Oriaj contava estrelas. Não como astrônomos. Também não como astrólogos. Não as desenhava em mapas do céu. Não escrevia seu número num papel. Não as contabilizava para saber quando uma nova surgia ou desbrilhava no céu. Ele só as contava. Uma por uma. Toda noite. Só para recontar novamente no dia seguinte.

Não queria saber se brilhavam muito ou pouco. Nem se cintilavam, piscavam ou se só pirilampavam no céu. Não as classificava com números e tampouco com o nome de deuses de outros tempos. Certamente, confundia um ou outro satélite com estrela e o contava assim mesmo. Nada disso era importante para ele. Detalhes irrisórios dos brilhos do céu.

Contando assim, as estrelas lhe eram ao mesmo tempo especiais e indiferentes. Especiais para contar. Indiferentes para reparar. Eram como as pessoas à sua volta, especiais porque dependia delas. Indiferentes porque não reparava em seus detalhes e jeitos de fazer tanto as coisas especiais quanto as banais.

Seguiu a viver e contar assim até conhecer Airam. Ela não era como as outras pessoas. Era mais importante que as outras e sentia que sua felicidade, daí por diante, dependeria da presença dela. Era diferente das outras. Tinha um brilho diferente nos olhos e lábios. Brilho de sol, de lua e de tudo mais que há no céu a brilhar. Estranhou-se no que sentiu. E estranhado, passou a ver tudo de outro jeito.

Os outros, de repente, não lhe eram mais indiferentes. Começou a reparar no jeito como as tranças da menina chicoteiam o ar enquanto ela sobe e desce no pula-pula. No jeito meio desengonçado como o sujeito parrudo e de mãos grandes segura a delicada xícara de café. No aspecto meio doido do engravatado na rua que parece discutir sozinho quando fala com alguém usando fones de ouvido. Todo mundo ficou diferente, único. Assim como as estrelas.

Naquela noite, começou a contá-las de outro jeito. Sem números. Com nomes. Cada estrela – ou satélite ou cometa, porque não sabia diferenciá-los – ganhou o nome de alguém que Oriaj conhecia. A mais brilhante do céu chamou de Airam, porque foi ela que iluminou seus olhos. Aquela piscante achou de mesmo espírito que Oluap, que estava sempre agitado. A que não parava quieta no céu e desfilava pelo infinito chamou de Aicram, que vivia perambulando pela cidade e ninguém sabia dizer com certeza onde estaria.

Seguiu nomeando as estrelas com os nomes de amigos de infância, conhecidos do presente, colegas de trabalho, gente de internet que talvez nem exista de verdade, amores do passado e até de gente que inventou na sua cabeça para combinar com alguma estrela que não se encaixava com as pessoas que conhecia.

Contou todas que conseguiu contar no céu daquela noite. E eram tantas que também precisou inventar nomes para as pessoas inventadas na sua cabeça, que precisavam existir para que aquela estrela não fosse indiferente. Contou tanto que, no final, já não havia mais um céu cheio de estrelas, mas um céu cheio de gente cintilante.

Era tanta gente flutuando no espaço, que deixou de pensar em estrelas para pensar só em gente. No brilho de gente. Nas pessoas que têm luz própria e naquelas que brilham com a luz dos outros. Nas que reluzem, nas que cintilam e nas que piscam. Nas que ofuscam e nas que se apagam.

Oriaj olhou para Airam com olhos luminosos. Segurou em suas mãos e disse com ar de gratidão, “consegui contar as estrelas com o céu que você me deu”.

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Ilustração: Mihai Cauli
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