
Tudo parou. Novamente. Tristemente. Com vírus reforçado e nossa vigilância já cansada de uma rotina de incertezas. Sâmela não sabe o que fazer. Tem medo da morte, mas também da fome.
Vê números mostrando os doentes de hoje e gráficos sobre os mortos de amanhã. Entende os cálculos e as imposições da doença. Ela também calcula. Dinheiro que não entra hoje e as necessidades de amanhã. Tem o trabalho, o pouco que ganha e os filhos. Deixaria de comer para alimentá-los. Morreria para salvá-los. Mas estes extremos não resolvem seu problema.
Pensa que este sofrimento deveria unir as pessoas. Mostrar que a vida é efêmera demais para perdê-la com coisas efêmeras. Que tudo pode mudar e não importa o quão sólido pareça o seu mundo, ele pode desabar em instantes. Que não importa o poder ou a grana que se tem, um espirro pode lhe tirar tudo.
Sâmela sabe que as pessoas sabem que dependem umas das outras. Mas também sabe que elas não sabem ser generosas com as outras. Não aprenderam ou desaprenderam em algum momento. Talvez, por medo do egoísmo dos outros, anteciparam-se garantindo só para si a colaboração dos outros. Com força. Depois, pagando salário. Comprando gente. Todos viraram mercadorias no mercado das desumanidades.
O vírus é indiferente a tudo isso. Ele é o que é e pouco importa o que se pense dele. Faz o que faz do jeito que sua natureza o inclina. Sem sentimentos. Sem pensamentos. O vírus é só ação. Mas gente não. Gente pensa e sente, depois age. E pensando e sentindo, muitos ajudam o vírus a matar.
Pensam neles mesmos. Nos seus cálculos, somam apenas os próprios sentimentos. Como o que nos faz humanos são nossos sentimentos e pensamentos, a humanidade alheia não conta. E porque contaria, se mercadoria não é gente mesmo?
Dilema de Sâmela. Precisa sair de casa para trabalhar, porque trabalhar é a única forma de conseguir dinheiro para alimentar os filhos. Arrisca sua vida e a de outros com isso. Para agir sem riscos, precisa de dinheiro, ou comida, mas não lhe dão. Precisa viver. Precisa arriscar a vida para viver. Precisa vender a vida para viver.
Sâmela não culpa o vírus, porque ele é o que é. Mas culpa gente, que não é obrigada a ser o que é. Culpa-os pelo que sentem, pensam e fazem. Ou deixam de fazer. Culpa os oportunistas que veem na pandemia o momento de passar a boiada. Culpa os arrogantes que, de máscara no queixo, saem por aí dizendo que o incômodo é coisa de escravos. Culpa os negacionistas que, por estupidez ou má fé, ignoram e fazem ignorar que somos todos escravos das circunstâncias. Culpa a si mesma, por perder tempo pensando em culpas quando deve decidir se sai em busca de dinheiro ou não.
Perdida nos pensamentos, quando se deu conta, olhava bobamente para o saco de arroz e para as pessoas que cruzavam rapidamente a janela da cozinha. Suspirou, inconformada por não saber ao certo se devoraria ou se seria devorada.
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