
Cansaço. Muito. De tudo. Pedro acordou cansado. Cansado mais que do cansaço de sempre. Do cansaço que virou seu modo involuntário de existir. Sua condição mórbida. Não é cansaço do corpo, bem dormido e bem nutrido. É cansaço de espírito. Cansaço da energia roubada. Da vontade desiludida. Do entristecimento imposto. Da alegria perturbada. Da solidão de se estar perto de uma gente cansativa. E ainda eram dez da manhã de segunda-feira.
O aperto entre as pessoas melancólicas e sonolentas no ônibus lotado cansa. A espera cansa. O empurrão cansa. A alegria do vendedor de pão de queijo que manobra agilmente a enorme caixa de isopor cansa. Cansa só de ver. Comprou um só para evitar o cansaço da recusa. Estava duro. E caro. Está tudo caro. Cansa arrumar dinheiro para comprar coisas baratas que ficaram caras. Cansa não valer nada.
Tomou café demais enquanto esperava o chefe. Só para não precisar falar com aquele pessoal aborrecido do trabalho. Gente que reclama para pedir afeto e que fala mal dos outros para não se sentir tão menos que os outros. Tão nada. Tão cansados de não serem nada demais. Cansados de serem só mais um. Cansados do medo. Cansados da necessidade de se esforçar para provar que é esforçado. O chefe chegou atrasado.
Pediu agilidade. Estavam todos cansados de esperar. Agora, vão se cansar pelo açodamento. Não ter tempo, cansa. Sujeito de sotaque paulista apressou-se a apontar gráficos e falar difícil para dizer para o chefe que sabe falar difícil. O chefe gostou porque viu na ideia do paulista uma ideia que poderá dizer para o chefe do chefe que foi sua. A moça bonita também apontou gráficos, retraída de timidez pelos olhares do chefe para seu corpo. O medo dela, cansa. A babaquice do chefe, cansa. A competição pelo nada, cansa.
O chefe quer falar com a moça bonita, a sós. Saber o que vai acontecer com ela, cansa. Saber que nada vai acontecer com o chefe, cansa. Saber que ela é quem vai ficar mal falada depois, cansa. As outras vão chamá-la de oferecida. Os outros, de interesseira. Ela vai chorar, cansada, no canto. O chefe vai rir. E vai contar para o chefe do chefe. Que vai rir com ele. Riso do cansaço dos outros.
Cansaço. Muito. De tudo. De tudo mesmo. Cansaço do que se vê. Do que se é. Do querer ser o que não se é. Também de não se saber bem o que se quer ser. Só cansaço. De corpo e espírito. Cansaço do que se lê. Do que se ouve. Cansaço farto de toda miséria moral que fede em volta. Cansaço dessa gente. Desse abismo. Dessa miséria. Dessa mediocridade. Dessa falta de vergonha na cara e de ter vergonha dessa gente sem-vergonha. Cansaço da arrogância com que a funcionária é encoxada pelo chefe. Cansaço da babaquice. Cansaço da indiferença de quem deveria ser solidário. Cansaço do choque que é perceber que nada mais choca. Cansaço da loucura que é sentir-se louco por sentir-se são. Cansaço do cansaço. Só cansaço. Cansaço…
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
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