“Se tomar manga com leite, morre!”, dizia sua mãe. Quando criança, acreditava. Adolescente, desconfiava. Adulto, cheio de saberes úteis para ganhar dinheiro e inúteis para a vida, deixou de acreditar. Cético de sabedorias que não fossem vindas de europeus ou estadunidenses, ria da crendice materna.

Seguia as fórmulas de sucesso ensinadas por coachs de internet baseadas em estudos de alguma universidade em que se fala só inglês. Trabalhava enquanto os outros dormiam. Tentava mudar seu mindset, mesmo quando não sabia ao certo para que isso serviria. Hackeava sua mente com dicas para deixar de ser procrastinador e se achava procrastinador porque achava chato fazer tarefas realmente chatas.

Apesar de seguir as ciências gringas à risca, sua vida nunca prosperou para além do básico. Sobrevivência a definia com mais precisão do que a palavra prosperidade. Mas Ivan tinha a certeza de que daria certo. Era promessa de endinheirado yankee e de coach a quem pagou para que lhe mostrassem os segredos que ninguém queria que ele soubesse. E foi buscando na internet mais uma lição de sabedoria empreendedora que se deparou com a notícia que acabou com sua vida.

Numa lanchonete, não muito longe de onde ele morava, um cliente pediu uma vitamina de manga com leite e, enquanto tomava, foi atingido na cabeça por um tiro. Morreu na hora. Bala perdida, que encontrou justamente o sujeito que bebia, inocente, manga com leite. Como dizia sua mãe, tomou manga com leite… e morreu!

Em sua mente, imaginava insistentemente a cena do cadáver caído, coberto de um viscoso alaranjado feito de sangue, leite e manga. “Tomou manga com leite e morreu… morreu…”, repetia. Pela primeira vez na vida, sua mente parecia encaraminholar-se de ideias por conta própria.

Argumentava, na solidão de seus pensamentos íntimos: “o sujeito não morreu por causa da mistura de manga com leite, mas também não deixou de morrer por causa da manga com leite, afinal foi por causa da vitamina que ele estava com a cabeça no caminho do tiro”. E contra-argumentava: “mas aí ele não morreu por causa de manga com leite. Se fosse um copo de guaraná daria na mesma!”. E duvidava: “daria?”.

“A vitamina era uma irrelevância. Mas se o era, por que estava na notícia? Então não seria tão irrelevante assim”. Lembrou de sua mãe. Do quanto desdenhou de seu saber. Do quanto era arrogante com os saberes que não eram estrangeiros. De como sempre fora arrogante com gente que nem ele, que era daqui. Do quanto era ridículo viver, sendo daqui, como se não fosse daqui, mas de acolás enobrecidos de arrogância.

Pensou no destino. Que a sabedoria de sua mãe pudesse estar mais ligada a um alerta sobre acontecimentos da vida do que sobre misturas venenosas. Que ela e outros de seu tempo podiam estar certos sobre muitas coisas desta vida, mesmo quando isso lhe parecesse absurdo. E que olhando bem para sua vida, seu destino parecia ser a mediocridade de viver em busca de um destino impossível.

Amargou sentimentos tristes por sete dias e sete noites. Hesitou em repensar sua vida. Mas não teve jeito, cabeça quando começa a funcionar e pedra ladeira a baixo ninguém segura.

No oitavo dia acordou diferente. Não queria mais ser o Ivan Neponuceno que fora até então. Como nas coisas do espírito querer é ser, Ivan já era outro. Queria outro destino. Sem mediocridade. Sem coachs, sem revelação de segredos espetaculares, sem besteiras que parecem sábias só porque têm nome em inglês, sem as tolas crendices de seu tempo.

Naquele oitavo dia, Ivan Neponuceno morreu. Naquele oitavo dia, Ivan Neponuceno nasceu para a vida.

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Ilustração: Mihai Cauli
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