O caso de amor conturbado entre Búzios e Brigitte Bardot faz parte da identidade do lugar, é uma história a ser preservada.

A história de amor entre Búzios e Brigitte Bardot teve vários momentos. O jornal O Perú Molhado, que circulou por 36 anos em Búzios e Região dos Lagos, sempre irreverente, registrou essas idas e vindas afetivas, ao longo dos anos. Vale a pena recordar algumas dessas histórias, neste momento em que a atriz sai definitivamente de cena e morre na França, em 28 de dezembro de 2025, aos 91 anos.

Brigitte esteve em Búzios em duas ocasiões, no mesmo ano de 1964 – primeiro em janeiro, quando ficou por quatro meses e depois em dezembro, durante o Natal e o Ano Novo. Na primeira vez, com o namorado brasileiro-marroquino, Bob Zagury, fugindo do assédio da imprensa em sua estadia no Rio. Ficaram na casa de Andrei Mouravieff, em Manguinhos. De nacionalidade russa, ele era, na época, representante da ONU no Rio de Janeiro. Da segunda vez, também ao lado de Bob, ficou hospedada na praia do Canto (na atual Pousada do Sol, na Rua das Pedras), na casa de Ramon Avellaneda e sua mulher Marcela. Ramon era, na época, cônsul da Argentina no Rio de Janeiro.

Depois de um acordo com a imprensa, fechado em troca de uma entrevista coletiva no Copacabana Palace, BB e Zagury partiram para Búzios num pequeno furgão, devidamente abastecido com arroz, farofa, latas de conservas, água mineral, querosene para as lamparinas, inseticida, livros, jornais e o violão. Foi assim que conheceu Búzios, pela primeira vez, conforme conta em sua autobiografia: “Não havia nada ali. Nem eletricidade, nem telefone, nem geladeira, nem água corrente. Apenas o mar, o céu, uma casinha rústica e doce, praias douradas e algumas embarcações coloridas, com as quais os moradores dali pescavam em alto mar”.

O acordo com a imprensa nacional e internacional dava exclusividade à cobertura fotográfica de Denis Albanese, amigo de Bob, único com permissão de documentar a estadia da atriz em Búzios, com o compromisso de abastecer os jornais. Essas imagens circularam pelo mundo e com elas Búzios foi lançada no roteiro turístico internacional.

Ainda ressentida pelo assédio sofrido no Rio, Brigitte relata que havia passado, sem transição, do inferno da civilização ao paraíso. Mas lamenta: “… depois da minha passagem, aquele lugar transformou-se na Saint-Tropez brasileira. Dá pra acreditar que carrego em mim uma forma de destruição sistemática”. E não é que ela tinha razão? Algum tempo depois da sua vinda, Búzios, já emancipada de Cabo Frio, assinou com Saint-Tropez um protocolo de “cidades-irmãs”, durante uma visita de autoridades locais – prefeito e vereadores – ao balneário francês. BB parecia se sentir uma espécie de rei Midas ao inverso. Destruidora de paraísos.

A estadia de BB em Búzios, então uma aldeia, com não mais de 5 mil habitantes, foi tranquila. Pescadores e colonos locais seguiam nas suas atividades, sem nem prestar atenção na atriz, que estava no auge de sua fama internacional, uma espécie de símbolo sexual de várias gerações. Essa liberdade de circular anônima foi o que mais agradou a Brigitte. Já havia alguns veranistas e estrangeiros na península, mas nada que se comparasse ao fluxo liberado após a inauguração da ponte Rio-Niterói em 1974, com a fusão do estado do Rio de Janeiro com a Guanabara.

No intervalo entre as duas visitas, em 28 de setembro daquele ano, Brigitte completou 30 anos. Conta, em sua autobiografia, que se postou diante de um espelho, procurando os vestígios da idade madura, descritos por Honoré de Balzac em seu livro “A mulher de 30 anos”. E não encontrou nada de diferente.

O Perú Molhado, não se sabe se baseado em fatos ou boatos, divulgou, já na década de 1980, a notícia de que as autoridades locais – que naquela época eram os de Cabo Frio, já que Búzios só se emancipou em 1995 – viram que podiam ter se promovido mais através de visita tão importante e resolveram oferecer de presente a BB a Praia de João Fernandinho. E ficaram muito chateados, porque ela não veio receber o presente. Nem agradeceu.

Outra notícia foi que a atriz teria levado pra Paris o gato do anfitrião Mouravieff, sem pedir licença. Ela confirma, em sua autobiografia, o amor pelo gatinho. Diz assim: “Guardo preciosamente a lembrança inesquecível de um pequeno paraíso, onde eu corria descalça, acompanhada de um gato que eu chamava de Moumoume, maravilhada com os beija-flores, com os flamboyants, as buganvílias, a cor translúcida de um mar cheio de espuma e brilhante, que parecia um champanhe azul, com o qual eu me embriagava”.

Em março de 1993, o Perú entrevistou Bob Zaguri, 30 anos depois de sua estada em Búzios, com a atriz. Bob contou que conheceu Brigitte em Saint-Tropez e desmentiu o roubo do gato, ironizando: “Um gato buziano jamais se adaptaria a Paris”. Perguntado sobre como era Búzios naquela época, respondeu: “Não tinha nada. Na rua das Pedras tinha a igreja, uma pequena mercearia, onde se comprava umas latinhas de sardinha, uma vela, farinha e mais nada. Tinha a casa do Ramon, uma outra casa em João Fernandes, Manguinhos tinha duas casas. Não tinha nada na Ferradura, Ferradurinha, Brava. A gente ia dormir 9hs da noite, acordava às 7hs, mesmo porque a luz era cortada à meia noite. Passava o dia na praia, saía de barco, pescava. Brigitte tocava violão, a vida era muito simples, ao ar livre”. Sobre o terreno na praia, disse que nunca viram os papéis. Então, não sabia se realmente o presente fora dado.

O jornalista Arthur Dapieve declarou em sua coluna que “Brigitte Bardot foi três Brigittes na vida”, constituintes de uma personalidade complexa. A primeira fase corresponde ao papel que teve no cinema e na vida pessoal, como ícone da liberdade feminina nas décadas de 1950 e 60. A segunda fase foi a de seu ativismo quanto ao direito dos animais, após ter-se retirado do cinema, no início dos anos 1970. Na terceira fase, ela se aproxima das posições e pensamento da direita mais conservadora, dando declarações públicas de caráter racista, homofóbico, pelo que foi condenada cinco vezes nos tribunais franceses.

Ao que tudo indica, a temporada em Búzios pode ter contribuído para a decisão tomada por Brigitte, anos mais tarde, de largar a carreira no cinema e se dedicar a uma vida mais simples, dedicada aos animais, longe da pressão e assédio que sofria como atriz e símbolo sexual.

A visita de BB muito beneficiou a economia de Búzios, trazendo um turismo internacional a que poucas cidades no Brasil têm acesso. Na década de 1990, Marcelo Lartigue, editor do Perú Molhado e fotógrafo, identificou mais de 50 nacionalidades de estrangeiros morando na cidade, além dos que a visitavam. Com esse material, produziu uma exposição no restaurante Cheval Blanc, depois o livro Praia de Babel, e um documentário, entrevistando esses personagens. Não se tem levantamentos mais recentes sobre a composição dos estrangeiros que ainda hoje frequentam ou residem em Búzios, mas as estimativas apontam pela predominância marcante de argentinos, uruguaios e chilenos, que somariam cerca de 20% da população. Ou seja, teria havido uma queda em relação à diversidade que havia.

O turismo internacional deu a Búzios, notadamente nas décadas de 1980 e 1990, uma identidade cosmopolita, culturalmente aberta e conectada com as vanguardas nacionais e internacionais. Festivais de cinema, gastronomia, música, inúmeros jornais, rádio FM e TV, muito ativismo social.

Quando, por volta dos anos 2000, Brigitte, já com 65 anos, começou a “pisar na bola”, o Perú Molhado saiu com a capa de Mick Jagger e uma proposta radical – destronar a musa e adotar Jagger como muso. A explicação era a seguinte: “Não só por causa da idade avançada, que denota alguma senilidade, La Bardot responde a processo na França por racismo. Ela resolveu difamar os imigrantes e não fica nada bem para uma cidade que vive de estrangeiros ficar associada a um símbolo desses”. E continuava, argumentando que assim que saiu o livro “Rolling Stones no Brasil”, de Nélio Rodrigues, com várias páginas dedicadas a Búzios, relatando inclusive a passagem de Mick Jagger pela casa da Renata Dechamps, o Perú descobriu que o roqueiro tinha muito mais a alma da cidade do que a BB.

A campanha não foi à frente, talvez porque ia dar muito trabalho rebatizar todos os inúmeros negócios e locais que, em Búzios, levam seu nome ou quase. GranCine Bardot, Orla Bardot, Madame Bardot, etc. Mas, em novembro de 2014, a capa do jornal estampou uma foto da atriz, marcada por profundas rugas e expressão raivosa, com a legenda: “Me esqueçam!”.

Mais recentemente, a visão de que a identidade original de Búzios teria sido ofuscada ou ocultada pela visita de BB está sendo frequentemente debatida nos círculos de cultura. É a vez da memória quilombola, caiçara, das marisqueiras, pescadores, etc. O movimento de resgate dessas tradições responde a uma demanda pela valorização do papel que tiveram na formação cultural do município, no decurso de sua transformação de aldeia em cidade.

Uma cidade está sempre em contínua transformação. Búzios não é diferente. Mas o caso de amor conturbado entre Búzios e Brigitte Bardot faz parte da identidade do lugar e junto com a ancestralidade que a precedeu, é uma história a ser preservada.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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