
O cheiro inebriante de manteiga queimada na chapa atiçava ainda mais a fome de quem entrava. Às oito da manhã, cheia de gente em busca do desjejum. Funcionários compenetrados no preparo e serviço de cafés, sanduíches, sucos, bolos e salgados. Tudo igual a todas as outras padarias pelas manhãs, exceto por um cadáver estendido em frente à geladeira.
Um freguês habitual, como em todas as manhãs, encostou sua barriga colossal no balcão de frios. Disse que estava morto de fome. A ironia do fato não estragou o clima ao mesmo tempo sonolento e agitado de todas as manhãs.
Comeu seu misto-quente com muita manteiga. Sem se dar conta de que havia um cadáver ao lado. Elogiou a quantidade de presunto, arrancando um raro sorriso da moça acostumada a clientes que elogiavam seus peitos, mas desacostumada aos que elogiavam seu trabalho.
O cliente com pinta de surfista dos anos 80 parou de frente para o cadáver. Seu olhar oscilava como o de quem buscava entender algo. Beto, o responsável pelo salão da padaria o abordou, entre o constrangimento e a delicadeza servil de sempre. “Bom dia! Posso ajudar?”.
Queria uma garrafa de suco. Inalcançável sem a violação da área interditada. Beto, com a autoridade de quem trabalha no lugar, afastou um pouco as mesas e entrou no espaço de velório improvisado.
Esgueirou-se ágil entre o cadáver e as portas da geladeira e com gentileza indagou qual sabor o cliente queria. Teve que afastar um pouco o cadáver com o pé para pegar o suco de uva. O cliente agradeceu, satisfeito, segundo a polidez que teve de berço.
O saco de lixo preto que servia ao cadáver de sudário foi levantado por uma forte rajada de vento, expondo a face morta e o peito ensanguentado. Uma senhora de formas e jeitos esculpidos na aristocracia dos anos 50, flagrou a cena horripilante sem horripilar-se. Fez cara de nojo. A mesma que fazia para os companheiros do morto quando em vida se aproximavam dela. Comprou seus croissants e saiu rápido, indignada com a limpeza do lugar.
Beto percebeu a cena. Tomou como falha pessoal. Talvez se tivesse amarrado o saco de lixo ao cadáver isto não tivesse acontecido. Se ao menos pudesse levá-lo para os fundos, onde acumulavam os sacos de lixo, estes constrangimentos não ocorreriam. Mas o saber aprendido em filmes policiais é o de que não se pode mexer em um cadáver antes da chegada das autoridades que, como sempre, demoram.
Sujeito, vestido como quem coloca a primeira roupa que encontra, parou ao lado do corpo e sacou o celular. Beto arrepiou-se. Entendeu que aquilo seria uma má publicidade para a padaria. Chamou o dono.
Perguntou-lhe se não seria melhor fechar a padaria. Por uma questão sanitária e humanitária. Não havia muita coisa a se dizer sobre o problema sanitário. Ateve-se ao humanitário. “Ninguém teve humanidade quando ele estava jogado na rua. Agora que morreu jogado na minha padaria querem que eu tenha humanidade?”.






