O Brasil voltou a incorporar o desenvolvimento econômico e a redução das desigualdades como objetivos centrais da ação pública. Nos últimos anos, importantes iniciativas foram retomadas ou fortalecidas: a Nova Indústria Brasil (NIB), a ampliação do investimento em infraestrutura por meio do Novo PAC, a recuperação da política de valorização do salário mínimo, a expansão do crédito e da inovação via BNDES e FINEP, o fortalecimento da agricultura familiar pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, além da continuidade de instituições estratégicas como a Embrapa e de políticas estruturantes como o Plano Safra.

Essas iniciativas representam uma inflexão importante após um longo período de enfraquecimento da capacidade estatal de planejamento e coordenação do desenvolvimento. Mais do que políticas isoladas, elas apontam para a reconstrução gradual de instrumentos públicos fundamentais para elevar a produtividade, ampliar investimentos e reduzir vulnerabilidades sociais.

Ao mesmo tempo, os desafios brasileiros permanecem de grande magnitude.

O país continua convivendo com forte heterogeneidade produtiva, elevada concentração territorial da renda e da infraestrutura econômica, profundas desigualdades urbanas e regionais e amplos segmentos sociais inseridos em ambientes de baixa produtividade. Em muitas regiões, sobretudo fora dos principais centros dinâmicos, persistem dificuldades de acesso a infraestrutura, tecnologia, crédito, logística, educação técnica e inovação.

A desigualdade brasileira não se limita à renda monetária. Ela assume forma territorial, institucional e cultural. Ao longo da história, consolidou-se no país uma estrutura de privilégios que tende a concentrar oportunidades econômicas, acesso ao Estado, infraestrutura urbana de qualidade e capacidade de influência política em determinados grupos sociais e regiões. Em contrapartida, grandes parcelas da população permanecem submetidas a formas desiguais de inserção econômica e acesso precário aos chamados macro bens públicos: transporte coletivo de qualidade, saneamento, saúde, educação, segurança, conectividade digital e infraestrutura urbana.

Nesse contexto, a ampliação do consumo privado, embora importante, não é suficiente para enfrentar estruturalmente as desigualdades brasileiras. O desenvolvimento sustentável e socialmente inclusivo exige também a expansão do consumo coletivo – entendido como acesso universal e qualificado aos bens e serviços públicos que estruturam a vida urbana e territorial. Sociedades menos desiguais não se caracterizam apenas pela renda das famílias, mas também pela qualidade compartilhada de seus sistemas públicos de infraestrutura e bem-estar.

A experiência brasileira demonstra, contudo, que políticas públicas consistentes podem produzir resultados significativos. A valorização do salário mínimo, os programas de transferência de renda, a ampliação do acesso ao ensino superior, o fortalecimento da agricultura familiar, os investimentos em infraestrutura e os instrumentos de financiamento ao desenvolvimento tiveram impactos importantes na redução da pobreza, na inclusão produtiva e na ampliação do mercado interno.

O desafio atual talvez não seja criar um modelo inteiramente novo, mas aprofundar, integrar e territorializar de maneira mais articulada as políticas já existentes.

Nesse sentido, a Nova Indústria Brasil representa oportunidade estratégica relevante. A política industrial contemporânea deixou de ser compreendida apenas como política fabril tradicional e passou a envolver inovação tecnológica, transição ecológica, bioeconomia, digitalização, infraestrutura, saúde, defesa, segurança energética e fortalecimento de cadeias produtivas territoriais. Trata-se de reconstruir capacidades produtivas nacionais em um contexto internacional marcado pela reorganização das cadeias globais, pela disputa tecnológica e pela emergência climática.

O Brasil possui ativos singulares para esse novo ciclo de desenvolvimento. Sua matriz energética relativamente limpa, a biodiversidade, a capacidade agroindustrial, a infraestrutura científica acumulada em instituições como a Embrapa e as universidades públicas, além da disponibilidade de recursos minerais estratégicos, oferecem condições excepcionais para uma estratégia de reindustrialização sustentável e territorialmente integrada.

Ao mesmo tempo, torna-se necessário ampliar a interiorização do desenvolvimento. Parte importante das desigualdades brasileiras decorre da forte concentração espacial das oportunidades econômicas. Pequenas e médias cidades frequentemente permanecem subordinadas a circuitos produtivos pouco sofisticados, com baixa agregação de valor e reduzida capacidade de retenção de renda local.

Uma estratégia nacional de desenvolvimento territorial poderia fortalecer cadeias produtivas regionais associadas à agroindustrialização avançada, à bioeconomia, à transformação de resíduos agroindustriais e urbanos, às energias renováveis, à economia circular e à microindustrialização distribuída. Isso permitiria combinar aumento da produtividade, geração de empregos qualificados e redução das desigualdades regionais.

Nesse contexto, a infraestrutura econômica deve ser concebida não apenas como corredor de escoamento de commodities, mas como instrumento de integração produtiva territorial. Grandes investimentos em ferrovias, rodovias, hidrovias e plataformas logísticas ligados ao setor exportador podem produzir efeitos muito mais amplos quando articulados a redes regionais de transporte, armazenagem, processamento produtivo e serviços locais.

A conexão entre grandes eixos logísticos e infraestruturas territoriais secundárias – estradas vicinais, plataformas multimodais, armazenagem, agroindustrialização, energia e conectividade digital – pode ampliar significativamente os impactos econômicos regionais dos investimentos públicos e privados. Em vez de funcionarem apenas como corredores de passagem entre áreas produtoras e portos exportadores, esses sistemas podem contribuir para estimular cadeias produtivas locais, agregação de valor, diversificação econômica e geração de empregos ao longo do território.

A infraestrutura deixa, assim, de operar apenas como vetor de extração e circulação de produtos primários e passa a atuar também como instrumento de densificação econômica e redução das desigualdades regionais.

Da mesma forma, os grandes centros urbanos exigem nova abordagem para os problemas da informalidade, da precarização e da baixa integração produtiva de amplos segmentos da população. Milhões de brasileiros trabalham em ambientes de baixa produtividade não por ausência de capacidade ou iniciativa, mas pela insuficiência de infraestrutura econômica, acesso tecnológico, crédito, logística e coordenação pública.

Políticas voltadas à produtividade dos chamados “segmentos invisíveis” – trabalhadores autônomos, pequenos produtores, trabalhadores da agricultura familiar e de cooperativas, microempreendedores e trabalhadores da economia popular – poderiam elevar simultaneamente produtividade, renda e inclusão social. A transformação digital pode desempenhar papel importante nesse processo, desde que tratada como infraestrutura pública de desenvolvimento e não apenas como plataforma concentradora de renda e poder econômico.

Além disso, torna-se cada vez mais necessário incorporar explicitamente a dimensão distributiva nas políticas públicas. Decisões relacionadas à infraestrutura, inovação, tributação, financiamento, regulação tecnológica e política urbana produzem efeitos distributivos relevantes. A incorporação de mecanismos de avaliação territorial e distributiva das políticas públicas poderia fortalecer a capacidade do Estado de reduzir desigualdades de maneira mais coordenada e consistente.

Também se torna fundamental fortalecer a coordenação entre política industrial e política macroeconômica. Estratégias de desenvolvimento produtivo de longo prazo exigem ambiente macroeconômico compatível com expansão do investimento, financiamento produtivo, inovação e transformação estrutural. Taxas de juros persistentemente elevadas, elevada volatilidade cambial e ciclos de instabilidade reduzem a capacidade de planejamento das empresas, dificultam a expansão industrial e limitam a eficácia das políticas públicas de desenvolvimento. A coordenação entre política fiscal, monetária, cambial e industrial constitui, portanto, dimensão estratégica para ampliar a eficiência dos investimentos públicos e privados e sustentar trajetórias de crescimento com inclusão social.

A revisão gradual de gastos tributários de baixa efetividade econômica poderia liberar espaço fiscal para ampliar a capacidade operacional do BNDES e da FINEP, fortalecendo o financiamento de inovação, infraestrutura, reindustrialização e desenvolvimento territorial. Em vez de operar predominantemente por meio de renúncias fiscais fragmentadas e muitas vezes pouco avaliadas, parte do esforço público poderia ser redirecionada para instrumentos com maior capacidade de coordenação estratégica, indução tecnológica e difusão produtiva.

O enfrentamento das desigualdades brasileiras exige, portanto, uma visão integrada de desenvolvimento. Crescimento econômico, política industrial, inovação tecnológica, sustentabilidade ambiental e inclusão social não devem ser tratados como agendas separadas ou contraditórias. A experiência internacional recente sugere exatamente o contrário: sociedades que conseguem combinar produtividade elevada, coesão social e forte infraestrutura pública tendem a apresentar maior estabilidade econômica, maior capacidade inovadora e melhor qualidade de vida.

O Brasil dispõe hoje de condições institucionais importantes para avançar nessa direção. A reconstrução parcial da capacidade de planejamento estatal, a retomada dos investimentos públicos, o fortalecimento das políticas industriais e de inovação e a revalorização do desenvolvimento regional criaram bases relevantes para um novo ciclo.

O desafio estratégico consiste agora em aprofundar a coordenação entre essas iniciativas, ampliar sua capilaridade territorial e fortalecer sua capacidade de enfrentar as múltiplas formas de desigualdade que historicamente marcaram a formação social brasileira.

Mais do que ampliar a renda agregada, trata-se de construir um modelo de desenvolvimento capaz de democratizar oportunidades, reduzir privilégios estruturais e ampliar o acesso coletivo aos bens materiais, urbanos, tecnológicos e institucionais que definem a qualidade de vida nas sociedades contemporâneas.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “O Brasil refém da dependência tecnológica”, de Luiz Martins de Melo.