elementos centrais da transformação oferecida.
Para muitos que ainda se apegam a essa atitude conservadora e à abordagem tecnocrática da política, adotar essa postura diante do nosso discurso e apresentação pública corre o risco de ser acusada de populista, fazendo a esquerda parecer irresponsável e perder o eleitorado centrista. No entanto, essa perspectiva está equivocada. Basta olhar para o mundo ao nosso redor para perceber que a população em geral está ansiosa por mudanças. Embora a esquerda sempre tenha representado mudanças positivas, nosso discurso e ritmo de ação também devem refletir essa identidade. Os resultados de não incorporar a força da mudança estão para todos verem: esse papel inevitavelmente será ocupado por aqueles que se apresentem como agentes de mudança, mas que apenas nos oferecem a pior versão possível do presente –apresentam-se como defensores da liberdade, escondem o ovo da serpente do autoritarismo, da desigualdade social e do conservadorismo cultural.
As mudanças radicais para os serviços públicos são exemplos do efeito do reformismo radical nas propostas da esquerda. Mantendo intactos os princípios e elementos centrais dos serviços públicos, ou seja, sua natureza estatal, baseada na necessidade e universalista, essa abordagem consegue olhar criticamente para suas deficiências atuais e mudá-las, tanto em sua organização, quanto na alocação de recursos, para que reflitam melhor as necessidades contemporâneas. Em vez de permanecer na defensiva, buscando apenas preservar o que existe apesar das crescentes frustrações das pessoas, busca apresentar um modelo mais justo, refletindo a natureza sempre transformadora e crítica do reformismo radical.
Em todas essas áreas, os compromissos centrais da esquerda, a existência de uma economia de mercado fortemente regulada, um estado de bem-estar social universal fornecido publicamente e um sistema tributário progressivo são mantidos intactos. No entanto, a forma como esses compromissos são traduzidos na realidade é diferente: mais ousada, mais imaginativa e reveladora da capacidade de pensar criticamente sobre as próprias conquistas da social-democracia e adaptá-las às circunstâncias atuais.
Em resumo, essa é a atitude reformista radical que a esquerda deve adotar. Significa adotar a essência reformista de sua ideologia e aplicá-la com o senso de urgência e rápida transformação que os tempos atuais exigem. Trata-se de deixar de ser defensivo e, finalmente, partir para o ataque. O ataque que aponta para esperança de uma transformação na vida das pessoas para mais igualdade e liberdade.
Ao fazer isso, e rejeitando a atitude conservadora que tem mantido a esquerda recuada e tímida, ainda poderá haver esperança para um futuro mais justo.
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[1] Por esquerda estou denominando o conjunto de forças políticas comprometidas com a democracia e o estado de bem-estar social, que compreendem os social-democratas, os socialistas, os comunistas e os democratas progressistas. Esses termos compreendem os liberais americanos. Todos são herdeiros da original concepção social-democrata do século XIX que depois se dividiu em várias denominações ideológicas e políticas.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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