De tanto apanhar de seus amores, Sandra já não sabe se um dia foi amada. Sequer sabe o que é amor. Houve um tempo distante em que sabia. Eram tempos de desejos pintados de sonhos em sua mente. Passou a esculpi-los nos corpos de namorados.

As violências sofridas lhe arrancaram do mundo dos sonhos e a lançaram no abismo dos pesadelos antes mesmo de ter idade suficiente para se sentir adulta. No abismo, não sabe mais de amor. Nem mesmo sabe se ainda consegue amar. Na escuridão dos seus desafetos só há medo e desconfiança. Bebe para esquecer tudo que passou. Bebe para esquecer a escuridão. Bebe para não sentir mais nada.

Era hábito de Jorge ler três jornais pela manhã. Era mais sagrado que o café com leite e o pão com manteiga. Sentia-se inseguro sem saber das notícias. Sabendo que sabia das coisas acontecidas, estarrecia-se menos com os absurdos quotidiano. Mas isso foi há tempos.

Aos poucos trocou as páginas acinzentadas dos jornais pelo brilho das telas. As informações deixaram de vir como desjejum e passaram a ser engolidas o tempo todo. Como quem troca a dieta com comida a hora certa por beliscadas em comidas variadas o tempo todo, engordou. Tornou-se obeso de informação. É tanta notícia e são sempre tão espetaculares que deixam de ser espetaculares.

O estranho, de tanto aparecer, torna-se banal. Cada uma vira só mais uma. Sem espanto. Todas novidades sem frescor. Jorge passou a ver o mundo não mais pelas notícias, mas como as notícias, um amontoado de banalidades. Absurdos banais, sucessos banais, espetáculos banais. Seu mundo tornou-se sem frescor, sem surpresas, sem graça.

Gregório nasceu na rua. Viveu na rua até os dez anos. Não se lembra de pai ou mãe. Nem mesmo sabe dizer como sobreviveu à primeira infância. Muito do que sabe, aprendeu na rua. São lições de sobrevivência, medo e malandragem.

Tudo mudou quando conheceu Maria. Ela o flagrou tentando roubar sua bolsa. Poderia ter batido nele, chamado a polícia ou simplesmente o odiado naquele momento. Mas diferente de tudo que tinha aprendido até então, ela conversou, deu comida, o abraçou e, naquele momento, tornou-se sua mãe. Foi o primeiro e único ato de amor que experimentou em sua vida. Foi o suficiente para mudar sua existência. Saiu da rua. Cresceu. Estudou. Trabalha. Tem carro e casa adquiridos com vida honesta.

Mas apesar de Maria e de seu amor, não esquece as lições da rua. E a vida não o deixa esquecer. Ele sabe que sempre será visto como aquele menino de rua por causa da sua pele preta. Sempre será o suspeito. Sempre precisará vestir-se bem para não ser morto. Sempre haverá um segurança de olho nele no interior da loja. Para olhos brancos, ele será sempre o preto perigoso da rua.

Gregório está cansado. Cansado da desconfiança. Cansado da malandragem. Cansado de ter que provar a todo instante, quase inutilmente, que também é gente. Está tão cansado que nem se importa mais. Já não se irrita. Não se revolta. Também não sorri, porque o último sorriso verdadeiro que deu, foi para Maria, que nos seus últimos momentos de vida lhe pediu um sorriso para que, pela eternidade, pudesse se lembrar de seu menino feliz.

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Ilustração: Mihai Cauli
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