“De onde surgiu essa raça de lobos no meio do nosso povo?
Serão da mesma raiz que nós? Serão do mesmo sangue que nós?”
Aleksandr Soljenitsyn em Arquipélago Gulag

I

Primeiro reclamaram do resultado das eleições que disputaram e perderam. O argumento era de que as urnas foram fraudadas – por isso planejaram, e quase conseguiram, dar um golpe de Estado. Processados e punidos, acusam a Suprema Corte de ser um tribunal de exceção que está levando a cabo uma caçada injusta e desumana contra o Clã e seus seguidores.

Qualquer ato ou evento, de qualquer natureza, praticado por qualquer instituição da democracia, se não lhes é 100% favorável é inquisitorial. Quer dizer, a turma entrou (ou sempre esteve) numa nóia das brabas – ninguém está acusando quem quer que seja de ter fumado unzinho, até porque seria insensato imaginar que a psique bolsonarista teria o bom senso de dar uns tapinhas para talvez iluminar o espírito nessa hora de grande dor e abandono.

Para a psicanálise, a paranoia é “um dos três componentes modernos da psicose em geral”. Em “razão de seu modo de expressão lógico e de sua intelectualidade próxima do raciocínio ‘normal’”, Freud comparava “essa forma de loucura… a um sistema filosófico”. Não é nesse sentido, portanto, que o termo será usado a seguir.

Vamos nos ater ao notório senso comum. E é nesse patamar que se pode pensar em pelo menos dois tipos de paranoico.

O primeiro deles estaria muito bem representado por qualquer um dos membros do Clã. Consideram-se como os eleitos e tudo e todos que se manifestam diferente de suas intenções e planos de perpetuação no poder estão se manifestando para que sejam levados ao cadafalso. Portanto, o que querem os juízes e as evidências é o assassinato do mito e o extermínio da linhagem – e não levá-los a julgamento por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, dano qualificado ao patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado.

O outro tipo de paranoico é o que pode ser visto na figura desse pobre escriba quando prevê que a sombra desses anões feitos gigantes, projetada por poderosos luminares do Império, seguirá crescendo a ritmos de uma tormenta tropical. De acordo com o que preveem os haruspices, um tempo de trevas está se aproximando. Mas para o paranoico de segundo tipo o que se aproxima é ainda pior. Para ele, ao invés de um fenômeno passageiro como uma tempestade, o que vem pela frente vem para ficar. Por gerações.

Junte-se o aparecimento acelerado de novas tecnologia capazes de se autoadministrar (grande capital) e regimes políticos ou Estados autoritários (tão fora de controle quanto o grande capital) – delira o paranoico de segundo tipo – e você terá a carantonha dessa sombra que avança sobre o horizonte.

II

Mas algo há que se reconhecer no filho escondido na capital do Império e protegido pelas asas do Imperador e dos áulicos mais achegados. Para usar o linguajar próprio da família (o Clã), Eduardo é daqueles que têm culhões e prazer em mostrar que tem. Pode ser às vezes meio burro e errar na dose das pragas que lança sobre o seu próprio país, mas culhões ele tem – ao menos enquanto se encontra em Washington, lado a lado com os conselheiros do trumpismo mais radical.

Quanto à estupidez, essa é mais resultado da arrogância inata do que da ausência de um aconselhamento qualificado – por detrás daquele exibicionismo transbordante existe, na realidade, uma pequena, mas muito bem montada máquina de guerra. Seria temerário ignorar sua existência. Construída há tempos, vem se expandindo e se consolidando em cada um dos territórios onde se instala.

O bolsonarismo é apenas um dos seus braços, só que nascido num pedaço do planeta nada insignificante – com um PIB de 2,1 trilhões de dólares (estimativa do FMI), o país que o pariu está entre as dez maiores economias do mundo.

III

A essa altura é inevitável a pergunta: por que insistem em comparações que sabem, ou deveriam saber, serem absurdas, incongruentes, destituídas de sentido? Ou não é de uma incongruência acabrunhante que um dos seus principais guias espirituais ou orientador ideológico ou conselheiro para as horas amargas, o pastor (e dono da Assembleia de Deus Vitória em Cristo) Silas Malafaia, use em tom acusatório a qualificação de nazistas para os adversários do bolsonarismo, quando são e não têm nenhuma vergonha em se reconhecerem como gente de ultradireita?

É preciso destacar a ausência de pudor nesse reconhecimento pela simples razão de que, não faz muito tempo, era preciso um enorme esforço para arrancar a máscara de cordiais direitistas a notórios simpatizantes de ditaduras fascistas e similares. Agora, já não. Eles mesmos são os que se esforçam para evidenciar suas taras políticas – o gozo com os símbolos e gestos nazistas, por exemplo.

É ou não de uma escandalosa má fé comparar a perseguição contra o líder negro sul-africano Nelson Mandela aos processos jurídicos a que estão sendo submetidos por atentarem contra a democracia, quando qualquer cabra minimamente informado sabe que Mandela foi mantido por quase três décadas preso pelo regime ditatorial e de segregação racial institucionalizado do seu país?

Dia após dia, semana após semana e já não há mais quase nada a que se agarrarem a não ser a essa enciclopédia de inversões de sentido, de aniquilamento das palavras e dos seus significados. Ou àquele linguajar tosco-abrutalhado tão característico do pastor Malafaia, onde cada frase parece ter sido gerada por doses continuadas de testosterona injetadas nos vocábulos.

Mas o que havia sido, no final das contas, o mandato de Jair Bolsonaro como Presidente da República? Com o comando da economia entregue ao todo poderoso ministro da Fazenda, ao eleito restava fazer peregrinações publicitárias para reforçar o estilo brutamonte e sincerão que, aparentemente, o levou à presidência.

Salvo pela pandemia que, graças à sua gestão, fez do Brasil um dos recordistas em número de mortos em todo o planeta, Bolsonaro pôde durante quatro anos se ausentar do cargo como se fosse uma divindade – onipresente e onipotente (onisciente já seria exigir demais).

Seu estilo era a seiva vital que mantinha orgulhosa a genuína alma do brasileiro ordinário. Sua grosseria era a grosseria do povo. Sua má-educação, a orgulhosa má-educação do povo. Seu cultivado analfabetismo, o analfabetismo do brasileiro abandonado pelas elites. E suas mentiras e patacoadas pareciam ser as únicas possibilidades do discurso político.

Processados pelos crimes que tentaram levar a bom resultado, fracassados no intento por culpa da própria incompetência, agora estão sendo abandonados pelos aliados de ainda ontem – e esses, para seguir trapaceando logo começarão a perguntar: de onde surgiu alcateia tão enfurecida, serão mesmo da nossa turma, terão o mesmo sangue que nós?

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli
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