
Pâmela leu que somos água, carbono, minerais e bactérias. Muitas bactérias. Sentiu náuseas com a imagem de bactérias no seu corpo. Pensou nele como um amontoado de coisas estranhas. Por dentro dele, algo que pensa e sente. Muitas das vezes, sem saber bem o que pensa e sente.
Tudo é frágil. Uma bactéria errada e o corpo disfunciona. Uma ideia errada e a alma flutua. E a de Pâmela flutua muito. Quando o corpo começa a cair, a carcaça vai primeiro. Depois as tripas. A gente sente esse descompasso como ânsia. Frio estranho na barriga. Quando a alma flutua é a mesma coisa. É como se planasse num vazio de ideias e sentimentos incertos. Pâmela não gosta de se sentir flutuante.
A alma precisa de certezas para não flutuar dentro do corpo. Que podem vir de dentro, de uma convicção inabalável. Que é só uma vontade teimosa que não larga uma ideia de jeito nenhum. Ou de fora, quando o que os olhos, ouvidos e tudo o mais que nos faz sentir coisas fora de nós, mostram para a alma coisas com as quais ela consegue construir certezas.
É como se a alma digerisse o que o corpo engole pelos sentidos. Talvez por isso a gente diga, às vezes, que os fatos são difíceis de engolir. Sabemos que são reais, mas é como se não fossem. Não trazem a certeza das coisas que aceitamos porque aquela realidade é inaceitável.
Quando a realidade é absurda demais para ser engolida ou muda rápido demais para ser compreendida, a alma flutua em incertezas. E o corpo todo entristece. Murcha. E busca certezas como um faminto. Mas não as encontra na realidade difícil de engolir. Indigesta como um bolo de bactérias.
Pâmela só acredita no que teima em acreditar. E teima com as teimosias que já estavam lá, dentro dela. Ela sabe que nem todos têm as mesmas teimosias. E também que algumas teimosias são novas. Teimosias novas para digerir novidades indigestas.
Ela acha suas novas teimosias na internet. Lugar em que todos falam, cantam e gritam suas teimosias. Como um bando de músicos em que cada um toca seu instrumento como quer e repete a nota que lhe agrada. No furdunço, o som do outro é barulho incômodo quando não toca a mesma nota que a sua. Para tornar-se orquestra, uns querem eliminar quem toca diferente, outros, querem um regente que ponha fim ao caos.
Ela quer os dois. E luta pelos dois. Cancela quem lhe agride os ouvidos e a alma com ideias indigestas. Ofende o jornal que lhe fala de coisas difíceis de engolir, como se lhe empurrasse uma colher cheia de bactérias pela boca. E aplaude seu regente, faça ele o que fizer, diga ele o que disser.
E Pâmela chora, ri, odeia, ama e vomita ao sabor das teimosias. Sente-se inteligente, saudável e superior porque, teimando, a alma não flutua. Mas mesmo assim, não consegue se livrar da ânsia de saber – lá no fundo, bem no fundo! Por debaixo das teimosias – das nauseantes bactérias de seu corpo e das tolas fragilidades da sua alma.
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