Dentro de cada um, há um coração. Ele é de carne, mas fica dentro de uma lata. Sentimos aquele aperto no peito quando o coração não cabe na lata. Viviane tinha seis anos quando seu pai lhe contou isto. Ela queria entender porque a falta que sentia da mãe lhe apertava o peito.

Para dar amor a quem se ama, o coração cresce. Fica grande e a gente, alegre. Quando se dá o amor sentido, ele diminui e ficamos em paz. Mas quando perdemos quem se ama, o coração se esconde numa lata. É sua armadura contra as coisas que machucam. Só que ele é maior que a lata, por isso o aperto. Aperto de coração machucado escondido na lata.

Viviane tem dificuldades para se lembrar da mãe, que morreu de cirrose. Hepatite mal curada, disseram. Não fossem pelas fotos guardadas, talvez não se lembrasse nem de seu rosto. Mas nunca se esqueceu do amor de sua mãe. Talvez por senti-lo junto de si, dentro da lata.

Com o coração apertado pelas lembranças dos natais sem sua mãe, viu na TV que uma mulher foi morta a facadas pelo ex-marido, na frente das filhas. Ter o mesmo nome dela, apertou-lhe ainda mais o peito. Inchaço de compaixão apertando-se na lata.

Pensou nas mulheres mortas por homens. No tamanho da covardia e da crueldade. Coisa de gente cujo coração está preso na escuridão da lata. Como as carnes de seus corações não podem amar, tenta-se alguma alegria destruindo corações desenlatados.

Seu pai tinha alma de poeta. Coração tão grande que não cabia dentro da lata. Sobravam-lhe afetos, que lhe dava aos montes e distribuía sem freios a quem mais quisesse. Às vezes, a quem não quisesse também. Sofreu por isso. Coração sem proteção de lata, sangra a cada mágoa. Com o tempo, costumou-se a ser magoado. Aprendeu a não deixar de amar mesmo sem a proteção da lata. Quando muito, ficava melancólico.

Outros, eram o avesso de seu pai. Gente com o coração tão pequeno que não transbordava a lata. Sem apertos no peito. Talvez, muito cedo tivessem experimentado uma mágoa tão grande que seus corações se esconderam bem no fundo dela para nunca mais se machucarem. Olhando, não se vê o coração, só a lata. Coração de lata.

Tornaram-se pessoas sem mágoas, mas que magoam. Sem amor, mas que querem ser amadas. Talvez na esperança de que a falta de mágoas ou o amor de outro retire seu coração do fundo da lata. Não sabem que dentro dela, se a mágoa não entra, o amor de outro também não. Acabam culpando outros pelo amor que não lhe chega. Magoando, ofendendo, matando.

Lembrou-se de outras mágoas. Das suas. E das pessoas que a magoaram. Homens e mulheres com coração de lata. Por todos os cantos, ocupam o público e o privado de nossas vidas. Antes amantes ou esperanças políticas, depois, assassinos, corruptos, narcisistas, gente vazia.

Respirou fundo para desapertar o peito. Largou o celular, com medo de que as histórias de tantos corações de lata acabem enlatando seu coração de carne. Aconchegou-se nos braços amorosos de seu pai, como um coração protegido pela lata.