
A cada transformação da sociedade, os jovens mudam de sonho. Na era digital, as possibilidades parecem infinitas, mas a distância entre o que se deseja e o que se pode realizar ajuda a explicar as incertezas sobre o futuro. Um cenário juvenil distinto do passado.
Isso porque houve um tempo em que o futuro de um jovem era, em grande medida, decidido antes mesmo de ele descobrir o que desejava ser. Na sociedade agrária, por exemplo, nascer em uma família numerosa significava compartilhar a terra, o trabalho e as perspectivas de sobrevivência. Para muitos, a aspiração não era escolher livremente um destino, mas encontrar uma saída para aquele que lhes havia sido reservado.
Em determinadas famílias rurais, enquanto alguns filhos permaneciam na atividade agrícola, outro poderia ser estimulado a buscar oportunidades fora dela. A vida religiosa, o serviço militar, o comércio ou a migração representavam caminhos de mobilidade. Sair de casa significava escapar das limitações da propriedade familiar e conquistar uma posição própria no mundo. O sonho começava pela possibilidade de não repetir o destino dos pais.
A partir da Revolução de 1930, com a industrialização e urbanização, as aspirações juvenis ganharam novos horizontes. A cidade passou a oferecer empregos, escolas, instituições e carreiras que não dependiam diretamente da terra. A Igreja e as Forças Armadas podiam representar, para determinados segmentos sociais, oportunidades de formação, reconhecimento e mobilidade social ascensional. O emprego regular e a possibilidade de constituir família passaram a integrar uma promessa de vida melhor.
O futuro consistia em conquistar um lugar relativamente seguro na sociedade. Ter salário, profissão com direitos sociais e trabalhistas e moradia significava superar a insegurança material e construir uma trajetória diferente daquela experimentada pelas gerações anteriores. A mobilidade social ascensional não era apenas uma condição econômica, mas uma aspiração que organizava o tempo da juventude e a expectativa de chegada à vida adulta superior à de seus pais.
A escola como promessa de ascensão
No auge da sociedade industrial, sobretudo nas décadas de 1970 e 1980, a educação tornou-se uma das principais promessas de mobilidade social. A expansão do ensino até o universitário, a consolidação do emprego assalariado formal e o crescimento das ocupações técnicas e administrativas alimentaram a expectativa de que estudar permitiria ultrapassar os limites impostos pela origem familiar.
Para os filhos da classe trabalhadora, o diploma poderia permitir a substituição do trabalho manual por ocupações de maior remuneração e prestígio. Para segmentos da classe média, representava a possibilidade de preservar posições conquistadas e assegurar aos filhos uma trajetória mais ascendente. A escola aparecia como uma ponte entre o presente e um futuro socialmente reconhecido pelo curso da industrialização nacional.
Uma promessa que nunca se realizou plena e igualmente para todos. A origem social continuou influenciando as oportunidades educacionais, enquanto o diploma não eliminou as desigualdades. Ainda assim, havia uma narrativa relativamente compartilhada de estudar, conseguir um bom emprego, constituir família, comprar uma casa e oferecer aos filhos um padrão de vida melhor.
A juventude era concebida como uma etapa de preparação. Sacrifícios no presente poderiam ser compensados por conquistas futuras. O esforço tinha uma direção, e a vida adulta funcionava como horizonte de realização.
Mas o que acontece quando essa sequência deixou de oferecer garantias desde a inflexão neoliberal a partir dos anos 1990, com a desindustrialização do país?
Da fábrica ao feed: a revolução das aspirações
O avanço da sociedade de serviços hiperconectada que sucedeu a ruína da modernidade industrial terminou por alterar profundamente a relação entre juventude e futuro. A compensação à perda da centralidade relativa do trabalho industrial transcorreu com a disseminação heterogênea e, geralmente, inferior, de postos de trabalhos nos serviços de produção, distribuição, sociais e pessoais.
Neste primeiro terço do século XXI, as atividades ligadas à informação, à comunicação, aos serviços de plataformas digitais e de produção de conteúdo cresceram também. Com a internet, a aproximação de mundos antes distantes permite expor os jovens a uma variedade extraordinária de estilos de vida.
Com isso, por exemplo, um adolescente de uma pequena cidade pode acompanhar a rotina de um empreendedor digital, de um artista internacional ou de alguém que transformou um talento em fonte de renda e reconhecimento. O horizonte das aspirações deixa de estar restrito à profissão dos pais, às oportunidades locais ou às carreiras conhecidas pela comunidade.
O sonho já não se limita a conseguir um emprego melhor. Pode ser o de trabalhar em qualquer lugar, criar um negócio próprio, tornar-se influenciador, viver de uma paixão, alcançar independência financeira ou construir uma identidade que não dependa das hierarquias tradicionais.
A internet amplia o acesso às referências, mas também reorganiza a competição. A antiga vitrine das posições sociais, antes observada principalmente na vizinhança, na escola e no trabalho, transforma-se em um espetáculo global. O jovem pode comparar a sua vida cotidiana com imagens cuidadosamente selecionadas de milhares de pessoas. O sucesso alheio deixa de ser uma exceção distante e passa a aparecer diariamente na tela do celular.
É aí que a ampliação das possibilidades pode se converter em fonte de angústia. Quanto maior o número de vidas possíveis que se pode imaginar, maior pode ser a sensação de que a vida efetivamente vivida ficou aquém do desejado.
O algoritmo não apresenta apenas produtos, uma vez que distribui referências de felicidade, beleza, consumo, liberdade e sucesso. A promessa implícita é que sempre existe uma versão melhor de si mesmo esperando para ser alcançada. O problema é que a visibilidade das conquistas não revela suas condições materiais, os fracassos ocultos ou os privilégios que as tornaram possíveis.
O jovem é convidado a pensar em si mesmo como um projeto permanente de aperfeiçoamento, mas nem sempre dispõe de emprego, renda, moradia ou tempo para sustentá-lo. A liberdade de imaginar cresce mais depressa do que a capacidade de realizar.
A vida adulta foi adiada — ou tornou-se mais difícil de alcançar?
É nesse contexto que precisam ser compreendidas a postergação do casamento e a decisão de ter filhos mais tarde, ou de não os ter. Não se trata simplesmente de uma geração que perdeu o interesse pela família ou que prefere a vida virtual à vida real.
A formação de uma família passou a competir com outras aspirações como estudar por mais tempo, desenvolver uma carreira, conhecer o mundo, preservar a autonomia e construir vínculos afetivos menos subordinados às convenções. Para muitas mulheres, essa transformação também expressa a recusa de que casamento e maternidade interrompam projetos profissionais e pessoais.
Ao mesmo tempo, a instabilidade do trabalho, os custos da habitação, a dificuldade de acesso à renda e a ausência de condições para conciliar emprego e cuidado tornam mais difícil transformar o desejo de constituir família em uma decisão concreta.
A postergação pode expressar liberdade de escolha, mas também insegurança crescente. Pode significar que os jovens desejam experimentar outras possibilidades antes de assumir compromissos duradouros. Pode igualmente também revelar que não encontram condições para realizar aquilo que desejam. Por isso o desânimo, a passividade e até o ressentimento.
A distinção é decisiva. Nem todo adiamento é emancipação, assim como permanecer solteiro ou não ter filhos não representa necessariamente frustração. O problema social não está em abandonar uma trajetória obrigatória, mas em não dispor de condições para escolher entre diferentes trajetórias.
A internet contribui para essa mudança ao tornar visíveis outros modelos de intimidade, relacionamento e organização da vida. O casamento deixa de ser, para muitos, uma etapa que deve necessariamente acontecer em determinada idade. Torna-se uma possibilidade entre outras, condicionada à compatibilidade com os projetos individuais e à existência de recursos para sustentá-la.
Mais possibilidades, menos certezas
A juventude digital vive uma contradição histórica. Nunca foi tão fácil conhecer diferentes modos de vida, acessar informação, estabelecer contatos e imaginar trajetórias que rompam com as convenções sociais e tradições familiares. Ao mesmo tempo, a multiplicação das alternativas não garante autonomia material para percorrê-las.
Nas sociedades anteriores, as aspirações eram frequentemente delimitadas pela posição ocupada na estrutura social. Na sociedade industrial, a educação oferecia uma promessa de ascensão, ainda que desigual. Na sociedade digital, o horizonte se expande continuamente, mas o caminho entre o desejo e a realização torna-se mais incerto.
A ideia de que cada pessoa pode construir a própria trajetória convive com mercados de trabalho instáveis e mecanismos de competição que transferem aos indivíduos a responsabilidade pelo sucesso e pelo fracasso. Se alguém não consegue prosperar, a explicação tende a recair sobre a falta de talento, disciplina ou capacidade de se promover. Desaparecem do enquadramento as oportunidades desiguais, as condições de partida e a distribuição social dos riscos.
O sonho de viralizar sintetiza essa ambivalência. Em princípio, qualquer pessoa pode alcançar uma audiência extraordinária. Na prática, a atenção é escassa, os resultados são imprevisíveis e a renda depende de plataformas cujas regras não estão sob o controle dos produtores de conteúdo. A promessa de autonomia pode terminar em dependência de algoritmos, exposição permanente e trabalho sem garantias.
O mesmo vale para a educação. O diploma continua importante, mas já não assegura, por si só, a posição social que gerações anteriores esperavam alcançar. A juventude é estimulada a acumular qualificações, experiências, contatos e competências digitais em uma corrida que parece não terminar. A preparação para a vida adulta prolonga-se, enquanto a chegada a uma condição estável se torna mais incerta.
A questão não é condenar a internet, idealizar o passado ou atribuir aos jovens uma suposta incapacidade de assumir compromissos. Mas a de compreender que as aspirações são produzidas historicamente e dependem das condições concretas de realização.
Que futuro a sociedade oferece aos jovens?
Uma sociedade que amplifica as aspirações sem simultaneamente ampliar as oportunidades corre o risco de produzir uma geração permanentemente mobilizada pelo desejo e continuamente frustrada pela realidade. Não basta dizer aos jovens que podem ser tudo aquilo que quiserem se o acesso à educação de qualidade, ao trabalho digno, à moradia e ao tempo livre permanece profundamente desigual.
O desafio é transformar a liberdade de imaginar em liberdade efetiva de escolher. Isso exige educação que amplie capacidades, trabalho que assegure direitos, políticas de habitação, proteção social, acesso à cultura e condições para compartilhar as responsabilidades do cuidado. Exige também reconhecer que a juventude não deve ser reduzida a uma etapa de preparação para produzir e consumir, mas constitui um período legítimo de experimentação, participação e construção de autonomia.
Talvez a maior mudança histórica esteja na própria definição de sucesso. Para alguns jovens, ele continua significando ascender socialmente, obter um diploma e constituir família. Para outros, significa empreender, circular pelo mundo, criar comunidades, trabalhar menos, produzir cultura ou conquistar maior controle sobre o próprio tempo. Essas aspirações não são necessariamente incompatíveis, mas dependem de condições estruturais do país para que possam ser realizadas sem transformar cada escolha em privilégio.
Da terra à fábrica, da escola à tela, cada sociedade projeta uma imagem particular do futuro. A pergunta que se impõe é se a era digital será capaz de oferecer algo além da multiplicação de desejos e da competição por visibilidade.
O sonho da juventude não precisa voltar a ser o de seus pais. Precisa, isso sim, encontrar uma sociedade em que imaginar outras formas de viver não seja um luxo, e realizá-las não dependa de sorte, herança familiar ou de alguns segundos de viralização.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Revisão: Celia Bartone
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