
Após uma noite de sonos intranquilos, Gregório acordou metamorfoseado. Mal acreditou no que viu ao espelho. Era ele mesmo, mas também não era. Mesmo rosto, mas com outros vincos e expressões. E preto. Muito preto. Gregório, branco de classe média alta, acordou negro.
Deu-se um tapa no rosto, pensando que fosse um pesadelo. Doeu e continuava preto. Mas é possível estapear-se num sonho e continuar dormindo, pensou. Precisava de algo mais forte.
Fez um café e tomou com muito açúcar. Cuspiu. Fez outro mais forte ainda e tomou puro. A sensação do café amargo era forte demais, real demais para aquilo ser um pesadelo. Tomou duas xícaras. Tudo na mesma. Exceto por perceber que agora preferia o café sem açúcar mesmo.
O coração disparou quando encontrou sua mulher no corredor. Há dois anos dormiam em quartos separados. Não se suportavam. Ela também estava preta. E não o estranhou. Como se ele fosse preto a vida toda.
Não sabia o que dizer. Estupefato. Olhou para ela se afastando pelo corredor com roupas de ginástica. Sentiu um tesão tão inédito quanto o apetite por café forte e sem açúcar.
Pensou em ir ao médico. Mas qual? Psiquiatra? Dizer o que? Não se sentia doido. Também não se sentia preto. Decidiu seguir o dia normalmente para ver no que dava.
Vestiu-se para trabalhar. Surpreendeu-se pensando que usava roupas de branco. E que, preto, não ficava mal nelas. Até melhor do que antes.
O trânsito era o mesmo. Infelizmente. As pessoas também. O porteiro nordestino continuava nordestino. A empregada parda continuava parda. Só ele tinha mudado.
No sinal, policiais o ficaram encarando. Olhou de volta e, sem saber o que fazer, cumprimentou. Um deles respondeu com má vontade. Outro, virou as costas balançando a cabeça. Parecia com raiva.
Segurou a porta do elevador para uma loira entrar. Ela não agradeceu. Outros três sujeitos aproveitaram para entrar também. O primeiro, abrindo espaço com um esbarrão. Ninguém desculpou-se. No elevador, percebeu as pessoas se afastando.
Entrou numa loja para relaxar depois do almoço. Vendedores não lhe deram atenção. Em compensação, os seguranças não desgrudavam os olhos dele. Sentiu-se mal e foi embora, com os olhares dos seguranças o acompanhando.
Em casa, encontrou o filho, que também estava preto. Ele também não! Pensou.
O menino chorava. Foi parado pela polícia. Aos gritos e armas na mão. Perguntou o porquê daquilo. Mandaram calar a boca e levantar as mãos. Levantou. Foi algemado e tomou um tapa. Xingou o policial. Levou outro tapa. Foi preso por resistência, desacato e roubo, porque não tinha no bolso a nota fiscal da própria bicicleta.
Foi solto quando a mãe chegou na delegacia. Ela reclamou. Ouviu que os policiais estavam apenas cumprindo o seu dever. Houve uma denúncia anônima de roubo de bicicleta naquela área e estavam abordando o suspeito, que reagiu. Ele ainda teve sorte de não ter tomado um tiro, disse um deles. Ela deveria se sentir agradecida pelo filho não ter sido morto.
Gregório estava indignado. Queria ir à delegacia também. Reclamar. Exigir! Olhou-se no espelho, para se acalmar e tomar coragem. Viu-se preto. Imaginou-se branco, lendo nos jornais a história do que aconteceu com o seu filho. Pensando, entre a indiferença, pena e alívio, o quão distante do seu mundo era aquela história.
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